Na pesquisa realizada no mestrado discutimos a participação das mulheres no movimento sindical, em especial na CUT, que historicamente é um espaço com maior presença masculina. Para isso, esta pesquisa analisou a participação das mulheres nas direções da Central Única dos Trabalhadores – CUT, buscando compreender quais ações a entidade tem realizado, quando criou a secretaria da mulher trabalhadora, em 2004, para aumentar a participação dessas nas suas direções. Dentre as razões para a escolha desta entidade como objeto de análise está o fato dela ter sido uma das primeiras a inserir o debate de gênero nos seus espaços, e também pela criação da cota de participação de 30% para as mulheres nas suas direções, em 1993, sendo esse um importante avanço na luta pela inserção das mulheres nos espaços de poder no movimento sindical.
Além disso, a pesquisa buscou identificar qual o local ocupado por essas mulheres nos cargos da entidade, ou seja, se estas estão inseridas em cargos com poder de deliberação. Procuramos compreender as mudanças ocorridas nos últimos tempos neste espaço quanto às demandas femininas, qual o espaço que elas ocupam nas pautas da entidade. Paralelamente, através dos dados da PNAD, como a composição da população economicamente ativa, taxa de atividade, nível de escolaridade, posição na ocupação, dentre outros, analisamos a participação das mulheres no mercado de trabalho brasileiro, para identificar as mudanças e as persistências delas neste segmento. Por fim, apresentamos a análise das resoluções de congressos e plenárias da CUT, além de nossa pesquisa de campo, que contou com a observação no coletivo de mulheres da CUT-Ba, entre julho de 2016 e julho de 2017, e a análise das entrevistas realizadas com as integrantes desse coletivo. Discutimos sobre as dificuldades ainda presentes na inserção das mulheres nas direções da entidade, como a falta de recursos para realização de atividades com relação às suas demandas, a não liberação dos sindicatos para essas atividades e a ausência das mulheres nos altos cargos da central.
Para realização da pesquisa, nossa metodologia consistiu, primeiramente, na revisão da bibliografia sobre sindicatos, com enfoque na participação das mulheres nessas entidades, ou seja, em análises que versem sobre a inserção delas nos espaços de decisão do movimento sindical, além de estudos sobre a participação das mulheres no mercado de trabalho. Ademais, com o objetivo de compreender as mudanças e persistências nas desigualdades entre mulheres e homens no mercado de trabalho foram construídos dados sobre a posição na ocupação, rendimentos, anos de estudo, taxas de desemprego, dentre outras. Para a construção desses dados, utilizamos duas bases de dados, a primeira delas é a Pesquisa Nacional por Amostra e Domicílios – PNAD, realizada anualmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, exceto nos anos em que ocorrem o censo, desde 1967. A PNAD é uma pesquisa de grande importância para analisar o mercado de trabalho brasileiro, pois através dela é possível observar vários aspectos da dinâmica do mercado de trabalho, a exemplo dos citados acima. Utilizamos o Statistical Package for the Social Sciences – SPSS, software de análise dos dados estatísticos, para processar os micro dados da PNAD. A segunda base de dados utilizada foi a Pesquisa de Emprego e Desemprego – PED, realizada mensalmente, desde 1984, no Distrito Federal e nas regiões metropolitanas de São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza, pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – DIEESE.
Na segunda etapa da pesquisa, analisamos os documentos produzidos pela CUT, como resoluções de congressos e plenárias, materiais disponíveis no site da entidade, com o objetivo de identificar quais ações a central tem promovido para aumentar a participação feminina nas suas direções, além de buscar evidências sobre quais os espaços são ocupados por essas mulheres nas instâncias de poder deste organismo sindical. Foram analisadas as resoluções dos quatro últimos congressos da entidade, referentes aos anos de 2006, 2009, 2012 e 2015; e as quatro últimas plenárias, referentes aos anos de 2005, 2008, 2011 e 2014. Nossa investigação nestes documentos toma como base o ano de 2004, pois foi neste ano que a secretaria de mulheres da entidade foi criada, com o objetivo de discutir e propor políticas sobre as demandas específicas das mesmas.
Durante a pesquisa também foi possível participar das reuniões do coletivo de mulheres da CUT-Ba. O primeiro contato com o coletivo ocorreu através da secretária de mulheres da central, que nos permitiu participar como ouvintes das reuniões do mesmo. As reuniões ocorrem uma vez ao mês, podendo ser realizada mais de uma ao mês, caso haja necessidade para organização de seminários ou outra atividade, sendo estas geralmente realizadas na sede da central, ou nos sindicatos filiados a mesma. A primeira reunião que participamos ocorreu em julho de 2016, e, até o término da pesquisa, foi possível participar de nove reuniões do coletivo, dois seminários sobre a questão da mulher, o primeiro realizado na sede da CUT-Ba, em agosto de 2016, em Salvador; e o segundo na sede do Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura Familiar – SINTRAF, em outubro de 2016, em Feira de Santana-Ba. Além disso, foi possível também participar do 11° Plenária-Congresso Extraordinário Maria Letícia Lula da Silva, da CUT-Ba, realizado em julho de 2017 no Hotel Real Classic, em Salvador-Ba. Durante a participação nas reuniões do coletivo e nos demais eventos foram feitas anotações sobre o ocorrido naqueles espaços. A participação nas reuniões do coletivo e nos seminários nos possibilitou uma maior compreensão em relação ao discurso e a prática da CUT sobre as demandas específicas das mulheres, em especial do nosso objeto, a participação das mesmas nas suas diretorias.
Por último, foram realizadas onze entrevistas com as participantes do coletivo de mulheres, sendo que destas seis são dirigentes da atual gestão da CUT-Bahia e cinco não são dirigentes da entidade. Utilizamos o critério de saturação, ou seja, quando as informações passam a ser repetidas, para encerramos em onze as entrevistas realizadas. Todas as entrevistas foram gravadas e depois transcritas para a análise. Três entrevistas foram realizadas durante o 11° Plenária-Congresso da entidade, quatro na sede da CUT-BA, e as demais nos respectivos sindicatos das entrevistadas.
Algumas conclusões da pesquisa.
Foi possível identificar que a luta por maior participação das mulheres na CUT remonta desde a sua criação, tanto que a central foi fundada em 1983, e recentemente, em 2016, a entidade comemorou, na sede nacional, em São Paulo, 30 anos de políticas para as mulheres.
Discutimos também neste estudo a conexão entre o movimento feminista e o movimento sindical, como a articulação de ambos auxiliou na compreensão das sindicalistas quanto às especificidades das mulheres no mercado de trabalho, no movimento sindical e na sociedade como um todo. As entrevistas com as integrantes do coletivo de mulheres da CUT-Ba nos permitiu perceber que, também nos dias atuais, ainda há essa articulação entre os dois movimentos, principalmente com as ações promovidas pela central em conjunto com a Marcha Mundial de Mulheres. Além disso, o coletivo de mulheres possui um projeto de curso de formação, ainda não posto em prática, de promover discussões com as suas integrantes sobre a história do movimento feminista e os temas e questões abordados por este movimento.
Ademais, através da nossa pesquisa foi possível perceber que, apesar da aprovação da paridade, as mulheres continuam ausentes dos cargos de maior poder deliberativo dentro da CUT nacional: presidência, secretaria-geral e tesouraria. Ou seja, persiste a exclusão das mulheres dos altos cargos da central, desta forma a paridade de participação no poder político não se realiza efetivamente. Sobre essa questão, uma entrevistada afirma que:
“Eu acho que a CUT precisa melhorar, e cobrar pra gente ocupar cargos, porque nós mulheres na maioria somos sempre segundo. Eles disseram no último congresso, que foi justamente quando eu entrei, que iria lutar pela paridade tanto na plena, como no executivo, mas isso de fato, pra mim, precisa ser cobrado melhor. E, principalmente, em cima dos sindicatos”. Secretária-geral adjunta. grifo nosso.