Este trabalho objetiva debater o vínculo histórico-institucional da juventude brasileira com o maior partido de esquerda do Brasil, o Partido dos Trabalhadores (PT), a partir da incorporação de jovens em seus quadros de articulação política, sua inserção nas esferas institucionais de militância no partido e construção das preferências partidárias/ eleitorais. A agenda de pesquisa sobre juventude e política tem demonstrado um declínio significativo do engajamento de jovens em organizações políticas tradicionais, como os partidos políticos e sindicatos, em sinergia com o aumento da desconfiança e indiferença destes atores em relação à política institucionalizada. A paulatina dissociação juvenil dos comportamentos institucionalizados relaciona-se com as mudanças no âmbito valorativo, pois as gerações atuais pouco se identificam com organizações hierarquizadas e burocratizadas, tendo por preferências e experiências políticas não-convencionais (NOVAES, 2007), atreladas à subjetividade, criatividade, transformação de si, experiência e experimentação; à promoção de ocupações que são ao mesmo tempo lugares de troca, resistência, expressão e experimentações de uma democracia direta e horizontal; o uso criativo das novas tecnologias e de conexões em rede; a capacidade para se inscrever nos desafios globais permanecendo
posicionados prioritariamente no âmbito do espaço local. E isto impacta, com precisão, quaisquer prerrogativas de atrelar esta reorientação de inclinação política com a negação da mesma, na evocação da “crise de representação”, impulsionando o jovem da atualidade rumo à descrença, apatia e pouca vontade de participação política. A conexão do jovem com a participação é a conexão do mesmo com o contexto que fomenta esta participação. Isto significa que juventude reflete a tendência e escolhas que a maioria da sociedade que faz, sendo, portanto, arriscado propagar a generalização de uma participação juvenil estacada. O interesse do jovem pelo “novo” na atmosfera política vem a calhar com a prerrogativa e necessidade, pelos partidos, de ressignificação sobre seu papel e as configurações de diálogos com as juventudes (NORRIS, 2016). Em trabalho anterior, constatamos que o Partido dos Trabalhadores, nos primeiros cinco anos de sua fundação, possuía em suas fileiras uma ampla massa de filiados jovens (média de 60% com até 29 anos), percentual este que vai progressivamente decrescendo com o passar dos anos. Deste fenômeno, partimos para o questionamento da habilidade histórica do partido em conseguir sensibilizar os jovens, numa conexão com os anseios de um setor social que outrora tinha o partido como uma referência vanguardista original de contemplação de perfis e engajamento militante (MARQUES, 2016). O dilema da renovação de quadros, no alicerce de uma demanda constante de oxigenação dos componentes ativos que movimentam as engrenagens do partido político, vai diretamente de encontro com a importância, para o próprio PT, do componente de atratividade para suas fileiras. A peça “jovem” no tabuleiro do jogo político-partidário na arena eleitoral, parlamentar e da dinâmica organizacional interna é sem dúvida um elemento de desequilíbrio, à mercê da atração juvenil pelo ativismo alheio aos ditames engessados pela via do engajamento institucional tradicional. E quando nos propomos a debater esta relação do PT com a juventude, nos defrontamos com as seguintes problematizações: qual a relação histórica do partido com grupos de juventude? Qual o panorama de identificação partidária juvenil pelo partido? Como se localizam os jovens nas instâncias de decisão do partido (controle das zonas de incerteza)? A construção da discussão deu-se a partir da análise dos dados coletados através do levantamento documental sobre o quadro de filiação ao PT desde sua fundação, da preferência partidária dos jovens brasileiros pelo partido a partir de 1989, do papel institucional de sua Juventude Partidária, da composição social e distribuição geográfica dos delegados petistas nos Encontros Nacionais e Congressos Nacionais, da composição etária dos Diretórios Nacionais de 2001 a 2015 e dos impactos etários na seleção de candidatos no processo de recrutamento partidário. A partir das análises empreendidas concluímos que o envelhecimento do quadro de filiados ao partido veio acompanhado de outros elementos que confirmaram o pouco espaço em esferas partidárias decisivas disponibilizadas à juventude em grande parte destes trinta e seis anos de existência. O partido vem encarando um processo de envelhecimento no quadro de delegados presentes nas instâncias nacionais deliberativas (Encontros e Congressos Nacionais). Os dados apresentados mostram que a representação juvenil nestes espaços manteve-se em patamares percentualmente pouco expressivos, em paralelo com o aumento do percentual de delegados acima dos 40 anos. A mesma tendência da subrepresentação juvenil no PT é vista quando apresentamos o perfil daqueles que vem compondo o corpo dirigente partidário, detendo assim o controle dos recursos de poder organizativo dentro do partido. No que se refere aos candidatos jovens lançados à disputa eleitoral aos cargos legislativos na esfera estadual e nacional, perpetua-se no PT a cultura da baixa representatividade desta categoria. Todas estas ausências confluem com a queda de popularidade do partido não somente com o público em geral, mas de forma mais impactante junto à juventude.