O presente projeto de pesquisa toma como cenário a disputa entre narrativas políticas na conjuntura brasileira pós-impeachment. Traduzida na luta simbólica Impeachment versus Golpe, tal disputa revela as estratégias discursivas acionadas pelos agentes políticos com vistas a conquistar a adesão da população no jogo político regular. Considerando essa conjuntura, objetivo, através dessa investigação, compreender como se estrutura o embate entre narrativas acerca do processo de impedimento de Dilma Rousseff e seus desdobramentos.
Refletir sobre os processos de construção de narrativas políticas coloca ao trabalho investigativo, inevitavelmente, a necessidade de discutir as fronteiras entre a política e o simbólico. Nas palavras de Barreira (1998), a concepção do simbólico como parte das atividades políticas tem como pressuposto o fato de que o real e o simbólico constituem instâncias articuladas de uma mesma totalidade [...] (p. 43). Nesse sentido, compreende-se que a produção de imagens, símbolos e mitos com vistas à legitimação da dominação é uma atividade que pertence ao repertório das tarefas políticas desde longa data. Esse trabalho de produção do simbólico remete à exigência que a ação política tem de se fazer crer. Em outras palavras, tais atividades respondem à necessidade que os grupos e atores políticos têm de formar e administrar uma representação de si junto à população/eleitorado que lhes confira legitimidade.
A disputa eleitoral de 2014 foi a mais competitiva desde a redemocratização, fortemente marcada por um anseio de mudança do eleitorado. Apesar de constituída sob uma tônica que favorecia a oposição, a eleição presidencial foi novamente vencida por Dilma Rousseff, candidata à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Cabe destacar que as fissuras instituídas no embate eleitoral se desdobraram no segundo mandato da presidenta. O clima de tensão pós-eleitoral somado ao escândalo da Lava Jato e à crise econômica serviram de esteio para o impeachment, num contexto de polarização exacerbada que se desdobrou num clima de terceiro turno eleitoral, os desdobramentos do pós-eleição vistos em retrospectiva parecem indicar “a crônica de uma morte anunciada” (LOPES, 2016. p. 295)
Os desdobramentos do processo de impedimento de Dilma Rousseff definiram, portanto, uma conjuntura propícia para a análise da disputa simbólica entre narrativas políticas. Delimitado como ciclo político inclusivo cujas realizações deveriam ser aprimoradas e ampliadas pelos opositores, como em 2010, o lulismo passou a ser caracterizado, por estes, como um projeto político corrupto, irresponsável e populista, em 2015 (LOPES, 2016. p. 296). A crise que se abateu sob a hegemonia da narrativa lulista abriu flanco para a emergência de uma disputa simbólica cuja mira está voltada para a eleição de 2018.
O jogo político atual comporta doses de imprevisibilidade para os agentes políticos, sobretudo, pelos efeitos da Lava Jato e da agenda de reformas em curso no País. No entanto, o acompanhamento sistemático das movimentações dos agentes políticos nos permitem identificar as estratégias que visam construir as narrativas políticas que serão apresentadas aos eleitores na próxima eleição presidencial.
As experiências governativas do Partidos dos Trabalhadores (PT), no âmbito do governo federal, subsidiaram a produção de uma narrativa política estruturada em torno da definição de temporalidades, o lulismo versus o passado, definidas em função da existência ou não de direitos sociais e cidadania para amplas parcelas da população (LOPES, 2016. p. 294). Tal narrativa estruturou os embates políticos nas eleições presidenciais de 2006, 2010 e 2014. Com o processo de impeachment de Dilma Rousseff, a narrativa lulista tem perdido parte de sua hegemonia junto à população, mas não ao ponto de ser desconsiderada na escolha eleitoral. Exemplo disso é a crescente liderança de Lula, apesar das condenações em primeira e segunda instâncias, nas pesquisas de intenção de votos.
A hipótese aqui trabalhada é de que a narrativa lulista tem tal enraizamento junto à população que passa a ser incorporada como uma gramática política, a qual os demais agentes do campo político não podem desconsiderar ou mesmo subverter.
Na busca por repostas em torno da hipótese orientamos as reflexões deste trabalho a partir das seguintes questões: quais as narrativas políticas produzidas acerca do impedimento de Dilma Rousseff e seus desdobramentos? Com base nesta indagação primeira, perguntamo-nos também: Como se estrutura a disputa entre tais narrativas? Que agentes estão implicados na produção e visibilidade das narrativas contrapostas? Que aspectos conjunturais favorecem ou embaraçam o desenvolvimento das narrativas?
Partindo do pressuposto de que a luta política é luta simbólica (BOURDIEU, 1989), a análise é desenvolvida buscando revelar os elementos que compõem as narrativas políticas produzidas acerca do impedimento de Dilma Rousseff. O corpus da análise é constituído pelas Propagandas Partidárias Gratuitas (PPGs) dos principais partidos: Partidos dos Trabalhadores (PT), Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), no período de 2015 a 2018.
A análise dos dados coletados constrói uma categorização que permite compreender marcas discursivas (textos e imagens) que contribuem para a compreensão das narrativas políticas sobre o impeachment de Dilma Rousseff e seus desdobramentos para o pleito eleitoral de 2018.