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Resumen de ponencia
FUTEBOL COMO FERRAMENTA E ESTRATÉGIA DE(S)COLONIAL: CONTRIBUIÇÕES "OUTRAS"

*Cristiane Feldmann Dutra
*João Alberto Steffen Munsberg
*Otávio Nogueira Balzano



FUTEBOL COMO FERRAMENTA E ESTRATÉGIA DE(S)COLONIAL: CONTRIBUIÇÕES “OUTRAS”
Pré-jogo
Este trabalho tem como objetivo demonstrar que o futebol, o esporte mais praticado no mundo, apesar da ocorrência de atitudes preconceituosas (racismo, xenofobia, homofobia, sexismo) e de seguir a lógica colonial capitalista, é uma ferramenta importante no processo descolonial, exatamente por ajudar a combater essas atitudes preconceituosas. Além disso, quebra a tradicional divisão periferia-centro do sistema-mundo moderno, conceito cunhado por Imannuel Wallerstein (2005).
Em termos metodológicos, trata-se de estudo de cunho bibliográfico exploratório, apresentando a discussão do tema o futebol como ferramenta descolonial, tendo como exemplo processos descoloniais e o empoderamento dos dois principais clubes de futebol da cidade de Porto Alegre.
Como suporte teórico para esta reflexão, utilizam-se pressupostos de pesquisadores que propõem um pensamento outro, um modo outro de pensar. Em um mundo globalizado, raízes do colonialismo ainda permanecem vivas na sociedade. Mesmo após o processo de emancipação política, as marcas da colonização persistem e ainda se reproduzem.
Em 1989 o sociólogo peruano Anibal Quijano lançou o conceito colonialidade do poder para referir-se a essa situação. Segundo ele, essa seria uma estrutura de dominação que submeteu a América Latina, a África e a Ásia, a partir da conquista europeia. O termo faz alusão à invasão do imaginário do outro, ou seja, sua ocidentalização. Dessa forma, segundo o autor, o colonizador destrói o imaginário do outro, invizibilizando-o e subalternizando-o, enquanto reafirma o próprio imaginário. A colonialidade do poder reprime os modos de produção de conhecimento, os saberes, o mundo simbólico, as imagens do colonizado e impõe novos (QUIJANO, 2005).
Buscando criticar essa lógica, surgem os estudos descoloniais. Um conceito se destaca nesse processo: diferença colonial. Segundo Mignolo (2003), diferença colonial é entendida como pensar a partir das ruínas, das experiências e das margens criadas pela colonialidade do poder na estruturação do mundo moderno/colonial, como forma não de restituir conhecimento, mas de reconhecer conhecimentos “outros” em um horizonte epistemológico transmoderno, ou seja, construído a partir de formas de ser, pensar e conhecer diferentes da modernidade europeia, porém em diálogo com esta.
Para Mignolo (2010), o pensamento decolonial consiste numa forma de "desobediência e reconstrução epistêmica", um meio de eliminar a tendência provincial para fingir que os modos de pensar da Europa Ocidental são de fato universais, buscando a libertação social em relação a todas as formas de desigualdade, discriminação, exploração e dominação. Nesse sentido, buscam-se mecanismos, dentro da modernidade, que possuam um potencial de contribuir nesse processo de descolonialidade.
Para Pizarro (2014), o esporte é um desses mecanismos, principalmente o futebol, pois possui esse caráter “democrático”, tendo em vista ser praticado em diversos lugares do mundo e assistido por pessoas de todas as “raças e classes sociais”. Segundo o autor, o futebol, por si só, já possui, para os sul-americanos, um sentimento descolonial, do “sul global” se tornar “norte global” devido à força de suas seleções e de seus clubes em âmbito mundial. Isso pode ser considerado um fato de alta relevância no processo de descolonização e, inclusive, na própria autoestima de povos da América Latina, quebrando paradigmas impostos dentro do sistema-mundo moderno.
Pizarro (2014) destaca outro aspecto relevante: a Europa e a América do Sul constituem-se nos grandes centros futebolísticos, concentrando os grandes clubes e seleções, apesar das diferenças econômicas existentes entre esses continentes, o que implica hegemonia eurocêntrica.

Bola rolando: ações de jogo justo
Abordam-se, aqui, exemplos de ações descolonizadoras ocorridas no campo do futebol no Brasil. Essas ações podem ser entendidas, no mundo futebolístico, como atitudes de jogo limpo, jogo justo, combatendo as discriminações.
O primeiro movimento de combate ao racismo que se tem notícia no futebol brasileiro foi, segundo Jesus (2001), a criação da “Liga das Canelas Pretas”, em 1910 no Rio Grande do Sul. Essa liga foi formada por negros e mulatos, com intenção de combate à discriminação racial orquestrada pela elite branca da época. Nesse sentido, uma ação importante foi tomada pelo Clube de Regatas Vasco da Gama, do Rio de Janeiro (clube de elite) na década de 20 do século passado. O clube colocou em seus quadros jogadores negros e mulatos, dando os primeiros passos para a profissionalização no futebol brasileiro (RODRIGUES FILHO, 2003).
Em termos políticos, a “democracia corintiana”, em plena ditadura militar nos anos 1980, foi um movimento relevante para um pensamento “outro” no futebol, dando voz a todos no clube. O movimento também teve grande influência no processo de retomada da democracia no Brasil, através da campanha das “DIRETAS JÁ!”.
O Grêmio FBPA, criado em 1903, em Porto Alegre, está diretamente associado à poderosa comunidade germânica local, caracterizando-se no meio popular como clube elitista e racista (JESUS, 2005). As primeiras ações contra o suposto racismo começaram em 1952, com a inclusão oficialmente na sua equipe de atletas afro-brasileiros, no caso o jogador “Tesourinha”. Em 1954, o novo hino do clube, de autoria de um negro, Lupicínio Rodrigues, ratifica o projeto de uma nova identidade clubista. Outra ação importante e inédita em relação ao combate à homofobia nos estádios de futebol, foi a criação da torcida Coligay, vinculada ao Grêmio FBPA. Essa torcida desafiou a cultura machista instalada no “mundo do futebol”. Por fim, em 2014, o Grêmio se posicionou fortemente contra o racismo, lançando a websérie “Somos Azuis, Pretos e Brancos” (GERCHMANN, 2014; 2015).
O outro principal clube de futebol da cidade de Porto Alegre é o Sport Club Internacional, fundado em 1909, e que tem como mascote o Saci (personagem mitológico “negro” de uma perna só, da cultura regional gaúcha). Diferentemente do Grêmio FBPA, conforme Anjos (2007), o Internacional teria o primeiro registro de um negro em sua equipe no ano de 1913, o zagueiro Dirceu Alves. Na década de 1940, com o famoso time chamado de “Rolo Compressor”, o Internacional passou a contar com muitos jogadores afro-brasileiros em seu grupo, além de intitular-se “Clube do Povo”.
Mais recentemente, uma nova frente de descolonização no futebol ganha importância. Trata-se do combate ao machismo no futebol brasileiro, destacando-se o Movimento “# Deixa Ela Trabalhar”, criado por jornalistas em 2018, com o intuito de protestar contra o assédio que as profissionais vêm sofrendo nos estádios pelo Brasil.

Fim de jogo
O pensamento colonial ainda se reproduz na sociedade brasileira, com manifestações veladas e declaradas de discriminação. Nesse contexto, entretanto, o futebol se apresenta como ferramenta e estratégia para a descolonização.
Mesmo com a desigualdade econômica entre os continentes, a América do Sul se nivela à Europa como centro do futebol no mundo. Tanto as seleções nacionais como os clubes sul-americanos são campeões do mundo, disputando sempre com europeus a hegemonia do futebol mundial.
Os exemplos apresentados neste trabalho atestam a potencialidade do esporte, mais especificamente o futebol, como ferramenta e estratégia para a descolonização. Entretanto, acontecimentos registrados nos estádios (gestos e palavras) e nas redes sociais alertam para a necessidade de se aprofundar as reflexões e as pesquisas sobre a temática, perseguindo a perspectiva descolonizadora.

Referências
ANJOS, J. L. dos. Futebol no Sul: história da organização e resistência étnica. Revista Pensar a Prática, v. 10, n. 1, 2007. Disponível em: . Acesso em: 20 fev. 2018.
GERCHMANN, L. Somos azuis, pretos e brancos. Porto Alegre: Editora LPM, 2015.
__________ . Coligay, Tricolor e de Todas As Cores. Porto Alegre: Editora Libretos, 2014.
JESUS, G. M. de. Esporte e mito da democracia racial no Brasil: Memórias de um apartheid no futebol. 2001. Lecturas: Educación Física y Deportes Revista Digital. Disponível em: . Acesso em: 25 mar. 2018.
__________ . A mutante dimensão espacial do futebol: forma simbólica e identidade. Revista Espaço e Cultura, UERJ, Rio de Janeiro, n. 19-20, p. 61-70, jan./dez. 2005.
MIGNOLO, W. Histórias Globais/projetos Locais. Colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
__________ . Desobediencia epistémica: retórica de la modernidad, lógica de la colonialidad y gramática de la descolonialidad. Buenos Aires: Ediciones del Signo, 2010.
PIZARRO, J. O. DECOLONIALIDADE E FUTEBOL: a quebra da lógica periferia-centro. Trabajo presentado en el Quinto Congreso Uruguayo de Ciencia Política, “¿Qué ciencia política para qué democracia?”, Asociación Uruguaya de Ciencia Política, 7-10 de octubre de 2014.
QUIJANO, A. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais, perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: Clacso, 2005.
RODRIGUES FILHO, M. O negro no futebol brasileiro. 4. ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2003.
WALLERSTEIN, I. Análisis de sistemas-mundo: una introducción. México: Siglo XXI Editores, 2005.








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* Feldmann Dutra
Universidade La Salle - UNILASALLE. Porto Alegre - RS, Brasil

* Steffen Munsberg
Universidade La Salle - UNILASALLE. Porto Alegre - RS, Brasil

* Nogueira Balzano
Universidade La Salle - UNILASALLE. Porto Alegre - RS, Brasil