A apresentação pretende arguir sobre as condições de possibilidade da ruptura do
discurso ?ortodoxo, ?em decorrência das mudanças de estratégias de reprodução dos agentes
das classes populares e médias brasileiras para o acesso ao ensino superior. Como objeto de
análise, para tanto, utilizaremos ?o longa-metragem brasileiro ?Que horas ela volta??, de direção
da cineasta brasileira Anna Muylaert, de 2015. ?O contexto no qual a discussão se insere e que
é plano de fundo do longa são as práticas de Estado no sistema de ensino universitário
brasileiro, no primeiro decênio dos anos 2000. A hipótese que encaminhamos é de que a
mudança no acesso e o aumento da produção de diplomas com a entrada das classes
populares na universidade possibilita as mudanças nas visões de mundo, nos discursos e nas
estratégias de classificação dos agentes. Destarte, a apresentação será dividida em dois
momentos: (i) a análise do filme ?Que horas ela volta? como expressão dos efeitos das
práticas de Estado nas estratégias, visões de mundo e discursos dos agentes. Versando,
centralmente, sobre ?a trajetória diacrônica e sincrônica da personagem Jéssica, pois ela rompe
com a lógica de reprodução cultural e social via sistema de ensino (BOURDIEU, 1970) ?(ii)
exposição das políticas educacionais promovidas, no primeiro decênio dos anos dois mil, pelo
Estado brasileiro no sistema educacional universitário.
O longa ?Que horas ela volta? ?possui um roteiro que se apresenta à primeira vista
como um drama familiar, manifestado a partir da chegada da personagem Jéssica, vinda ?da
sua cidade natal em Pernambuco, região nordeste do Brasil, para passar uma temporada em
São Paulo na casa da família de classe média alta para a qual sua mãe, a personagem Val,
trabalha há vinte anos como empregada doméstica. A motivação do deslocamento é o desejo
do ingresso no ensino superior, que ela pretende cursar na Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo (FAU), na Universidade de São Paulo (USP), considerada uma das instituições
mais renomadas da América Latina. Essa prospecção da personagem é muito distinta, e esse é
o cerne dos conflitos que se desdobram no filme, do desejo que sua mãe teve a décadas atrás,
quando se deslocou do nordeste para trabalhar como empregada doméstica em São Paulo.
Assim diante da presença de Jéssica, demonstra-se a premissa dramática do longa-metragem,
centrada no conflito entre dois modos de reprodução de posições socioeconômicas e de suas
distintas estratégias de classificação via sistema de ensino, de acordo com uma leitura
sociológica da praxeologia, proposta por Pierre Bourdieu.
A densidade da trama possui um forte diálogo com o contexto nacional no período do
primeiro decênio dos anos dois mil e com os mecanismos de ação do ?poder simbólico?, que se
desvela na recepção da filha da empregada doméstica, ganhando aos poucos tons de tensão
manifesta entre os personagem, a partir do momento em que Jéssica passa a questionar a
forma pela qual o espaço se estrutura e as condições trabalhistas às quais sua mãe foi
submetida todos estes anos. Essa postura da personagem demonstra um posicionamento
heterodoxo que rompe com a expectativa do devir ?da origem social, para o qual a ?doxa é
entendida como uma ortodoxia - uma verdade neutra, universal e inquestionável. O espaço da
casa que pode ser entendido como metonímia do espaço social, é projetado com a fronteira
entre ?a piscina e o quartinho da empregada, sustentada pelo jargão nacional “quase da
família”, que objetivamente é uma ?denegação, ?imbuída de violência simbólica e da reiteração
da exclusão no interior da casa.
O conflito entre as personagens que se manifesta a partir da tensão gerada por esses
questionamentos é, objetivamente, o choque entre um ?habitus em estruturação reflexiva, que,
portanto, rompe o ?devir ?de sua origem social, e os demais ?habitus em conformação com a
lógica de reprodução. O confronto entre ?habitus distintamente estruturados e estruturantes
serão versados por meio de três atos que recortam a realidade fílmica, em que as relações
entre as personagens e a relação delas com o espaço se modificam: um primeiro momento de
naturalização do arbitrário cultural, em que os ?habitus das personagens engendram práticas
pautadas na lógica da reprodução, seguido de um momento de reposicionamento heterodoxo,
após a chegada da personagem Jéssica, em que há o reconhecimento da contradição oriunda
do discurso naturalizado, e um último momento de crítica reflexiva. Assim, a interpretação
sociológica da narrativa nos permitir analisar as mudanças sociais via sistema de ensino, pelo
prisma dos processos e mecanismos de ação do ?poder simbólico. ?No qual, na dimensão dos
agentes, a ruptura com reprodução social e cultural da personagem Jéssica, carrega as
condições de possibilidade de mudanças, nas dimensões das disposições, dos discursos e das
visões de mundo dos agentes, acerca das regras que regem o espaço social. Na dimensão
institucional, por sua vez, possui condições de possibilidade de alterar a reprodução social e
cultural do campo acadêmico.
Ademais, o ?evénément - incidente - na trajetória de Jéssica e o seu reposicionamento -
heterodoxo - para as estratégias de acesso ao ensino universitário não podem ser analisados
sem que consideremos o impacto das práticas de Estado no primeiro decênio dos anos dois
mil. Esses efeitos podem ser mensurados
no aumento do número de matrículas nas
universidades - privadas e públicas - de 1,7 milhões em 1995 para 6 milhões em 2010
(AGUIAR, 2016:2013). Considerando apenas as universidades federais o aumento foi de
11% ao ano, já que entre 2001 e 2010 houve um aumento de 90,1% das matrículas?. As
políticas públicas que tornaram possível essa mudança, são, ?grosso modo?, o Programa
Universidade para Todos (Prouni), de 2005, o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) de
1976, ampliado no Governo Lula, e o aumento de campi das universidades federais, ao longo
dos dois mandatos do Governo Lula, intensificadas pelo Programa de Apoio a Planos de
Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), de 2007.