A pesquisa qualitativa sobre as práticas culturais coloca o público e o consumo cultural no centro de sua problemática constitui atualmente um instrumento que possibilita conhecer o desenvolvimento do comportamento de uma população, mapear as dinâmicas de exclusão, apontar o perfil cultural de uma cidade ou país e conhecer as relações que as pessoas estabelecem ou buscam estabelecer com a cultura de uma forma geral. A disseminação dessas pesquisas pode ser atribuída, em parte com o enfoque no campo da cultura disseminado nos congressos periódicos da UNESCO, que a partir da década de 1970, conclama seus países membros a produzir dados estatísticos sobre a cultura, intentando apurar a percepção dos governos nacionais sobre o tema; a partir de então, desenvolvimento cultural começa a ser percebido como fator constituinte da base do desenvolvimento econômico de uma sociedade. (Botelho; Fiore 2005:4)
Esse momento inicial que coloca a cultura e o consumo cultural na agenda de sondagens desses países é marcado por programas de estudos descritivos, levantamentos de frequência e estatísticos sobre custos de investimento e funcionamento de equipamentos culturais, precede o movimento que propõe abordar a transformação dos modos de vida – aqui podemos pensar nos novos perfis de emprego e exigências de qualificação técnica, aumento no grau de instrução, expansão da indústria cultural, difusão de aparelhos eletrônicos domésticos e transformação do tempo de lazer - influenciou a relação das pessoas com a cultura (Ibid., pg. 5). Dessa forma, o setor em que a cultura se inscreve passa a ser entendido como parte fundamental do conjunto de preocupações políticas, engendrando assim a necessidade de conhecer as relações entre a população e a cultura e traduzir essa relação em número comparáveis e quantificáveis, a fim de aprimorar os critérios de intervenção e “democratização” da cultura.
Tais resultados motivaram o desenvolvimento de ações que vislumbravam a “democratização da cultura”, no sentido de dar acesso ao maior número de pessoas às obras da cultura legítima: Durante muito tempo, o discurso da democratização serviu para legitimar as ações públicas no que toca a questão cultural e a profusão de iniciativas que surgem a partir da década de 1980 (Donnat, 2011:21); essa abordagem da política cultural foi, contudo, desaparecendo e dando lugar a novos discursos que pensavam a desigualdade no acesso a formas culturais e as questões das hierarquizações dos gostos sob outras perspectivas.
As pesquisas que buscam mapear as formas de consumo cultural surgem nesse contexto como ferramentas para mapear a relação do público com os equipamentos culturais, visando fornecer dados para a ação de produtores, patrocinadores e políticas governamentais, permitindo tomadas de decisões mais “acertadas” no sentido de promover o acesso a aparelhos de difusão da cultura. No entanto, traduzir as práticas culturais dos públicos em números estatísticos incorre no risco de construir um panorama muitas vezes inexato e distorcido dos comportamentos da população pesquisada: Os comportamentos que correspondem ao consumo da cultura erudita tendem, por sua valorização, serem superestimados, enquanto as demais práticas são, de acordo com a mesma lógica, minimizadas pelas pessoas abordadas. Nesse sentido, a pesquisa qualitativa, a etnografia e a entrevista aprofundada surgem como alternativas complementares às abordagens que se fixam em critérios como acúmulo de práticas culturais, escolaridade, faixa etária, renda familiar e local de residência dos entrevistados para, somando-se a esses dados, formar um panorama mais aproximado das relações dos públicos com a cultura.
O presente artigo pretende ser um primeiro esforço na direção de um trabalho de dissertação que visa conhecer a relação dos públicos do Rio de Janeiro com os aparelhos culturais da cidade. Assim, tento aqui elencar as maneiras de pensar os públicos, a bibliografia e pesquisas que tiveram como foco essa temática, e as formas de abordagens possíveis para um trabalho que visa, não só traduzir em números estatísticos as frequências e afluências a esses equipamentos, mas entender a relação das pessoas com a cultura, as dinâmicas de exclusão, as estratégias do público para participar ou não de uma cultura legitimada, por fim, perceber e mapear como as pessoas se relacionam com a cidade em uma perspectiva cultural. Para além desse primeiro plano, a pesquisa contribuirá ainda para desacortinar as representações dos públicos feitas por produtores e gestores culturais, artistas e poder público para entender como é feito o planejamento e como estão distribuídas as ofertas culturais nas diversas áreas da cidade. Nesse sentido, trabalho com os públicos para entender também as representações desses públicos nas esferas dos responsáveis por produzir e distribuir a demanda cultural nesse espaço urbano.