A presente pesquisa visa promover uma reflexão acerca da relação das mulheres com o futebol. O futebol institucionalizado teve início em meados da década de 80, vinculado, sobretudo aos interesses comerciais de patrocinadores, em particular da mídia promovendo um maior interesse de consumo. Entendido como um fenômeno sociocultural, foi “naturalizado” como um desporto do universo masculino através da construção de valores e normas sociais. Com uma abordagem teórico-metodológica nos estudos de gênero (GOELLNER, 2008; SCOTT, 1980; BUTLER, 2003; BARRETO JANUARIO, 2016), esta pesquisa visa discutir a relação entre a mulher e o futebol em Pernambuco. Mesmo com pouca visibilidade social, na mídia e no cotidiano dos clubes é inegável a crescente participação do público feminino nos estádios. O presente estudo objetiva conhecer a perfil psicográfico e perceber o consumo nas suas mais variadas searas das torcedoras pernambucanas, visando fomentar uma discussão sobre as representações e apropriações das mulheres torcedoras. A nossa metodologia centra-se numa pesquisa exploratória de cunho psicográfico composta por observação participante, uma enquete digital e entrevistas semi-estruturadas junto às três maiores torcidas femininas do estado de Pernambuco: Sport, Santa Cruz e Náutico.O projeto tem como justificativa central promover o diálogo entre as mulheres, os clubes de futebol e a torcida pernambucana.
A crescente presença das mulheres em grupos ou torcidas organizadas caracterizam a presença feminina em ambientes, até pouco tempo, tido como espaço públicos preferencialmente masculinos. Tais características são fundamentada por grupos como: “Loucas por futebol”, “guerrilha rubro-negra”, “Feminino Timbu”, “Comando feminino torcida jovem”, “Torcida feminina Coral”. A existência desses grupos de discussão e de amor pelos clubes aponta para uma crescente incorporação da mulher na esfera do futebol enquanto torcedora. No entanto, alguns obstáculos são claros na incorporação das mulheres ao futebol, e o principal deles refere-se à legitimação da mulher como pessoa que não apenas compreende o esporte, como também, é capaz de nutrir sentimentos de pertencimento a um determinado clube sem a prévia legitimação masculina. Ou seja, para agradar o namorado, marido, pai, etc. A legitimação de seu real interesse pelo jogo de futebol, compreendendo seus aspectos técnicos e táticos e não apenas emocionais. Essa necessidade de legitimação se configura justamente por essa falta de credibilidade da compreensão do esporte. Ou tentativas de associar características que teriam por finalidades piadas jocosas e a intenção de denegrir a imagem feminina como argumentou Goellner (2005): “A masculinização da mulher e naturalização de uma representação de feminilidade que estabelece uma relação linear e imperativa entre mulher, feminilidade e beleza. Por estarem profundamente entrelaçados, esses argumentos acabam por reforçar alguns discursos direcionados para a privação da participação das mulheres em algumas modalidades esportivas tais como o futebol e o as lutas.” (GOELLNER, 2005, p.143)
Outro ponto de discussão seria o “ambiente” no estádio de futebol. Repleto por linguagem , gestos e rituais que, ao longo dos anos, se configuraram como espaço simbólico e concreto de exaltação dos “atributos masculinos de potência, virilidade” (TOLEDO, 1996, p.65). Valores esses atribuídos aos arquétipos de masculinidade. Vale ressaltar que tanto a masculinidade quanto a feminilidade são construídos num contexto social, cultural e político e a sua forma de manifestação, assim como os seus rituais iniciáticos, devem ser compreendidos dentro dos suportes simbólicos, do masculino e do feminino, próprios a cada sociedade.
Delimitar certos ambientes impróprios para as mulheres são claros mecanismos de disciplina, coerção e poder. Tal abordagem encontra-se nas investigações pós-estruturalistas de Foucault (1979) sobre o poder e as relações de poder entre homens e mulheres, que se relaciona com a produção social da verdade, e com as teorias feministas que seguindo a linha de pensamento foucaultiano formularam o conceito de gênero como categoria analítica. Reafirmando a historicidade das relações de gênero, e sua importância enquanto pressuposto estruturante da experiência e das relações sociais. As masculinidades e as feminilidades são construídas simultaneamente em dois campos relativos às relações de poder, nas relações de homem com mulheres, desigualdade de gênero, e também nas relações dos homens com outros homens, isto é, desigualdades baseadas em raça, etnicidade, sexualidade. E por esses fatores, as características impostas ao feminino estiveram tão distantes de arenas esportivas como a do futebol.
Sublinhe-se que o desporto foi socialmente associado a critérios naturalizados nas questões de gênero. E tendo como componente dominante a força, agilidade e rapidez, e como atividades secundárias a graça, leveza e precisão. Desta forma, foram concebidas as atividades ligadas aos desportos masculinos e desportos femininos (GONÇALVES, 1998). No imaginário social coletivo a ideia de conquistas e sucesso estão habitualmente associadas à velocidade, agilidade, força e resistência e, por conseguinte, ao homem. A mulher ficou enquadrada em marcas como a graça, a leveza ou a beleza. Nesta perspectiva, o desporto assim definido veio a favorecer a dominação dos homens e colaborou para a construção social de uma hegemonia masculina. E justamente por isso não raro é encontrar a associação da masculinidade patriarcal a celebridades desportivas ou encenações nesse âmbito da atividade física.
Com efeito, o intuito da pesquisa é dar visibilidade, compreender e refletir acerca da imagem feminina no espaço esportivo, especialmente no futebol em Pernambuco. Conhecer e reconhecer a torcedora, consumidora e partícipe na história do futebol do estado.