Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
FORMAÇÃO DE PROFESSORES, DESCOLONIALIDADE E INTERCULTURALIDADE: PROSPECTANDO CAMINHOS DESDE “ABYA YALA”

Universidade La Salle - Unilasalle (Brasil)

*Gilberto Ferreira Da Silva
*Natacha Scheffer



A diversidade cultural na America Latina ganha acento nas preocupações investigativas tomando a questão indígena e dos afrodescendentes como referência para tais estudos. Na avaliação do pesquisador venezuelano Daniel Mato (2009), nas últimas décadas têm se observado um incremento na qualidade de vida de populações indigenas e de afrodescendentes, entretanto, na análise do pesquisador, estes avanços são ainda insuficentes diante do processo histórico de exploração econômica, da destruição das culturas e do assassinato em massa dessas populações no continente americano.
Assim o debate sobre a diversidade cultural na perspectiva da interculturalidade é impulsionado provocando formas diferenciadas de pensar e fazer a educação em contextos constituídos multiculturalmente. Procurar localizar quais são as práticas e programas formativos voltados para interculturalidade e quais os avanços e perspectivas aportados para a construção de uma educação de qualidade constitui-se como o vetor mobilizador desta proposta de investigação. A interculturalidade tem se constituído como um campo profícuo que pode ser explorado desde o universo da realidade educativa e das práticas até a construção da própria noção de interculturalidade pelo viés da educação comprometida em valorizar e trabalhar com tais expressões culturais, tanto desde a perspectiva histórica até as contemporâneas.
A trajetória de pesquisa que se vem construindo desde a elaboração da pesquisa transformada em tese de doutorado (SILVA, 2001) tem permitido articular as preocupações no campo da diversidade cultural, das questões étnico-raciais, das histórias de vida de professores e das metodologias de pesquisa no campo da formação de professores (SILVA e PENNA, 2009; SILVA, NÖRNBERG, 2014, 2013; SILVA, NÖRNBERG, PACHECO, 2012; SILVA, 2010, 2011; SILVA e CABRERA, 2011). A pesquisa de doutoramento (SILVA, 2001) colocou em cena a discussão sobre a interculturalidade, em especial, a partir do entorno de estudantes do ensino médio das escolas públicas da região metropolitana de Porto Alegre. O que se intencionou realizar nesta pesquisa foi justamente explorar, desde o lugar do educador, a perspectiva da diversidade cultural e suas contribuições, tanto para a atuação docente em sala de aula com jovens quanto possibilitar a construção de uma reflexão que possa subsidiar a formação de educadores preparados para atuar em consonância com os desafios apresentados pelas mudanças no universo da cultura nos espaços urbanos e também para a formação de educadores em nível superior.
O deslocamento de uma análise que privilegiava as contribuições de um determinado grupo étnico-cultural para o enfrentamento da diversidade cultural, têm sido uma constante na literatura que encontra na interculturalidade apoio para a compreensão do fenômeno da multiculturalidade (CANEN, 2008; CANDAU e RUSSO, 2010, WALSH, 2012). As noções de multiculturalismo e interculturalidade ganham destaque nas preocupações investigativas, proporcionado a realização de um deslocamento de forma dupla. De um lado, descortinou-se um universo teórico “outro”, onde emergiram e/ou retornaram categorias analíticas (como é o caso da noção de fronteira e de margens). De outro, as inúmeras relações necessárias para tecer uma análise, constituíram-se como uma auto exigência para a construção de investigações que pudessem permitir uma melhor compreensão desta realidade .
As temáticas da diversidade cultural, identidades étnicas, racismo e preconceito, articuladas diretamente à formação docente passaram a ocupar um lugar privilegiado nas reflexões. A emergência desses temas no contexto brasileiro, ainda que em processo de instauração, conforme apontam Moreira (2001); Canen, Arbache e Franco (2001); Canen, 2008; Fleuri (2003), Candau, (2002); entre outros; estimulam o necessário mergulho na bibliografia disponível em âmbito nacional e internacional. No intercâmbio acadêmico com o Grupo de Pesquisa em Educación Intercultural (GREDI/UB) da Universidade de Barcelona é que se alicerçam alguns referenciais, mais especificamente aqueles que tratam do como produzir a pesquisa no campo da diversidade cultural. O investimento no aspecto metodológico, explorando, aprofundando e experimentando a pesquisa-ação como método em processos (auto) formativos (ativos/participativos) de professores nos permitiu vislumbrar alternativas neste campo. Parte dessa experiência encontra-se sistematizada na produção realizada em co-autoria com os pesquisadores espanhóis Jaume del Campo Sorribas (SILVA; SORRIBAS, 2014) e Flor Angeles Cabrera (SILVA, CABRERA, 2010, 2011, 2013), ambos da Universidade de Barcelona (UB).
As aspirações por compreender como é possível realizar processos formativos que contemplem o fenômeno da multiculturalidade sob a perspectiva da interculturalidade impulsionam a busca por referenciais e práticas que possam oferecer subsídios de forma mais objetiva ao tratamento deste fenômeno. Assim se propõe nesta pesquisa contemplar o debate instaurado no contexto latino-americano, considerando a rica, complexa e potencializadora reflexão acumulada nos diferentes países da região. Uma imersão preliminar nessa literatura permitiu vislumbrar a complexidade da produção existente e da diversidade de experiências formativas desencadeadas nas diferentes nações latino-americanas , ao mesmo tempo que se entrou em contato com uma produção inspiradora, que pretendemos, dinamize epistemologicamente o trabalho que aqui propomos. Trata-se das contribuições de um conjunto de intelectuais latino-americanos, vinculados a diferentes instituições universitárias das américas. Este coletivo é conhecido como Grupo Modernidade/Colonialidade (Grupo M/C), composto por Anibal Quijano (Perú), Walter Mignolo (Argentina), Enrique Dussel (Argentina), a norte-americana Catherine Walsh radicada no Equador, Nelson Maldonado‐Torres (Porto Rico), Fernando Coronil (Venezuela), Edgardo Lander (Venezuela), Arturo Escobar (Colômbia) entre outros . Rompendo com as fronteiras geográficas latino-americanas são considerados parceiros intelectuais, entre outros: Boaventura de Sousa Santos (Portugal), Immanuel Wallerstein (EUA) e Albert Memmi (Tunísia, adotou nacionalidade Francesa).
Contribuir significativamente para o aperfeiçoamento de propostas de formação continuada de professores, passíveis de serem replicadas em redes municipais ou escolas públicas, através da criação de Um Programa de Formação de Professores atuantes em contextos multiculturais, mobiliza nosso interesse ao apresentar esta pesquisa. Apostamos na contribuição teórica desde os aportes tomados da descolonização do conhecimento como estratégia para o “Giro Decolonial” no campo da educação. Um referencial que apresenta potencial crítico e inovador do pensamento, nutrido pela proposição de um projeto de intervenção em realidades educativas latino-americanas. Tanto a criação de uma infraestrutura tecnológica de gestão do processo da pesquisa (conforme anunciado em item específico neste projeto) quanto a consolidação de uma rede colaborativa com o conjunto de instituições e grupos participantes anunciam a fertilidade do processo.
A perspectiva multidisciplinar, característica inerente ao “Giro Decolonial”, se institui no trabalho da rede de colaboração desde formatação das áreas de pertencimento até a concepção que orienta epistemologicamente o trabalho, ou seja, é “un intercâmbio de experiências y de significaciones, como la base de otra racionalidad que pueda pretender. Con legitimidad, a alguna universalidad” (QUIJANO, 1992. p. 447). E continua, o sociólogo peruano, um dos mais reconhecidos intelectuais do Grupo M/C: “Pues nada menos racional, finalmente, que la pretensión de que la específica cosmovisión de una etnia particular sea impuesta como la racionalidad universal, aunque tal etnia se llama Europa Ocidental” (QUIJANO, 1992. P. 447).
Este estudo insere-se nesta trajetória, onde acima de tudo, o compromisso com práticas educativas críticas, transformadoras, ativas e participativas pautadas por um pensamento crítico e revitalizador são realizados com o afã de quem acredita no papel da educação, apostando para que isso se transforme em realidade, apostando no bem humano.




......................

* Ferreira Da Silva
Universidade La Salle Unilasalle. Canoas, Brasil

* Scheffer
Universidade La Salle Unilasalle. Canoas, Brasil