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Resumen de ponencia
Pedagogia Camponesa: Terra, Trabalho, Família e Escola

Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Educação - FaE/UFMG (Brasil)

*Camila Siqueira



É limitada a afirmação de que lugar de criança é apenas na escola, pois deve ser também na família, no trabalho e na movimento social. A luta pela ampliação do acesso à educação vem sendo travada pelos movimentos sociais que questionam a ordem desigual vigente, para se apropriar dos instrumentos escolares e construir outra sociedade.
Essa disputa pelo acesso nos diversos níveis de ensino, e também, nos diversos estratos sociais e nos diversificados territórios, torna-se uma tarefa revolucionária, na medida em que, esse acesso pode permitir impulsionar transformações sociais. E a bandeira de acesso dos povos camponeses à educação se insere nesse rumo.
Existe no Brasil uma vertente que denominamos Educação Rural, que é o projeto histórico de educação precária oferecida aos camponeses pelo Estado. Em meados dos anos 1990 surge um movimento organizado chamado Educação do Campo com objetivo de denunciar esse descaso e reivindicar direitos para os povos do campo. Ao reivindicar o acesso, esse movimento questiona o projeto de Educação Rural, e reivindica uma escola do campo.
Uma questão defendida pelo movimento é que a vida do campo não seja romantizada, pois é justamente na tensão da relação das pessoas com a terra que devem-se orientar as práticas pedagógicas da Educação do Campo. Por sua vez, um de seus aspectos relevantes, é trazer uma crítica à histórica destituição de direitos da população do campo; é uma temática/movimento/paradigma.
É uma temática investigativa que agrega pesquisas de diversos âmbitos, um movimento que articula a resistência e a proposição, um paradigma que questiona a absurda ideia de fim do campo e do campesinato. Na multiplicidade da Educação do Campo reside sua potência.
Trata-se, portanto, de um movimento que pensa a educação para além do letramento, mas que alcance a formação de sujeitos. Não se trata de uma negação da escola, pois compreende que esta cumpre papel na própria implementação da Educação do Campo como utopia campesina, mas há uma concepção mais ampliada de educação, para além do próprio processo de escolarização. Por isto, inclui a escola, mas a extrapola. Evidenciando a dimensão da vivência do trabalho, do movimento social e da relação com a terra, podemos sintetizar a Educação do Campo nas Pedagogias do Oprimido, do movimento social e da terra.
O debate acerca da necessidade de políticas públicas que atendam a essas especificidades da Educação do Campo vem sendo ampliado. Há frutos e avanços nesse campo, mas há imensos desafios a ser enfrentados. Dentre eles, a problemática das políticas públicas como um campo escorregadio de disputas, que representa conquistas, mas, simultaneamente, desarticula a luta política.
Uma das denúncias que o movimento de Educação do Campo faz ao Estado brasileiro é o fechamento de escolas como um crime. Originou-se, inclusive uma campanha "Fechar escola é crime", organizada pela Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST, denunciando a negação do direito à educação aos povos camponeses.
Contudo, muitas escolas rurais, situadas no campo não atendem teórica e metodologicamente os anseios dessas populações camponesas, por isso a luta contra o fechamento se amplia e insere a necessidade de criar um ambiente escolar camponês.
O presente trabalho evidencia uma experiência de busca de construção de instrumentos de uma pedagogia camponesa, no Norte do Espírito Santo, região Sudeste do Brasil que tem se difundido a Pedagogia da Alternância para transformação das precárias escolas rurais em território de participação camponesa.
O percurso dessa pesquisa que foi parte da tese de doutoramento em Educação na qual se deu a investigação das razões histórico-territoriais que forjaram essa pedagogia e análise das forças políticas que disputam nesse território. Utilizando analise documenta, entrevistas e organização cartográfica.
Observamos que a tríade - terra, trabalho e família -, como parte da construção da ordem moral camponesa, com a expansão do agronegócio vai criando a necessidade da escola como um pilar que fortalece essa tríade.
A Pedagogia da Alternância foi desenvolvida nesse território com o objetivo que contemplar os tempos de produção agrícola sem atrapalhar o calendário escolar e vice-versa. Uma pedagogia que leva em consideração o tempo da natureza, condição para que o trabalho camponês não seja suprimido pela escola. E ainda, tem o internato como possibilidade de acolhimento escolar das famílias que residem distante de unidades escolares.
Essa pedagogia que surge na França e se multiplica em muitas experiências diferentes no mundo, chega ao Brasil no final da década de 1960 ligada à igreja católica, e primeiramente no Estado do Espírito Santo, uma das razões dos desdobramentos atuais dessa pedagogia que já tem uma tradição nesse estado.
É possível resumir um histórico da Pedagogia da Alternância no Brasil. O ano de 1960 se configura como o momento da criação das Escolas Família Agrícola – EFAS; os anos 1980 é o momento em que se constituem as Casas Familiares Rurais – CFRs; já em 1990 é a vez das Escolas Comunitárias Rurais – ECORs; e surge nesse contexto a criação da denominação CEAs (Centros Educativos no campo). Mais tarde, surgem outras experiências que adotaram a Pedagogia da Alternância como estratégia metodológica. Por fim, em 2001, cria-se a designação Centros Familiares de Formação em Alternância – CEFFAs, pela multiplicidade de experiências que se inspiram na Pedagogia da Alternância, de maneira a criar uma unidade política entre essa multiplicidade.
Podemos caracterizar a Pedagogia da Alternância dos CEFFAs no Brasil como uma proposta incorporada ao movimento político-pedagógico da Educação do Campo, que, apesar de possuir nascedouros distintos, pretende refletir o campo como um território de disputa e símbolos, desenvolvido pelas memórias coletivas dos sujeitos que ali criam e reproduzem suas existências.
Consideramos a alternância como uma proposta pedagógica que dá ênfase aos tempos de aprendizagem e, principalmente, à relação teoria-prática, e assim, buscar a formação integral dos sujeitos embasada nos ensinamentos das experiências acumuladas.
Juntamente com o Movimento de Educação do Campo, essas populações vão reivindicar a expansão dessa pedagogia para a via pública, e nesse território passa a existir experiências diversas que utilizam a alternância como pedagogia. A nossa organização cartográfica permite observar essa expansão territorial da experiência.
E afirmar a eficácia dos instrumentos dessa pedagogia que viabilizam a presença das famílias nos currículos por meio do Plano de Estudo. Que consiste em entrevistas temáticas periódicas com as famílias que orientam os estudos no decorrer da formação dessa pedagogia camponesa.
No Estado do Espírito Santo, a Educação do Campo não pode ser compreendida fora do contexto da pedagogia da alternância, uma vez que não existem registros de outro projeto de educação popular voltado para os camponeses anterior a esta experiência educacional no Estado. A Pedagogia da Alternância, nesse contexto, torna-se uma ferramenta de luta dos camponeses e camponesas capixabas.
Uma das principais pautas da expansão da Pedagogia da Alternância para a rede pública no Norte do estado - pois compreende como uma pedagogia própria e apropriada - é, principalmente, impedir o fechamento de escolas situadas no campo. Do mesmo modo, inserir a voz do campesinato para dentro da escola, por meio dos dispositivos pedagógicos da Alternância, vide o Plano de Estudo.
Contudo, não queremos afirmar essa como uma pedagogia camponesa única e insubstituível, mas sim evidenciar essa experiência nas suas potencialidades, e principalmente a autoafirmação dos povos camponeses.
Observa-se que os instrumentos da Pedagogia da Alternância possibilita uma relação família-escola, a qual permite que a dinâmica do trabalho familiar apareça na escola, sem necessariamente idas frequentes ou presença física assídua na escola, muitas vezes inviabilizada pela materialidade da vida do trabalho no campo.
Portanto, observamos um longo trajeto para a construção das escolas do campo, mas também a necessidade de se conhecer essas experiências concretas e maduras que ensaiam propostas de desenvolvimento para o campo brasileiro; propostas que rompem com a lógica da terra apenas como mercadoria e demonstram o campo como lugar de vida e de diversidade cultural. A multiplicidade de escolas do campo desse território torna possível a experimentação de formas variadas de construção de uma escola própria e apropriada pelos povos camponeses.





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* Siqueira
Faculdade de Educação. Universidade Federal de Minas Gerais - FaE/UFMG. Belo Horizonte- MG, Brasil