Diante do cenário que se projeta nas janelas - nos terraços, lages, solários e jardins - de esgotamento do projeto neoliberal-racista-patriarcal, de destruição de direitos, de exploração e de produção de violência, faz-se fundamental pensar nas possibilidades e alternativas revolucionárias, que se propõem a romper radicalmente com o constituído.
Nesse cenário de urgências, enquanto jovem negro brasileiro, mais fundamental se torna refletir sobre o sujeito e o projeto revolucionário a partir desse ponto de vista. Desta forma, esse trabalho se propõe a analisar o conceito de multidão como possível sujeito revolucionário e a sua necessária adequação à agenda revolucionária amefricana para o Brasil.
A análise da relação entre a necessária construção de um projeto revolucionário e as políticas de identidade tem se tornado cada vez mais necessária, visto a multiplicação de grupos organizados, coletivos e redes de informação centrados em pautas de identidade e com grande potencial mobilizatório (SVAMPA, 2017), que redefiniu nos últimos anos a dinâmica política dos Estados.
Partindo dessa compreensão, busca-se apontar a existência de possibilidades de articulação de um projeto revolucionário, que possui a multidão como sujeito revolucionário (NEGRI E HARDT, 2009), com políticas de identidade racial, compreendendo que, na sociedade brasileira, a produção de análises racializadas é fundamental para o vislumbre de uma transformação real. No entanto, não pretende-se discutir o conceito de identidade negra neste trabalho, mas partir da compreensão da categoria amefricanidade (GONZÁLEZ, 1988a) como constitutiva de identidade negra no Brasil e na América Latina.
Desta forma, afasta-se da ideia de identidade essencialista, e aproxima-se da concepção de identidade auto-atribuída, compreendida como posicionamento político (HALL, 2003) cunhado a partir das dinâmicas sociais capitalistas-coloniais-racistas-patriarcais que sustentam o sistema de dominação e exploração no Brasil e no mundo.
Além disso, faz-se mister ressaltar que a compreensão que se propõe da identidade negra e amefricana não se constitui a partir de uma relação negativa de subalternidade, mas sim positiva, a partir da potência criativa diaspórica desenvolvida nos processos de produção social dos sujeitos e das resistências. Encarar a nossa identidade de forma somente reativa às violências sofridas é acabar com a potência existente na multidão de “descamisados e descamisadas”, produtores de epistemologias contra-hegemônicas.
Partindo do lugar social que o conforma, este artigo, compreendendo o corpo da multidão como múltiplo, diverso e repleto de identidades e singularidades, opta por relacionar a palidez da multidão "negriana" à necessidade de uma agenda revolucionária amefricana, construída a partir de uma perspectiva dos homens e mulheres negras na América Latina e no Brasil.
Inicialmente traçaremos considerações sobre o conceito de multidão desenvolvido por Negri e Hardt e a dinâmica desse sujeito revolucionário em relação às políticas de identidade, percebendo que o caminho proposto pelos autores aponta para uma palidez desta, uma ausência de cor, de racialização.
Posteriormente trabalharemos, a partir de Lélia González, a ideia de uma identidade amefricana, constitutiva da sociedade brasileira e da multidão enquanto sujeito revolucionário no Brasil, composta majoritariamente por “descamisados e descamisadas”, mulheres e homens negros.
Por fim, apontamos para a necessidade da construção de uma agenda amefricana de resistências no Brasil, constitutiva do projeto revolucionário. Fundamental ressaltar que não se objetiva propor uma agenda revolucionária a partir da identidade amefricana, mas somente destacar a importância desta agenda, visto que esse trabalho compõe uma pesquisa em estado seminal.
Assim, é possível aduzir que a multidão pálida, sem manutenção dos pontos de vista das identidades, não é capaz de perceber e vocalizar as necessidades e dinâmicas de exploração existentes na América Latina, e especificamente no Brasil, sendo necessário racializar o pensamento revolucionário para propor uma mudança radical não somente para os negros e negras, mas para toda a sociedade, em constante diálogo com as demais singularidades existentes, de modo a produzir um projeto revolucionário capaz de produzir transformação de maneira estrutural.