O artigo pretende realizar uma revisão crítica dos dados desenvolvidos pelo censo demográfico de 2010 do Brasil, em especial das estatísticas que foram levantadas sobre mulheres nesse processo. Enquanto mulher e pesquisadora da Geografia, desenvolvo essa provocação com base em teorias do pensamento geográfico que discutem a possibilidade de apreender conhecimento sobre os espaços a partir das experiências vividas nele, junto a teorias feministas que partem da existência de várias classes de mulheres no Brasil e da sobreposição de opressões às quais elas estão expostas, pretendendo investigar mais a fundo a diversidade de realidades às quais mulheres de distintas cores, origens, idades, escolaridades, classes sociais e demais qualidades estão relacionadas.
A ideia é propor uma maneira de nos relacionarmos com a coleta e produção de dados ao longo de pesquisas populacionais que leve em consideração o ponto de vista desses próprios corpos que experienciam o espaço, diferente da tradicional abordagem adotada. A intenção é a de que uma análise mais apurada dos tão diversos fenômenos sociais perceptíveis no mundo se faça possível a partir dessa aproximação sujeito-objeto, dando margem a novas interpretações e possibilidades de uso dos dados demográficos que sejam mais plurais e representativas, em termos qualitativos.
A partir do pensamento da geógrafa brasileira Sandra Lencioni, que considera a experiência vivida enquanto etapa metodológica fundamental e de suma importância para a construção da nossa consciência de mundo, me utilizo da Fenomenologia contida na abordagem do sociólogo e filósofo Henri Lefebvre e seu interesse em esmiuçar as maneiras como os espaços são percebidos, concebidos, vividos pelas pessoas, para refletir sobre a forma como nos relacionamos com os dados estatísticos.
Então influenciada pela metodologia fenomenológica de Merleau-Ponty, optei por me apoiar na teoria feminista e interseccional da professora de Direito Kimberlé Crenshaw, que joga luz à necessidade de atenção em relação às desigualdades existentes dentro da própria classe de mulheres. Essa lógica defende de forma central que, tanto os aspectos de gênero da discriminação racial, quanto os aspectos raciais da discriminação sexista não são abordados de maneira satisfatória pelos discursos dos direitos humanos devido ao seu universalismo inerente, inspirado em experiências masculinas. Para justificar, recorro a Angela Davis, filósofa que é uma das mais relevantes vozes da militância negra e feminista, que em seu livro “Mulheres, Raça e Classe”, mais especificamente no capítulo que se chama “Racismo, controle de natalidade e direitos reprodutivos”, defende que o preconceito racial foi uma das forças motrizes do movimento governamental de controle do crescimento da população, mais especificamente, o controle da natalidade, durante suas fases primárias.
Alimentando esse pressuposto, exploro também, com o auxílio do livro “Por uma Geografia do Poder” onde Claude Raffestin destaca a relação entre a contagem de pessoas, a intencionalidade e subjetividades contidas em um processo que ao longo dos séculos contém finalidade estratégica, apresentando o recenseamento como um projeto de controle de corpos, estes reduzidos à sua força de trabalho.
Para o debate, no caso, sobre corpos femininos, me utilizo de indicadores demográficos referentes à constituição das famílias, informações sobre natalidade, migração, educação e rendimento financeiro a partir principalmente, de parâmetros de cor/raça e parâmetros territoriais de urbanidade/ruralidade. Essa reflexão, acredito, caminha ao encontro de uma discussão mais acurada sobre a questão de gênero enquanto ponto de partida para olhares mais críticos sobre o que nos cerca. As relações de poder que se dão no espaço vivido justificam ainda o estudo acerca de conceitos como “espaço” e “território”, discussões centrais para o pensamento geográfico. Portanto, a construção de Geografias que se renovem constantemente e questionem seus paradigmas faz-se necessária pois fortalece possibilidades de análises com maior grau de complexidade e refinamento sobre fenômenos de caráter multidisciplinar e interesse não apenas acadêmico ou científico, mas também em direção à formulação de políticas públicas e de intervenções autônomas que acreditem na potência do planejamento territorial como possibilidade para a reconstrução de um mundo mais igualitário, a partir da promoção de visibilidade e garantia de direitos a todos os grupos e indivíduos que estejam sob condições de vulnerabilidade.