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Resumen de ponencia
Guevara e o socialismo alternativo: Uma análise do discurso de Ernesto “Che” Guevara na ONU à luz da Teoria Crítica

*Mariana Pimenta Bueno



Ernesto “Che” Guevara de la Serna, médico e guerrilheiro argentino-cubano, é mundialmente conhecido como um dos símbolos da esquerda latino-americana, romantizado e odiado por muitos até a atualidade. Entretanto, a academia pouco se dedica ao estudo de suas ideias e visões sobre a América Latina e países periféricos, principalmente no campo de Relações Internacionais, não obstante alguns historiadores, cientistas sociais e jornalistas tenham dedicado livros sobre sua trajetória. Por ser um importante personagem na história latino-americana, tornou-se interessante estudar sobre seu pensamento marxista e sua visão socialista de entender o mundo de maneira alternativa à União das Republicas Socialistas Soviéticas (URSS). Sabendo-se que seus discursos foram e são exemplares de suas ideias e pensamento, o objetivo desta pesquisa foi analisar seu discurso proferido na XIX Assembleia Geral das Nações Unidas através da Teoria Crítica das Relações Internacionais, partindo da premissa de Robert Cox de que toda teoria seria para alguém e com um determinado propósito. Este estudo trouxe como hipótese que o discurso proferido por “Che” Guevara na Assembleia Geral foi o momento no qual ele mostrou ao mundo de forma abrangente seu socialismo alternativo ao da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e ao da República Popular da China. Seu entendimento sobre o socialismo produziu uma visão voltada para os países da América Latina, Ásia e África, considerando as estruturas sociais e o posicionamento deste no sistema internacional, apoiando as lutas anti-imperialistas, anticoloniais, a busca pela autodeterminação, as relações igualitárias no sistema internacional, a solidariedade internacional e o respeito às soberanias de todos os Estados. Esta hipótese, então, foi testada através do método de análise do discurso. Ademais, através da leitura das obras de Michael Lowy, do teórico crítico Robert Cox e dos escritos do próprio Ernesto “Che” Guevara pudemos entender como o marxismo foi assimilado por Guevara e como a Teoria Crítica se encaixa nesta análise.
Dessa forma, considerando os estudos e a formulação do seu pensamento marxista, “Che” Guevara trouxe especialmente no discurso que aqui foi analisado o reflexo do seu entendimento marxista sobre determinados conceitos. Além disso, desafiou em sua fala a coexistência pacífica entre os dois blocos da Guerra Fria – EUA e URSS, questionou o papel da ONU e mostrou ao mundo que o socialismo era vital para a contestação do sistema internacional em vigência. Ao longo do discurso, observa-se que Guevara teorizou um socialismo alternativo ao que a URSS pregava. Sendo assim, tal como a Teoria Crítica acreditava num movimento contra hegemônico vindo do “terceiro-mundo”, Guevara também esperava por isso. Seu socialismo alternativo defendia que as condições da sociedade eram as que indicavam o tempo de duração da revolução, o marxismo fomo filosofia da práxis e a importância dos estímulos morais, com a revolução sendo permanente, pois o caminho para o comunismo não se restringia a uma mudança de ordem econômica e política: o homem, como protagonista dessa revolução contestava as relações internacionais de subordinação e dependência entre as grandes potências e as nações de “terceiro mundo”, a luta contra o imperialismo estadunidense, a defesa das nações que buscavam sua independência — além daquelas que já a haviam conquistado, mas sofriam com violações de sua soberania.
Através de elementos do seu discurso citados — a denúncia contra o imperialismo estadunidense, a solidariedade internacional e o questionamento sobre para quem era a coexistência pacífica — o método proposto pela Teoria Crítica sobre estruturas históricas tornou o significado de suas palavras esclarecedor, pois seu socialismo alternativo tinha como objetivo mudar a ordem que o mundo vivia, a forma do seu Estado e as forças sociais internas. Assim, o socialismo alternativo que foi destinado especialmente para os países que estavam sob domínio político ou econômico na África, Ásia e América Latina, teve na Assembleia Geral das Nações Unidas uma projeção mais abrangente aos países dessas regiões, pois este espaço era o principal palco para a defesa dos interesses das nações e a oportunidade dos que eram classificados no sistema internacional como nações do “terceiro mundo” exporem seus anseios e suas opiniões.




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* Pimenta Bueno
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro UNIRIO. Rio de Janeiro, Brasil