Os anos 1990 marcaram um aprofundamento do neoliberalismo e da globalização capitalista. Esse contexto engendrou, por volta da virada do milênio, em diferentes territorialidades do mundo, o surgimento de um amplo ciclo de protestos da sociedade civil organizada que pautaram os malefícios - sociais, econômicos, políticos e ambientais - das práticas neoliberais e da globalização capitalista. Símbolo deste ciclo de ação coletiva transnacional é o Fórum Social Mundial, objeto de estudo do trabalho. Este Fórum pauta, desde a sua primeira edição (em 2001, em Porto Alegre, no sul do Brasil), diferentes estratégias de articulação junto a diferentes movimentos sociais para enfrentar o neoliberalismo e a globalização capitalista, bem como para construir “outro mundo possível”.
Nesse contexto de nascimento do movimento antiglobalização, é importante pautar que ocorreram mudanças não apenas na comunidade internacional, com o surgimento de novos atores internacionais na arena geopolítica, mas também na forma de mobilização política, com novas práticas e gramáticas. Nesse sentido, o Fórum Social Mundial tem como característica que o diferencia a pluralidade e heterogeneidade dos movimentos que o compõem. Tais movimentos mostraram-se capazes de se reconhecer, dialogar e intercambiar vivências, práticas e utopias.
Como dito, os anos 1990 marcaram o aprofundamento do neoliberalismo. Por outro lado, o começo dos anos 2000 viu o “giro à esquerda” na América Latina, sendo que praticamente toda a primeira década do século foi mais favorável e simpatizante a governos e movimentos de esquerda. Hoje em dia, no entanto, há um novo processo de “direitização” da política - ou seja, tanto a nível nacional (Brasil), quanto a nível regional (América Latina) e global, veem-se avanços de pautas, políticas e governos de direita. É necessário levar em conta, portanto, que, assim como o contexto social e político a nível mundial, regional e nacional sofreu alterações desde o início do Fórum Social Mundial, o próprio Fórum também sofreu modificações em suas estratégias. Nesse sentido, o trabalho visa traçar um histórico do Fórum Social Mundial de 2001 a 2018, passando pelas diferentes edições do evento e analisando os seus principais documentos, como diretrizes e cartas de princípios.
O objetivo geral do estudo consiste em entender como se deu (e como se modificou) a estratégia do Fórum Social Mundial ao longo do tempo, de modo a poder fazer uma comparação do seu início com os dias de hoje, pautando seus balanços e, ainda mais importante, suas perspectivas para o futuro. Do mesmo modo, pretende-se fazer um paralelo entre as estratégias de atuação do Fórum Social Mundial e a situação sociopolítica tanto global quanto regional, de modo a compreender como o Fórum está inserido em um contexto político maior.
O trabalho justifica-se academicamente por tratar de um importante movimento a nível internacional para as Ciências Sociais. Um estudo que faça sua trajetória histórica, pautando seus balanços e suas perspectivas mostra-se relevante e enseja importantes debates sobre a resistência ao “giro à direita” no Brasil, na América Latina e no mundo, bem como sobre processos alternativos de democracia. Socialmente, o trabalho justifica-se principalmente por valorizar os movimentos sociais, dando-lhes protagonismo na arena internacional.
Para chegar aos objetivos apontados, o trabalho estará dividido em diferentes seções, quais sejam: a) retomada histórica do surgimento dos movimentos sociais antiglobalização; b) trajetória do Fórum Social Mundial, de 2001 a 2018, com análise dos documentos mais relevantes; c) análise da relação do Fórum com o contexto mais amplo, com indicadores ainda a serem definidos. Espera-se incentivar um debate sobre a importância de o Fórum retomar sua força em um contexto de acirramento das disputas políticas principalmente na América Latina. A trajetória histórica será importante, portanto, para poder pautar possibilidades de atuação de agora em diante, fortalecendo a resistência altermundista engendrada pelo Fórum Social Mundial em (e desde) 2001.