Quem escreve a história? Quais histórias são ditas e tantas outras são silenciadas? Para quê serve a história e a quem serve a história? As questões acima foram guias para se chegar ao projeto aqui em desenvolvimento, cujos resultados da pesquisas aqui se apresentam.
A construção da narrativa histórica tornara-se alvo da disputa intelectual, cultural e política do Brasil republicano das primeiras décadas do século XX e o movimento negro – na sua pluralidade – entrou na disputa por suas narrativas ou, ao menos, a sua inclusão por um viés positivado e protagonista. Não passaria despercebido em nenhum dos setores o campo fértil e poderoso que a narrativa histórica tomava nesse momento.
Na imprensa negra também foram observadas e contestadas por outros discursos as funções há muito verificadas pela historiografia como fala de uma elite intelectual, como projeto de futuro sem a presença negra, como projeção de um passado seletivo e de clausura ao negro como escravo passivo e submisso, e talvez como forma de, simbólica e estrategicamente, recriar naquele presente da Primeira República, em São Paulo, as hierarquias dos vários grupos étnicos que compuseram a paisagem de formação da sociedade brasileira. As narrativas históricas dominantes no período ensejaram a figura dos negros, majoritariamente circunscrita à sua situação de escravizados, em outrora, mas uma marca que se tornava indelével para conter a ascensão a uma pretensa cidadania e igualdade. A vaga noção de cidadania atravessava os interesses e formas de modelar e controlar a liberdade para os vários grupos de negros do pós-Abolição. Mas a marca da cor da pele era um traço insubstituível que dava e marcava os significados da liberdade e os lugares e níveis da cidadania. Além da ideia bastante circulante de que os séculos de cativeiro e a origem africana – o que indicaria certo infantilismo ou até um barbarismo original como marca de subumanidade – não assegurariam uma igualdade que o corpo da Constituição de 1891 garantiria a todos os brasileiros.
A definição de qual a narrativa a ser contada sobre a formação da sociedade brasileira e a sua associação com a ideia de qual nação se queria confrontava e delimitaria a escrita da história como repertório em confronto, em disputa, que acabaria por envolver não só os consagrados historiadores, gabaritados com sua formação bacharelesca, os seus títulos e honrarias, para empreender e protagonizar as leituras possíveis do passado do país. Todavia – e surpreendentemente – alguns dos grupos subalternizados e tomados como objetos pelos sujeitos autorizados da construção da narrativa histórica encararam a disputa e reescreveram a história. Falo aqui que homens e mulheres subalternos falaram, e falam, sobre a história do país: trabalhadores, negros, imigrantes, mulheres, camponeses. Nas três primeiras décadas do século passado, negros e mestiços usariam das diversas linguagens e até das novas ferramentas de comunicação em massa, como o livro, os jornais, o rádio (na reprodução de suas músicas), para traduzir suas versões da história, enquanto os outros sujeitos da fala histórica.
Negros, de São Paulo, reunidos em agremiações, clubes, centros, usando do espaço de sua imprensa alternativa aos jornais de grande circulação da cidade, divulgaram, analisaram, promoveram e criaram uma narrativa histórica que passara a incluí-los para além do papel de seus antepassados escravizados. Recuperaram figuras negras do passado e alçaram-nos ao lugar de uma tradição nacional que estava sendo forjada naquele período ou ampliaram as noções de quem eram os cânones do Brasil, os que faziam parte de uma suposta linhagem da nação. Também usaram da narrativa histórica para a criação de um vínculo identitário com negros de outrora, ou seja, para firmar uma identidade coletiva e social negra. Para os negros ativistas da capital de São Paulo, através de uma escrita histórica por mãos negras, pretendiam cobrir de maior legitimidade e reconhecimento a sua experiência e sua campanha antirracista e em prol do desenvolvimento social para os negros. Além de protagonizaram uma fala de si e saírem do posto de objetos da análise histórica predominante que lhes cravavam um lugar subalterno contínuo.
Falar da história foi mais uma das alternativas para descampar as ameaças, medos, insegurança e exclusão que a população negra vivenciava no cotidiano e noutros espaços, que levaria alguns deles para o entre-lugar da fronteira na tensão e embate de que não poderiam escapar. Foi na contramão a esse estado da arte do contexto racista no Brasil, e em São Paulo em especial, que as associações negras se portavam em sua campanha contra as ideias e imagens que lançavam. Que tinham a capilaridade e capacidade de maior inserção e impacto geral dentre a sociedade. Na imprensa negra, o repertório da escrita da história foi um dentre muitos na luta antirracista e para combater a discriminação que a população negra e mestiça vivenciava.
Podemos dizer que os jornais voltados para o público negro foram espaços privilegiados para a construção de um discurso paralelo ao oficial e/ou intelectualmente referencial a respeito das condições, aspirações e entendimento do que foi ser negro no Brasil, e especialmente em São Paulo, no início do século passado. É relevante tomar nota que a partir das publicações também se permite outra visão sobre o negro: de pensadores e de formadores de opiniões, de ativistas e promotores do debate intelectual. Nas narrativas ali criadas e lançadas, a visão do negro como artífice de construção do país é notável no que diz respeito ao trabalho, que é valorizado como obra de construção nacional sob a responsabilidade da população negra ao longo dos quatro séculos anteriores. As páginas dos jornais da imprensa negra também abordavam a produção, criação e circulação de uma cultura negra, assim como a conformação de certo tipo peculiar de comportamento social indicado, pedagogicamente, como o mais correto de aceitação e adaptação à modernidade. Além da importante invenção de uma linhagem formada por ícones negros, alçados à condição de heróis nacionais, fato que trataremos aqui como uma narrativa histórica alternativa que intentou valorizar a negritude e a trajetória negra no país, para além da escravidão.
Os anos 1920 trouxeram um momento de inflexão, em que a promessa de um novo discurso de identidade nacional brasileira foi se repaginando, sob o prisma da redenção e aceitação da ideia de uma sociedade miscigenada, étnica e culturalmente. Era um contraste frente aos discursos nacionalistas hegemônicos de antes. O racismo científico sustentava a ideia de uma hierarquia entre supostas “raças”, o que para boa parte das cabeças pensantes do país atreladas às teses eurocêntricas relegava ao Brasil um status menor no concerto das nações. A mudança em curso se faz, paulatinamente, nos estudos e criações em que a emergência de mestiços e negros vai se tornando objeto importante e a regra. Grande parte da produção científica, artística e literária do período da Belle époque brasileira interpretou e engendrou o debate racial que acabava por consolidar e vulgarizar a ideia de que os negros e mestiços do país representavam um sinal de atraso e entrave ao processo civilizatório de padrão eurocêntrico, para onde se voltavam os olhares e as intenções das elites brasileiras.
Durante a década de 1920 é possível apostarmos que continuou havendo uma constituição de redes e locais de concentração de uma camada intelectual composta por mulatos e negros para pensar e analisar a situação da população afrodescendente e sua situação no país. A criação de um circuito intelectual negro foi um ato de resistência, de enfrentamento ao establishment intelectual, instalado nas academias, institutos científicos, órgãos culturais, grandes editoras, faculdades e redações de jornais e revistas de grande tiragem. Mesmo esbarrando nas fragilidades do movimento, na possibilidade de malogro e nas dificuldades corriqueiras que a comunidade negra vivia.
Ao tentarem a organização da população afrodescendente como meio mais apropriado para a luta pelo reconhecimento de direitos e a busca por igualdade de direitos, desdobraram-se também na reparação ante o passado escravagista e num reparo da escrita histórica que também os excluía ou subalternizava-os. E entre os vários meios de atuar nessa frente, tomar o controle sobre uma escrita de si se tornou ferramenta de luta, pressão e de pedagogia da negritude e da nacionalidade. E também para a eterna campanha da luta contra o racismo e pela promoção social dos pretos e mulatos.
Escrita essa, publicada nos jornais típicos do movimento negro, aos quais damos o nome de imprensa negra. O destaque da pesquisa são os artigos e imagens lançados nos jornais Clarim da Alvorada, Progresso e A Voz da Raça, de São Paulo, entre o período de 1924 a 1937, e que deram vazão à escrita da história, dentro do viés da fixação de uma identidade negra, assim como nas campanhas contra o racismo e pela promoção da ascensão social do negro lutando por sua valorização. Também é passível de destaque a promoção de alguns traços da cultura negra, como a trajetória e a obra de produção e trabalho da população afrodiaspórica que durante os quatro séculos anteriores foram os artífices mais importantes de constituição da sociedade brasileira, nessa versão histórica que engendraram nos jornais da imprensa negra paulista.
Foi um processo tanto de tradução do conhecimento histórico canônico quanto do entendimento de que a trajetória negra no país ia para muito além da escravização e da brutalidade do cativeiro. Esse passo de tradução promoveu uma vulgarização do conhecimento histórico nos jornais negros para uma margem da população que se via negativamente no discurso dominante de formação da sociedade brasileira, e paulista, em especial. Quais sejam? A população negra e mulata da cidade.