Favelas em Foto
Nossa proposta de apresentação é debater a experiência sobre o projeto Favelas em Foto, uma série de encontros, organizada pelo nosso coletivo Favela em Foco, feita para discutir a criação fotográfica nas favelas do Rio de Janeiro. Os encontros reuniram moradores, ativistas e organizações de direitos humanos que atuam em favelas, fotógrafos e coletivos de comunicação popular, todos com o objetivo de discutir a memória como um bem comum na construção da narrativa da cidade. Nestes encontros, privilegiou-se o protagonismo dos moradores como peça fundamental para se contar essa história. Apesar de contarmos com o interesse de pessoas de diferentes partes da cidade, a participação se deu como uma ocasião privilegiada para ouvir os moradores, já tantas vezes silenciados pela desigualdade sócio-espacial da cidade.
Os relatos dos moradores são um retorno ao trabalho fotográfico, termômetros que contribuem na compreensão do processo de construção de memória em áreas populares e favelas. Entende-se que hoje a documentação nessas áreas do Rio tende a se dividir em dois grupos: a de um fotojornalismo hegemônico versus ao que alguns grupos entendem como fotografia popular. Um dos argumentos para se definir este tipo de fotografia enquanto popular é de que há uma horizontalidade que, não apenas se refere a esta relação dos fotógrafos com os fotografados, mas também da sua própria identidade neste contexto, sendo muitas vezes esses fotógrafos pessoas que vivenciam o cotidiano dessa favela, como moradores ou por adoção a este espaço - seja trabalho ou outra razão. Logo, se essa horizontalidade e relação dialógica é o pressuposto dessa produção fotográfica, é preciso questionar se essa documentação fotográfica feita no Rio em áreas populares realmente atende as demandas dos moradores. Há uma divergência entre o que é produzido e os desejos dessa população representada nessa documentação? É necessário avaliar se essa premissa vem se cumprindo na prática ou se há outros caminhos a serem percorridos que os fotógrafos ignoram.
Em essência, a documentação desses espaços é a história que contamos da cidade do Rio de Janeiro. É uma semente pro futuro, não apenas um retrato do passado. Os moradores de favela tiveram historicamente pouco acesso à voz e o acesso à produção de suas narrativas visuais. Esse é um momento para que moradores retratados e moradores fotógrafos pudessem se reunir e avaliar conjuntamente como querem contar sua história nesse contexto de uma cidade desigual sócio-espacialmente, mas também informativamente. O acesso à construção e divulgação de sua memória e seus espaços urbanos é também um direito à cidade. Os depoimentos variaram em sua forma e conteúdo, mas colocaram muitas questões comuns a diferentes favelas assim como outras mais específicas de cada localidade. A carga histórica da Providência, das primeiras favelas do Rio de Janeiro, trouxe pontos de discussão muito diferentes das questões na Vila Kennedy, área planejada pelo estado para realocar favelados removidos de outros espaços e que, mais tarde, passou a ser vista como uma área de favela também. Porém, apesar disso, a disputa por uma narrativa simbólica e autônoma foi colocada em cada encontro.
A produção desses debates envolveu uma pesquisa, para cada local, de fotógrafos e coletivos que produzem material nas favelas e territórios populares, para ser usado como apresentação e divulgação do trabalho desses fotógrafos. Mas foram também importantes ferramentas, a partir das quais os moradores puderam esboçar seus próprios relatos, comentários ou observações. As conversas dos eventos foi gravada em áudio para análise e material de pesquisa e avaliação do caminho que nós, enquanto fotógrafos, estamos traçando.
A análise das falas favorece a reflexão e estimula o debate sobre imagens e narrativa da cidade, com especial foco em direitos humanos e no debate do direito à cidade. Embora o projeto até aqui se restringiu a apenas quatro localidades na cidade, Manguinhos, Providência, Santa Marta e Vila Kennedy, nossa intenção é que possamos continuar essa conversa em outros lugares. Esperamos que seja o mais breve possível, mas entendemos que compartilhar o que já foi feito é igualmente importante. Estamos cientes que ainda há muito por fazer, tanto na reflexão como no trabalho, ambos diretamente relacionados. Um alimenta o outro. Essa pausa para avaliação é necessária ao trabalho de muitos envolvidos, tais como fotógrafos, coletivos de fotógrafos, comunicadores populares, midiativistas e jornalistas, que se fizeram presentes a cada edição dos nossos encontros.
Para concluir, gostaríamos de dividir nossa experiência com esses encontros e espaços de diálogo. Compartilhar como foi a dinâmica e suas diferenças em cada lugar, as observações, dúvidas e também algumas de nossas breves conclusões. Tudo isso se remete ao que entendemos como o nosso papel enquanto defensores da fotografia popular como uma forma de pensar e mediar a cidade através da fotografia. Que cidade queremos, que cidade queremos contar?
Favela em Foco
O Favela em Foco é um coletivo multimídia, fundado por fotógrafos oriundos de espaços populares, com atuação em favelas cariocas. O coletivo documenta questões relacionadas a esses espaços, com o objetivo fundamental de descolonizar o olhar estereotipado e marginalizado sobre as favelas, reproduzido pela mídia hegemônica. Temas variam desde o cotidiano e a cultura popular a situações de descaso do poder público, como a falta de infra-estrutura, remoções e segurança pública. A divulgação desse material acontece em plataformas multimídia ou com projeções e ações culturais de intervenção urbana.
O Favela em Foco dialoga com as pessoas de espaços populares, em todo o processo de documentação, ao valorizar estes espaços e suas histórias, o que resulta em uma melhora da auto-estima individual e coletiva. Através dessas narrativas, espera-se humanizar o olhar sobre as favelas e espaços populares da cidade do Rio de Janeiro entre aqueles que não conhecem esses espaços ou têm uma visão restrita dessa realidade.