Visualiza-se como problemática perceptível na contemporaneidade o aumento de casos de xenofobia, que nos últimos tempos têm ganhado repercussão internacional e intensificado debates políticos, econômicos, sociais e culturais em torno da questão. Muito se fala acerca de crises migratórias, e nesse contexto, as discussões em torno de questões como regras para adentrar e permanecer em países, critérios migratórios, deportações e medidas protetivas que visam controlar e sufocar a entrada de estrangeiros em determinados países, por exemplo, tem ganhado fôlego.
A lógica da flexibilidade, difundida pelo capitalismo ao propagar a integração mundial de países por meio do desenvolvimento tecnológico, permitindo, assim, uma conexão em escala global, facilidades de deslocamento e a disseminação de informações em qualquer parte do mundo contribui para o ideário de uma possível integração internacional.
Entretanto, destaca-se que ao passo que se multiplicam as facilidades e o ideário de um mundo integrado internacionalmente, generaliza-se e intensifica-se também as desigualdades sociais, o medo, as intolerâncias e as discriminações de raça, sexo, religião e nacionalidade. Entende-se aqui que a xenofobia se intensifica nos momentos de crise do capital.
Tendo-se em vista o processo contemporâneo de crise do capital, o presente artigo busca discutir as implicações e desdobramentos deste fenômeno no âmbito da sociabilidade capitalista, mais especificamente, em torno das manifestações atuais de xenofobia. Acredita-se que sua relevância temática esteja na capacidade de contribuir para o debate acerca do aumento de casos xenofóbicos, conforme propagados, por exemplo, nos veículos de comunicação. Os apontamentos fundamentais incidem sobre a intensificação de manifestações xenofóbicas a partir da crise estrutural do capital e tem como objetivo principal compreender as atuais manifestações xenofóbicas nos marcos da crise contemporânea do capital.
Pode-se iniciar tal argumentação com a compreensão de que o desenvolvimento do capitalismo é "orientado para o crescimento [...] pouco importam as consequências sociais, políticas, geopolíticas ou ecológicas" (Harvey, 2001, 166). Esta ânsia de crescimento é perpassada pela principal lei desse sistema, a lei geral da acumulação capitalista, que pode ser visualizada na diferença alarmante e simultânea entre o crescimento da riqueza de um lado e da extrema pobreza de outro. Chega-se à contradição elementar desse sistema, no sentido de que quanto mais riqueza é socialmente produzida, o é também seu inverso, ou seja, mais miséria o homem produz para si. É nesse sentido que "a acumulação da riqueza num pólo é, portanto, ao mesmo tempo, a acumulação de miséria, tormento de trabalho, escravidão, ignorância, brutalização e degradação moral no pólo oposto" (Marx, 1984, I, 2: 210 apud Netto; Braz, 2006, 138.)
A contextualização da lei geral de acumulação capitalista se faz necessária pois, a mesma encadeia o próprio debate da "questão social", imprescindível para o entendimento das demandas atuais no cenário de mundialização e crise do capital, pois ao se falar em questão social, fala-se também da divisão social do trabalho e da apropriação desigual das riquezas produzidas coletivamente. Ao se mundializar o capital, internacionaliza-se as expressões da questão social, atingindo não só os países pobres, que lideram o ranking mundial das desigualdades, mas espraiam-se aos recantos mais sagrados do capitalismo mundial, os países centrais. (Iamamoto, 2001, 21).
Dessa forma é relevante pontuar algumas transformações ocorridas no mundo do trabalho com as mudanças no modo de acumulação capitalista. Trata-se de compreender o processo da reestruturação produtiva que desencadeia modificações sociais e políticas, principalmente através da destituição do pleno emprego, dos direitos sociais, da compressão do tempo-espaço sob a lógica da acumulação flexível, que para Harvey, (1992, 141), "parece implicar níveis relativamente altos de desemprego "estrutural", rápida destruição e reconstrução de habilidade, ganhos modestos (quando há) de salários reais".
Não se pode deixar de pontuar também as estruturas de poder que determinam os direcionamentos políticos, econômicos e sociais do capitalismo mundializado e que tem como principais expoentes organismos multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial (BM), Organização Mundial do Comércio (OMC). Vale ressaltar que tais organismos, dentro do processo de acúmulo de riquezas, reconfiguram diversas estruturas e relações sociais, como, por exemplo, as que recaem na instância e dimensão das relações de trabalho, dos direitos, da luta de classes e do Estado.
É preciso ter em mente que "a dinâmica da globalização exige a reestruturação do Estado, a privatização das empresas produtivas estatais, da saúde, educação, transporte, habitação e previdência. Assim, se modifica, ou mesmo rompe, a relação entre o Estado e a sociedade" (Ianni, 2004, 320), pois tendo sua intervenção modificada este leva ao desenrolar de outras manifestações mais acentuadas da questão social que apresenta sobre o pilar do antagonismo entre as necessidades do capital e as consequências para o mundo do trabalho. Em tempos de crise tais repercussões tem intensificado a reafirmação de movimentos neoconservadores, cujas práticas xenofóbicas lhes são estruturantes.
Os princípios da reestruturação produtiva, da acumulação flexível e do neoliberalismo são fundamentais para compreender a conjuntura mundial, tendo nítido que o capital e suas consequências chegam em todos os espaços do mundo de forma desigual.