O presente artigo visa propor uma reflexão acerca dos porquês do estudo da relação entre branquitude e racismo se mostram relevantes para se pensar as experiências-relações-práticas afetivas-sexuais-desejantes entre mulheres lésbicas. Por meio da realização de seis entrevistas com mulheres lésbicas brancas em Brasília-Distrito Federal-Brasil, calcada numa pesquisa essencialmente qualitativa, nós buscamos entender os impactos da centralidade e do exercício dessa branquitude por mulheres lésbicas brancas em suas relações como forma de se compreender a seletividade, os preterimentos e as manifestações racistas nas escolhas sócio-afetivas entre mulheres.
A pesquisa foi desenvolvida sob o crivo do método qualitativo (SAUTU, 2005), por meio da realização de entrevistas com observações participativas, uma vez que, enquanto pesquisadoras e sapatonas (branca e negra), pensamos que a interação com as entrevistadas pudesse revelar um mundo de significados passíveis de análise. Nomear nossa posição racial (PIZA, 2002) enquanto pesquisadoras e explicitar a produção de saberes situados em suas localidades (HARAWAY, 1995) relaciona-se com a proposta de realização de uma pesquisa politicamente engajada (HALE, 2008).
Como feministas, para quem a afirmação de que “o pessoal é político”, pudemos perceber como os privilégios da branquitude perpassam e marcam nossos corpos de sapatonas negra e branca, seja em termos de preterimento, seja em termos de privilégios. Tivemos a oportunidade de realizar uma reflexão mais sistematizada sobre a branquitude e suas implicações sobre as identidades lésbicas-sapatonas, em termos de seletividade, preterimentos e racismo.
Nesse sentido, sob uma análise crítica da suposta objetividade das ciências, entre as sapatonas brancas, entrevistamos, cada uma, uma sapatona de nossa convivência e\ou amizade e outra que não temos vínculo afetivo. Além dessas 04 (quatro), entrevistamos conjuntamente uma sapatona. Nosso interesse, na realização de, pelo menos, uma entrevista conjunta, era perceber como nossas identidades raciais impactavam no processo de entrevista e, consequentemente, nas respostas e conclusões das entrevistadas.
A relação entre entrevistada e entrevistadora, considerando a identidade racial do/a pesquisador/a apresentou-se como ponto central na pesquisa, pois, ao realizar o campo de pesquisa, tanto pesquisadoras/es quanto participantes das pesquisas olham-se por meio de uma lente racializada (SCHUCMAN, COSTA, CARDOSO, 2012), mesmo que de forma tácita, e interação entre elas/es está relacionada com o modo como a ideia de raça é apropriada por ambas.
Como resultados da pesquisa e em diálogo com a escassa teoria produzida sobre a temática, foi possível identificar que atribuídos, em parte, a posições de classe social ou mesmo de modo irrefletido, os relacionamentos afetivo-sexuais-desejantes de brancas majoritariamente com outras brancas demarcam o não-olhar, o não-reconhecimento presente nas interações e relações estabelecidas entre lésbicas-sapatonas. Pudemos observar como o exercício dos privilégios advindos da branquitude possibilita que mulheres lésbicas brancas não se vejam capazes de engajar uma luta anti-racista, colocando essa responsabilidade sobre as mulheres negras.
Considerando os preterimentos advindos de escolhas afetivas engendradas num pacto narcísico (BENTO, 2002), notamos que o posicionamento de lésbicas brancas em um polo de inércia na luta anti-racista e no próprio questionamento moroso de suas escolhas afetivas. Além disso, o traço da violência racista no exercício dos privilégios da branquitude por mulheres lésbicas torna possível o estabelecimento de uma relação de perseguição entre o sujeito negro e seu corpo (SOUSA, 1983).
Confirmamos a urgência e relevância do debate e promoção de reflexões em diferentes espaços - inclusive o acadêmico - sobre a posição racializada da branquitude e as consequências do racismo para a proposta sapatônica que se pretende subversiva do regime político da heteronormatividade.