A juventude tem sido, atualmente, tema de debates nas áreas da Sociologia, Antropologia, Psicologia e Educação. Autores como Abramo (2005), Dayrell (2007) e Carrano (2003) apontam a importância de pensarmos o conceito de ser jovem enquanto categoria social com suas diversidades culturais e, portanto, com experiências e práticas sociais historicamente situadas, o que pressupõe uma concepção de juventude com experiências e contextos sociais próprios, jamais únicos e universais. Pensando a América Latina como cenário das ações desses atores juvenis, destacamos dois acontecimentos marcantes, de visibilidade internacional: O caso dos jovens mexicanos de Ayotzinapa, desaparecidos em 2014 quando iam participar de uma passeata (MARCIAL, 2015), e os grupos de estudantes brasileiros de São Paulo que, em 2016, ocuparam suas escolas contra a Reforma do Ensino Médio.
O que essas ações têm em comum? O que esses jovens estão buscando? Essas indagações, ao mesmo tempo em que sinalizam a necessidade de reconhecimento do “ser jovem” em cada um dos países noticiados, querem externar ações juvenis imbricadas de conceitos e identidades que se cruzam. Temos dois “palcos” onde jovens brasileiros e mexicanos atuam como personagens de suas próprias histórias e com intenções semelhantes. De um lado, um grupo de jovens indígenas de uma região mexicana rural, oriundos de uma Escola Normal conhecida pela militância política de seus alunos. De outro, jovens alunos da Cidade de São Paulo, que através de suas ações, também demonstram capacidade de mobilização política e social. Apesar de pertencerem a países com estruturas sociais e culturais distintas, são protagonistas de um mesmo “espetáculo”: jovens indígenas, negros e pobres, colonizados por europeus e, portanto, subordinados pela dominação política, cultural e econômica europeia, mobilizados por recompor suas identidades juvenis, em busca de uma educação pública de qualidade e de direitos, por uma escola que os represente, que “fale suas línguas”, que “dance suas músicas.
Nossa pretensão, com este estudo, é olhar esses jovens como atores partícipes de uma condição juvenil (DAYRELL, 2007), o que significa compreendê-los tanto “a partir de suas posições na estrutura social”, [...] como “também a partir dos elementos comuns à experiência juvenil nas sociedades contemporâneas (...)” (LEÃO, 2011, p.102, apud BUBET, 1996 e DAYRELL, 2001).
Neste cenário, qual seria a condição juvenil dos jovens do México e do Brasil? Estas poderiam ser comparadas em algum momento?
Frente às suas condições de subdesenvolvimento, de subordinação e de pobreza, esses jovens apresentam posições definidoras de suas trajetórias e ações juvenis, as quais, como mostram os noticiários, sugerem outras formas de resistir, numa contra hegemonia, buscando e promovendo aí, importantes rupturas. Neste cenário de subordinação, esses sujeitos seriam atores vitimados pela sombra do colonialismo?
Para entender esses processos coloniais de subordinação, partiremos dos estudos decoloniais como caminho para a transformação desses atores insurgentes, em busca de um protagonismo juvenil. De acordo com Miranda (2016, p. 558) “sob uma dinâmica própria de coletivos organizados em diferentes partes da América Latina, vimos exemplos de práticas insurgentes que interrompem o silêncio”.
A escolha do Brasil e do México como “cenários” do estudo desses atores juvenis justifica-se no fato de pesquisas já existentes mostrarem que ambos possuem considerável parcela de sua população formada por jovens vivendo distintos problemas sociais. Esse elevado número populacional juvenil tem impactado esses dois países, no sentido de oportunizar o crescimento de políticas voltadas para esse público e, consequentemente, mobilizar novas pesquisas sobre a juventude. Pensar o jovem de hoje, do Brasil e do México, é, antes de tudo, entender suas estruturas políticas, econômicas e sociais.
Os estudos sobre as relações existentes entre o jovem e a escola trazem categorias importantes, como sociabilidade, engajamento político e identidade (BRENNER, 2014, DAYRELL, 2007). A escola, enquanto espaço de socialização, “pode também ser lugar onde ocorrem as primeiras aproximações com grupos militantes organizados, pela existência de grêmios e outras formas de mobilização estudantis” (BRENNER, 2014, p. 44).
Dayrell (2007) traz reflexões importantes sobre as tensões existentes entre juventude e escola. Para o autor, a escola, apesar de representar um espaço importante, ainda não se renovou diante das novas demandas apresentadas por esse público jovem, “ela ainda não se redefiniu internamente, não se reestruturou a ponto de criar pontos de diálogo com os sujeitos e sua realidade” (p. 1.117).
Ao mesmo tempo em que a escola ignora as especificidades e representações juvenis, a sociedade “marginaliza” as ações desses atores. Predomina, nesses espaços, “uma representação negativa e preconceituosa em relação aos jovens. (...) quando se trata de jovens pobres, ainda mais se forem negros, há uma vinculação à ideia do risco e da violência, tornando-os uma ‘classe perigosa’” (DAYRELL, 2007, p. 1.117).
Assim como no Brasil, no México as mobilizações políticas juvenis também resultam em um processo de criminalização, principalmente do jovem pobre e de origem indígena (MAYORGA, 2013).
Esses processos de marginalização/criminalização do jovem podem ser compreendidos a partir dos estudos pós-coloniais, contribuindo para o entendimento da vitimização e subalternização juvenil, que buscam insurgir a partir de suas militâncias e reivindicações. Autores como Cláudia Miranda (2014, 2016), Edward Said (2003) e Homi Bhabha (1989) contribuíram neste processo de reflexão, além de Catherine Walsh (2012), para entendermos a proposta de uma pedagogia decolonial, que, segundo Miranda (2014), “... podem ser oportunidades de estabelecermos diálogos mais inter, menos hierárquicos nos projetos educativos...” (p.1072).
Referências
ABRAMO, H. Condição juvenil no Brasil contemporâneo. In: ABRAMO, H.; BRANCO, P.P.M. Retratos da juventude brasileira: análises de uma pesquisa nacional. São Paulo: Instituto Cidadania; Fundação Perseu Abramo, 2005. p. 37-73.
BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1989.
BRENNER, A.K. Jovens e militância política. In: CARRANO, P.; FÁVERO, O. (orgs). Narrativas Juvenis e Espaços Públicos – Olhares de Pesquisas em educação, mídia e ciências sociais. Niterói: Editora da UFF, 2014.
CARRANO, P. C. R. Juventudes e cidades educadoras. Petrópolis: Editora Vozes, 2003.
DAYRELL, J.T. A escola “faz” as juventudes? Revista Educação e Sociedade. v. 28, n. 100 – Especial, p. 1105-1128, Campinas, out. 2007.
LEÃO, G. Entre sonhos e projetos de jovens, a escola... In: DAYRELL, J; MOREIRA, M. I. C; STENGEL, M. (orgs.). Juventudes Contemporâneas: Um mosaico de possibilidades. Belo Horizonte: Ed. PUC Minas, 2011.
MAYORGA, C.; MARCIAL, R. Jovens nas ruas: as manifestações no Chile, México e Brasil. Desidades. Número 1. Ano 1. Dez 2013.
MARCIAL, R. “Foi o Estado” – O caso dos jovens desaparecidos de Ayotzinapa e a crise política no México. Desidades. Número 6. Ano 3. Mar. 2015.
MIRANDA, C. Afro-colombianidade e outras narrativas – a Educação Própria como agenda emergente. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v.19, n. 59, out./dez. 2014.
______. Pedagogias decoloniais e interculturalidade: desafios para uma agenda educacional antirracista. Educ Foco, Juiz de Fora, v.21, n.3, p. 545-572, set./dez. 2016.
SAID, Eward Waide. Cultura e política. São Paulo: Boitempo, 2003.
WALSH, Catherine. Interculturalidad y (de)colonialidad: perspectivas críticas y políticas. Revista Visão Global. Joaçaba, v. 15. N. 1-2, p. 61-74, jan./dez. 2012.