A América Latina é cenário, desde o início do presente século, de um conflito político que transcende as fronteiras nacionais.
De um lado, situam-se os governos e os atores políticos e sociais alinhados em torno de um conjunto de objetivos comuns entre os quais se destacam a redução das desigualdades internas e da situação de pobreza por meio de políticas públicas voltadas para a melhoria dos salários e das condições de vida, para um maior protagonismo estatal na busca do desenvolvimento e no controle dos recursos naturais e, no plano internacional, para a ampliação da margem de autonomia de cada país e da região como um todo, com uma postura de afastamento dos Estados Unidos (EUA) e de busca de novas parcerias extra-regionais. Essas características definem um campo político chamado por muitos de "progressista".
Do lado oposto estão os governos e as forças políticas, econômicas e sociais alinhadas em torno da defesa das políticas neoliberais hegemônicas na região durante a década de 1990 e favoráveis ao alinhamento geopolítico com os EUA, constituindo o que pode ser denominado como o campo "liberal-conservador".
Esse conflito apresenta, numa primeira fase, a constituição de governos progressistas, pela via eleitoral, em diversos países, como Venezuela, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Nicarágua, Equador e El Salvador. O ascenso progressista e a consolidação dos governos sob sua liderança ocorreu em meio à intensa resistência dos atores políticos e empresariais vinculados aos EUA, ao neoliberalismo e à manutenção dos privilégios decorrentes da forte desigualdade social que caracteriza cada uma dessas sociedades. Ainda assim, na maioria dos casos os governos progressistas se mostraram resilientes aos ataques, superando as tentativas de desestabilização política e renovando seus mandatos em eleições democráticas e competitivas. Entre os fatores externos favoráveis a esses projetos se destacam a situação de relativo declínio da hegemonia global dos EUA, que reduziu sua capacidade de influência e de intervenção, e a ascensão política e econômica da China, que nesse período se tornou o principal ou o segundo maior parceiro comercial de cada um dos países latino-americanos.
O "recuo" involuntário dos EUA deu margem a um conjunto de iniciativas políticas e diplomáticas, como a criação da União das Nações da América do Sul (Unasul) e da Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe (Celac), que na prática significaram um rompimento, ainda que limitado, com o papel tradicional de subordinação da região aos EUA, expresso em referências a Doutrina Monroe e a Organização dos Estados Americanos (OEA). Mas nenhum desses países que optaram pelo "progressismo" foi capaz de superar a situação periférica de dependência estrutural dos mercados do "centro" do sistema capitalista, mantendo-se na condição de fornecedores de "commodities" agrícolas e minerais e de importadores de manufaturados, tecnologia e capitais.
A retomada da iniciativa política do campo liberal-conservador a partir da crise econômica global de 2008, que abalou em diferentes graus a sustentação financeira dos projetos "progressistas", culminou com o regresso de forças políticas alinhadas ao EUA e ao neoliberalismo ao governo em grande parte dos países mencionados. A influência estadunidense se fez presente, em maior ou menor grau, nesses casos de reversão política de que os EUA se beneficiaram claramente, seja pela possibilidade de retomada do controle de recursos econômicos estratégicos, como o petróleo, seja pelo esvaziamento das iniciativas voltadas para maior autonomia regional e pelo regresso dos novos governantes ao "alinhamento automático" às preferências de Washington no cenário internacional.
O artigo aborda o choque entre projetos antagônicos na América Latina no contexto geopolítico global, enfatizando a retomada da competição geopolítica entre grandes potências mundiais e a busca dos EUA de recuperar sua posição hegemônica em uma região que, ao longo de todo o século XX, serviu ao imperialismo estadunidense como uma reserva praticamente exclusiva de recursos naturais, mercado de fácil acesso para seus investimentos e produtos e base de apoio no plano político-diplomático internacional. Diante do acirramento da competição geopolítica com a China, potência ascendente reforçada pela aliança com a Rússia e por uma crescente presença econômica em todos os continentes, os EUA voltaram a dar prioridade aos seus laços com a América Latina, intensificando a ingerência política nos assuntos internos dos países da região a fim de provocar a reversão da tendência esquerdizante e de constituir governos pró-estadunidenses, liderados por políticos de linha liberal-conservadora ligados às elites econômicas locais.
No entanto, embora alinhados aos EUA no plano político, esses novos governantes tendem a preservar os vínculos econômicos com a China, que se aprofundam na medida em que aumentam os investimentos do gigante asiático em cada um dos países latino-americanos, independentemente da orientação ideológica de seus respectivos governos.A crescente presença econômica chinesa, ao limitar a capacidade de influência política dos EUA e de seus aliados ocidentais, como a União Europeia, pode servir de contrapeso ao avanço liberal-conservador na região, favorecendo a sobrevivência do projeto progressista e criando condições propícias a uma nova reviravolta política que retome a trajetória de reformas sociais e autonomia em políticas externas interrompida com a restauração liberal-conservadora.