Este trabalho tem como objetivo a apreensão e análise do cotidiano de trabalhadoras domésticas no Brasil contemporâneo, tendo por foco a prática laboral de mulheres que trabalham como babás em Brasília/DF. Para tanto, a pesquisa tematizou o corpo, vivido como espaço de observação e de significação de relações sociais recortadas pela interseccionalidade de raça e gênero, pensando-os a partir de estudos sobre trabalho doméstico, o feminismo negro, a colonialidade e a historiografia brasileira. Nesse sentido, em busca de uma intrincada teia de experiências, essa investigação sobre o trabalho e a vivência das trabalhadoras que cuidam de crianças aborda o corpo como categoria central de reflexão e análise para a compreensão das representações e práticas laborais das babás, com a intenção de mostrar sua relevância enquanto objeto de estudo sociológico que agrega, em si e de modo articulado, os marcadores gênero, raça, classe e trabalho.
Para captar a complexa dimensão corporal das babás, evidenciada empiricamente em entrevistas e observações, foram utilizadas três subcategorias, que estão intimamente inter-relacionadas: corpo-afeto, corpo-objeto e corpo-abjeto. Serão apresentadas as transições entre um subcorpo e outro, mostrando que formam um todo em permanente imbricação. Portanto, volta-separa o corpo vivido nas condições materiais e nas dinâmicas sócioafetivas que se estabelecem a partir do ofício dessas mulheres. Trata-se de mais um esforço para iluminar fenômenos sociais por seu intermédio. Afinal, o corpo já é uma categoria descritiva e de análise já consolidada nas Ciências Sociais, principalmente o corpo como instrumento de trabalho nos estudos que se dedicam à produção econômica. Mas a presente investigação intencionou contribuir para a expansão dessa categoria também enquanto lócus de afeto e de abjeção no mundo do trabalho, em especial no espaço da domesticidade. O intuito é apontar para o fato da atividade realizada pelas babás ser uma realidade sócio-histórica e simbólica, que articula em si imagens, mitos, tabus e valores desde a escravidão e compreender como esse tipo de trabalho doméstico, que se origina no passado escravocrata brasileiro, tem sido elaborado, experimentado e reconstruído hoje, dada à sua permanência na organização social brasileira.
Em diversos países, o trabalho doméstico está vinculado à história mundial da escravidão e à divisão sexual do trabalho. O Brasil, especialmente, reescreve hoje essa história, onde o trabalho doméstico consiste em uma das principais fontes de ocupação da grande parcela de mulheres negras, com baixo grau de escolaridade e oriundas das regiões mais pobres do país. Trata-se de um ofício “invisível” e desvalorizado, pois sua importância para a formação e organização da sociedade é praticamente ignorada, o que se revela no fato de ser a única profissão que não possui os mesmos direitos trabalhistas e as mesmas regulamentações que as demais, bem como é pouco estudada pela academia e encontra-se distante das políticas públicas que se voltam para o enfrentamento das desigualdades de gênero, raça e classe. Tradicionalmente, o trabalho doméstico estabelece-se em relação à afetividade, à manutenção do lar e aos cuidados com a família e os filhos. É construído socialmente como o trabalho feminino, realizado em nome do amor e da dita natural disponibilidade materna.
Grande parte da bibliografia especializada indica que, a partir da década de 1970, o contingente de mulheres no mercado de trabalho no Brasil aumentou rapidamente. Entretanto, esses estudos raramente apresentam análise que visibilize inserções diferenciadas, como a situação das mulheres negras e o peso do racismo nesse processo. Nesse contexto, muitas contradições apontadas como novos problemas sociais já eram vividas por grande parte das mulheres negras, em sua maioria das camadas empobrecidas: desigualdades salariais, falta de creches públicas, situações de assédio, jornadas extensas. Da mesma maneira, estas mulheres pouco se beneficiaram das conquistas relacionadas ao trabalho para as mulheres brancas de classe média. De forma geral, para se compreender o atual quadro da desigualdade racial e pobreza no Brasil, é necessário levar em consideração a exclusão das mulheres negras, amas-de-leite, amas-secas, trabalhadoras domésticas e babás e dos/as seus/suas filhos/as e da população afro-brasileira dos projetos nacionalistas que foram conjecturados. É possível afirmar que existe um esforço estratégico em suprimir, borrar e substituir a escravidão e suas personagens em nossa história.
Em sua dimensão histórica, o corpo da babá brasileira de hoje foi o da ama-de-leite da escravidão. O trabalho das babás significa o cumprimento de uma dupla dimensão, a técnica e o afeto, tendo à sombra uma terceira: a abjeção. Por um lado, este é um corpo-afeto, designado ao conforto e à socialização da criança. Neste momento, há uma fusão entre o corpo da mulher negra e o da criança junto ao seu colo. Esse afeto deve ser dosado, controlado e, em suma, remete “à imagem da mãe preta terna” utilizada para suavizar a violência da escravidão no Brasil.
Por outro lado, este é também um corpo-objeto em uma visão capitalista, que deve se oferecer à manipulação como um instrumento de trabalho, dedicado a alimentar, carregar e higienizar outro corpo, o da criança. O corpo-objeto entra em cena quando a clave do afeto é substituída pela clave econômica, através do contrato e do salário de subsistência. O corpo que satisfaz através do trabalho também aparece quando a satisfação que se deseja está no nível do desejo sexual. A partir da análise do material empírico dessa pesquisa, me deparei com a recorrência de casos de abuso sexual que sofrem as babás. Entretanto, tudo isso desaparece quando o nojo e a repugnância frente ao corpo da babá tomam lugar em várias cenas sociais e traços diacríticos de seu fenótipo negro e ele passa a ser excluído da interação social, ocupando o lugar simbólico da abjeção a partir do apagamento da babá enquanto sujeito social e figura ancestral relevante na história pessoal das crianças.
Assim, a performance e a vivência corporal da babá se transformam quando os ambientes físicos e simbólicos mudam, marcando trajetórias que se confundem no corpo-afeto, corpo-objeto e corpo-abjeto: shoppings, restaurantes, parquinhos, clubes e a casa da criança são os ambientes mais comuns. No espaço doméstico ou nos momentos lúdicos, por exemplo, enquanto a figura da mãe branca é ausente, cabe à babá se servir de seu corpo lúdico e espontâneo, onde o afeto está mais evidencializado, dando o carinho, o conforto, a cantiga de ninar e a socialização de hábitos, costumes e códigos culturais. Em um segundo momento, normalmente quando há a presença da mãe, a babá se responsabiliza pela criança, sobretudo, em relação aos cuidados de higiene e alimentação, agindo com seu corpo-objeto. Em um terceiro momento, a babá torna-se indesejada no espaço, até mesmo abjeta, mantendo-se invisível enquanto seus serviços não são solicitados.
Se o corpo feminino apresenta maior chance de ser um objeto na sociedade capitalista moderna, ser babá é ocupar um lugar social racializado - ainda que algumas delas sejam mulheres brancas - e, por conseguinte, subalterno e com maior possibilidade de se tornar um corpo-abjeto, devido à interseccionalidade de raça, classe, sexualidade e gênero dentro da lógica da colonialidade do poder. A abjeção consiste em um movimento de atração e repulsão simultânea; é uma violenta rebelião contra algo que ameaça, pois, ao mesmo tempo em que inquieta e fascina, assusta e faz querer manter separado; ao mesmo tempo em que se sente repugnação, não se pode deixar distanciar e é mantido próximo. O que faz o outro ser abjeto é ele não ser chamado para a interação enquanto um sujeito social e, em seu limite, quando deixa de existir até mesmo enquanto objeto – ele deixa de ser coisa -, se opondo e desafiando o “eu”.
É possível afirmar ainda que, mesmo quando a maternidade é pensada pela perspectiva feminista, a babá é raramente nomeada. Novamente, na vertente que estuda o trabalho doméstico, o caso das babás – trabalho que apresenta especificidades como demanda de maior envolvimento corporal e afetivo, residência no mesmo local de trabalho e jornadas diferenciadas - ainda que esteja nessa categoria, vem sendo pouco investigado. Há que se estranhar o silêncio sobre esse fenômeno social e as persistências das representações que aprisionam os corpos das mulheres negras, pois é pela imposição da invisibilidade que o capitalismo, o racismo e o sexismo agem, reciclando ideologias. Assim, observa-se o apagamento, a foraclusão, da existência dessa mulher da história das crianças brasileiras e da formação de suas subjetividades e identidades. As experiências significadas pelas babás mostram que o corpo racializado e genderizado sempre foi um lugar central no feixe das relações de poder e que a colonialidade ainda persiste; o que se vive é um cativeiro moderno de falta de opções em que correntes sociais impossibilitam sair do lócus de servidão. Essa referência é sentida no cansaço e nas dores que o corpo reclama constantemente, frutos da falta de regulação das jornadas, nos mínimos salários que recebem, no vínculo afetivo que constroem e as aprisionam a esse lugar, no apagamento do sujeito que é ao mesmo tempo um corpo-objeto de trabalho e de objetificação sexual e um corpo colocado na zona da abjeção. Em suma, concluo que a academia precisa entender o corpo oprimido e que há que se pensar em políticas de cuidado para abrir a porta de saída das relações de opressão e entender que essa é uma disputa para além do controle do tempo e com a maneira como os modos de produção estão organizados.