A linguagem audiovisual vem sendo amplamente utilizada pelas populações indígenas nos últimos 30 anos, enquanto uma ferramenta tecnológica a serviço da memória ancestral, como diz Daniel Munduruku. Nesse sentido, essas produções vêm se apresentando na contemporaneidade num contrafluxo ao cinema hollywoodiano, permeando outras formas de compor a narrativa fílmica considerada tradicional. No Brasil, se faz necessário lembrar que é ainda muito presente um imaginário criado no século XIX, no qual os indígenas estariam fadados a passar por um processo de assimilação ou mesmo de desaparecimento. Esse pensamento, conduzido pelo Estado, no entanto, não dialoga com os últimos dados de crescimento populacional dessas comunidades indígenas. O que retrata um movimento de resistência por parte dessas populações, em que muitas delas partem de ferramentas contemporâneas, como as produções audiovisuais utilizadas por diferentes etnias no Brasil, como forma de fortalecimento de suas comunidades, tratando de questões políticas e culturais específicas que fortalecem suas lutas e visibilizam sua existência.
Esta comunicação, portanto, articula-se às experiências nas ações de extensão do Projeto “Produção de Audiovisual Indígena”, parte do Programa “Olhares, vozes e memórias: saberes africanos e indígenas”, coordenado pela Prof.ª Luisa Tombini Wittmann, da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). O seguinte projeto, que vem sendo elaborado por meio de um conjunto de oficinas de produção de imagem, vídeo e som, em parceria público-privado, pretende instrumentalizar e orientar os 9 oficineiros indígenas das aldeias Guarani-Mbyá da região da Grande Florianópolis no litoral Catarinense, a produzir audiovisuais a partir das demandas coletivas das aldeias e de seus interesses próprios. Para além da proposta geral, ao longo do processo, estão previstas produções de vídeo-noticiários e um vídeo-documentário, que serão acompanhadas pela equipe, essas produções compõem um cenário bastante desafiador para os oficineiros Guaranis por tratarem de temas que, apesar de serem levantados por eles mesmos nas reuniões, surgem como propostas de aldeias com necessidades distintas e com suas particularidades, elementos que constróem um ambiente bastante enriquecedor.
Em paralelo a estas experiências do projeto de extensão, a comunicação permeia também uma análise da produção audiovisual do filme Bicicletas de Nhanderu (2011), dirigido pelos indígenas Guarani-Mbya Ariel Duarte Ortega e Patricia Ferreira (Keretxu). Este filme foi produzido pelo projeto Vídeo nas Aldeias, criado em 1986, que se consolidou como um centro de formação e produção de audiovisuais indígenas, além de ser um importante acervo digital de filmes indígenas. Nesse sentido, a proposta do projeto de extensão dialoga com a ação desenvolvida pelo projeto Vídeo nas Aldeias, de realização de oficinas que instrumentalizam os indígenas na produção audiovisual.
A análise do Bicicletas de Nhanderu, ao centrar-se na produção audiovisual em si, situa o filme enquanto um produto do movimento indígena contemporâneo, que não retrata apenas as vivências culturais do povo Guarani-Mbyá da aldeia São José das Missões - RS, mas que produz e constrói uma narrativa própria que os situa no mundo e em seu tempo. Ao que dialoga com o processo de produção do audiovisual realizado pelo Vídeo nas Aldeias e com a proposta da ação de Extensão de realização de Produção Audiovisual Indígena. Neste sentido, é possível pensar através dessas fontes e de entrevistas disponíveis com os produtores indígenas, de que modo esse novo panorama composto por indígenas cineastas pode colocar o cinema indígena a serviço de suas lutas políticas?
Este trabalho, portanto, pretende deslocar o olhar acomodado do não-indígena sobre o “outro”, buscando evidenciar não as diferenças culturais que, segundo Homi Bhabha (1998), não podem ser negadas e nem totalizadas pois ocupam o mesmo espaço, mas sim o lugar de contato entre múltiplas culturas, onde é possível, em seu vértice, encontrar a identidade constantemente mutável na qual todos nós estamos inseridos. É então neste lugar de deslocamento que propomos a inserção de um olhar e uma narrativa pós-colonial/decolonial para compreender esta forma de atualização da memória ancestral nas populações Guarani-Mbyá, compondo assim uma perspectiva de autonomia desses povos perante suas práticas culturais e concebendo um local de reconhecimento legitimado em nossa sociedade para esses produtores de conhecimento acerca de sua própria História, cultura e vida. Neste mesmo sentido, o cacique Terena, Enio de Oliveira Metelo, da aldeia Marçal de Souza - MS, reafirma esta visão ao responder a uma pergunta do Repórter Brasil sobre o local onde mora atualmente estar em meio urbano, ao que ele diz:
“Para mim, estou dentro da aldeia. São os mesmos modos, os mesmos costumes, a mesma língua, a mesma alimentação. Não muda muito. Muda casa de alvenaria. Muda organização, higiene, outro modo de viver. Mas o que a gente é está no sangue. A maioria das pessoas que vivem aqui são parentes. Os pequenos são gentis, tomam a bênção. Não é porque está na cidade que vai agir diferente. Eu posso ser o que você é sem deixar de ser o que eu sou.”. (METELO, 2007, Repórter Brasil.)
A produção audiovisual indígena, portanto, vem ao encontro aquilo que Aílton Krenak retrata enquanto “a revolta do olhar”, nas produções contemporâneas, pois esta serve como ferramenta para despasteurizar a imagem do cinema tradicional, em que “o outro” agora é apresentado por si mesmo, e não mais por aquele que lhe denomina como índio, ou identidade estagnada no tempo. Neste sentido a experiência com as oficinas de produção audiovisual Guarani-Mbyá, da ação de extensão, juntamente com a análise da produção fílmica indígena nos possibilitam repensar a construção narrativa dos próprios indígenas sobre eles mesmos.