Quatro fotógrafos da Maré, Rio de Janeiro
Desde o início da fotografia no Brasil, observa-se que o registro visual da cidade do Rio de Janeiro se concentrou no eixo que hoje entendemos como Centro-Zona Sul1, apesar de iniciativas isoladas ou pontuais por parte de alguns fotógrafos em documentar outras áreas da cidade. Recentemente, já nos anos 2000, emergiram novos agentes, organizados enquanto grupos ou movimentos sociais, que se impuseram no processo de construção da memória da cidade com imagens que predominantemente fora ao eixo Centro-Zona Sul. Neste contexto, foi fundado em 2004 o Imagens do Povo, um programa do Observatório de Favelas, idealizado pelo fotógrafo João Roberto Ripper (IMAGENS DO POVO, 2012 e 2014).
Não é um exagero afirmar que, desde então, o Imagens do Povo tornou-se, ainda que por um período de anos, o maior centro de produção de fotografia fora do eixo Centro-Sul da cidade do Rio de Janeiro, com sede na Maré, bairro e favela na Zona Norte da cidade2. O programa, que em 2015 contava com 66 membros na agência de fotógrafos, desempenhou um papel de centro de formação de fotógrafos populares, assim como de difusão de outras narrativas fotográficas da cidade.
Stuart Hall (2003) observou em seus trabalhos como certos grupos sociais são mais sujeitos a processos de estereótipos que outros. A que grupos sociais se refere Stuart Hall? Daqueles que não detêm o poder da informação e, portanto, não detêm o controle de sua própria representação. As desigualdades sócio-econômicas apresentam diversas consequências, entre elas, os estigmas que determinados grupos acabam associados. Stuart Hall analisa a questão étnico-racial na sociedade britânica, mas o paralelo é observado com outros grupos entendidos como “minorias”. É interessante notar que, apesar do termo conotar a ideia de quantidade, não há uma correspondência direta com a dimensão quantitativa real. Minorias, assim chamadas, muitas vezes são maiorias. Porém, não são maiorias nos meios de comunicação mainstream, enquanto vozes de seus discursos e propagadoras de suas realidades. Isso se aplica ao negro, à comunidade LGBT, ao favelado e tantos outros grupos sociais. Portanto, o que está em questão é uma relação de poder visível na produção e manutenção da informação.
Neste contexto, a fotografia popular aqui apresentada mostra um contraponto: ela se concentra em temas do cotidiano e manifestações culturais, com o objetivo de mostrar a diversidade observada nesses espaços. Em vez de aumentar a distância entre as noções de morro e asfalto, essas fotos instigam uma relação horizontal entre o sujeito da foto e o seu espectador, possivelmente criando algum nível de identificação deste espectador com o objeto retratado. Falamos aqui do dia-a-dia, situações como batizados, o sorriso de uma jovem, a festa junina, cenas que estão acima de fronteiras arbitrárias de bairros ou regiões da cidade, pois são antes de tudo cenas que testemunham práticas e valores humanos. Mais do que fotos de um cotidiano de favela, trata-se de uma documentação de histórias do Rio de Janeiro, com um alcance que vai além da mídia enquanto objeto: a fotografia também enquanto agente social e da história, moldando a história da cidade do Rio de Janeiro.
Para discutir as formas de viver e entender a cidade expressas através do Imagens do Povo, é importante apontar a diversidade de temas retratados e a grande quantidade de fotógrafos do programa. Por isso, selecionamos quatro fotógrafos, moradores da Maré, para este trabalho que coaduna análise das imagens produzidas pelos mesmos e entrevistas feitas individualmente com cada um. Desta forma, se tornam importantes questionamentos como: que temas tratam esses fotógrafos? Eles buscam uma maneira autoral de fotografar? A fotografia os oferece uma nova forma de viver a cidade?
Essa relação com a Maré, é importante ressaltar, não é apenas dos fotógrafos com o seu bairro. Mas, de certa maneira, o presente trabalho é também o resultado da minha imersão na Maré, durante os meus três anos de trabalho como coordenadora da Agência do Imagens do Povo3. Foi através do projeto que pude conhecer melhor tanto a Maré como suas histórias, trazidas através das falas dos fotógrafos da agência, pelo meu dia a dia e, especialmente, pelas fotos que me eram mostradas toda semana. Quando fizemos a entrevista (uma individual com cada um dos fotógrafos selecionados, todas no mesmo dia), muitas das histórias já me eram conhecidas. Havia algumas perguntas pré-formuladas, mas outras surgiram pelo andar da conversa, especialmente durante os comentários sobre as fotos de cada um. Essa conversa, gravada e parte do meu arquivo pessoal, me ofereceu uma importante ferramenta para a análise que apresento neste trabalho.
Através das séries fotográficas escolhidas e/ou das falas dos entrevistados percebem-se suas singularidades. Para Adriano Ferreira Rodrigues, conhecido como AF Rodrigues, a Maré “é um playground” para a fotografia documental. Elisângela Leite se mudou da Paraíba para Copacabana e de lá para a Maré. A fotografia a faz (re)conhecer a Maré que não aparece na TV. Já Veri-vg quis fotografar o seu espaço, o Piscinão de Ramos. E a partir deste tema, chegou a muitos outros que lhe eram caros, ele justifica: “O tempo vai transformando o nosso olhar” (Veri-vg, 2014). Para Ratão Diniz4, o grafite pode ser uma importante referência de análise de seu trabalho. Todas essas percepções, gravadas pela luz em forma de fotografia, somam-se nessa outra forma de olhar para as favelas do Rio, em especial para a Favela da Maré. Juntas, elas compõem múltiplas visões de ser carioca no Rio de Janeiro de 2015, “depois do túnel”, entre a Avenida Brasil e a Linha Vermelha. Ali, na Maré.