A formação do bairro de Mãe Luíza remonta, assim como grande parte das
periferias brasileiras, ao intenso processo de urbanização no século XX e à
incapacidade do Poder Público em atender à demanda por habitação digna e
acesso ao solo urbano a população de baixa renda, em sua maioria vindo do
campo. Com aproximadamente vinte mil habitantes, o bairro de população carente
de Natal/RN, Nordeste brasileiro, possui, conforme dados do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (2012), rendimento médio mensal de dois salários mínimos –
uma das piores rendas quando comparada aos demais bairros da cidade. Com
urbanização não planejada, inexistência de direitos, como saneamento básico, pela
violência do Estado e da facção do bairro, o Morro de Mãe Luíza, como é chamado
por seus moradores, apresenta ainda distintas situações, por exemplo, “Toque de
recolher”, ora dado por policiais civis e militares ora por agentes do tráfico de
drogas, e regras coletivas, organizadas pelo Sindicato do Crime do RN, entre elas:
“a proibição de cobiçar a mulher do próximo”, “fumar na frente das crianças” ou
“respeitar os vizinhos, sejam eles bandidos ou não”, “ou de falar com a Polícia”
fugindo de qualquer controle por parte do Poder Público. É, diante deste contexto, o
estudo se propõe a investigação a partir da fotografia como ferramenta
metodológica de investigação e análise com jovens provenientes de contextos em
exclusão social, residentes do bairro periférico de Mãe Luiza. A leitura e análise de
expressões e reflexões do bairro como lugares de reconhecimento e de fala por
meio da fotografia participante. O campo teórico é estruturado a partir dos Youth
Participatory Action Research (YPAR), na metodologia visual participativa
Photovoice (Wang e Burris, 1997) e nos princípios da educação para a consciência
crítica do pedagogo Paulo Freire (Wallerstein e Bernstein, 1988), Martín-Barbero
(1997) no que diz respeito ao bairro como lugar de reconhecimento identitário
comunitário e Lia Pappámikail (2009) com a abordagem de juventude e autonomia.
A metodologia partiu da escolha de interlocutores privilegiados, como o professor e
mentor da escolha de Surf Filhos de Mãe Luíza, Francisco Ventura; a educadora
Edilsa Nascimento e o padre Robério, do Centro Sócio-Pastoral Nossa Senhora da
Conceição; e Francisco Gomes, o “chiquinho”, e “Shampoo”, do grupo de Hip Hop,
a fim de identificar, compreender seus papeis e contribuições com a juventude do
bairro. Estas conversas foram essenciais para criar uma relação de confiança com o
projeto de estudo e o acesso facilitado aos jovens. Devido a violência e ao controle
da facção local sob o bairro, nota-se que foi impossível aplicar uma estratégia de
recrutamento conduzido pelos pesquisadores, como havia previamente planeado.
Opta-se, portanto, por uma estratégia de recrutamento assistido pelos interlocutores
privilegiados. Ressalta-se que todos os processos legais, éticos foram conduzidos e
que a identidade dos jovens seria preservada em toda a produção. A investigação-
ação participativa com 15 jovens residentes do bairro de Mãe Luíza, entre os 16 e
22 anos, com igualdade de gênero como fotógrafos imersos em seus próprios
contextos e problemáticas, contadores de suas próprias histórias, a fim de discutir o
olhar dos mesmos para o tema “Filhos de Mãe Luíza”. A adoção da juventude se
baseia por estudos que demonstram o segmento juvenil como o grupo etário com
maior exposição ao contexto social no qual está inserido. Destaca-se que jovens
escolhidos fazem parte de três grupos distintos, entre eles: o grupo oriundo de uma
oficina de surf, um grupo hip hop e um outro de meninas jovens poetas. O trabalho
de campo foi realizado durante o mês de abril de 2018, totalizou 489 fotografias,
todas produzidas pelos participantes. Os retratos serviram como instrumentos
visuais fontes analíticas, bem como os debates, em torno de indicadores social
como a relação dos participantes com o bairro, as relações entre os residentes com
a comunidade, a localização central, a vista privilegiada da cidade, os eventos e
festas comunitárias, os grupos de música, a paróquia e as atividades ali
desenvolvidas; bem como os problemas levantados como ausência de espaços
públicos para sociabilidade, preconceito e estigma de serem “favelados” ou “do
morro”, a violência e a falta de oportunidades. Nota-se que durante a análise dos
resultados, a violência não foi apresentada como problema central, mas algo .
Todas as questões seguem como ferramenta de (re)construção dos conceitos de
memória, lugar e identidade, a partir de Jacques Le Goff (1995), Paul Ricoeur
(1996) e Stuart Hall (2006).