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Resumen de ponencia
VIOLÊNCIA SIMBÓLICA E DESIGUALDADE DE GÊNERO NO PÚBLICO E PRIVADO EM BRASIL

*Letícia Maria Schabbach



A violência simbólica é um fenômeno difícil de ser apreendido nas relações sociais, uma vez que, além de ser ocultado por manifestações violentas mais visíveis, ele não é produto de um ato individual deliberado e consciente, assim como não é, em geral, percebido como violência. Violência simbólica está relacionada com a imposição de categorias, signos e símbolos culturais dominantes, muitas vezes depreciativos de outros grupos sociais, elementos que são incorporados pelos dominados como se fossem naturais, ao invés de produzidos histórica e socialmente. Este é o caso, por exemplo, de discursos que reforçam as desigualdades entre mulheres e homens, que é o tema do presente trabalho.
As representações sociais - em sua forma falada, escrita, desenhada ou simbolizada visualmente -, referem-se à concepção de um indivíduo ou grupo sobre algum assunto, sendo ao mesmo tempo individual e coletiva e se refletindo sobre as condutas cotidianas e os valores sociais.
Para dar conta das representações de mulheres e homens sobre questões atinentes às relações de gênero nas esferas privada e pública, lançamos mão neste trabalho de informações desagregadas provenientes da pesquisa “Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado” (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO; SESC, 2010), realizada em agosto de 2010 pela Fundação Perseu Abramo e pelo Serviço Social do Comércio (SESC). Esta edição atualizou o levantamento de 2001, além de ter incorporado a percepção masculina acerca dos temas investigados e foi desenvolvida por meio da aplicação de questionários a 2.365 mulheres e 1.188 homens com mais de 15 anos de idade, residentes em 25 estados brasileiros.
O nosso objetivo foi perceber a difusão geral de percepções relacionadas com este tipo de violência, bem como comparar as respostas de mulheres e de homens que apresentaram diferenças estatisticamente significativas quanto aos quesitos selecionados, dentro de uma perspectiva relacional. Para tanto, acessamos os microdados da referida pesquisa (em:), organizando-os e os processando em base de dados no software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS®). A análise dos dados envolveu distribuição de frequência, cruzamento das variáveis com o sexo dos respondentes, e teste do qui quadrado para verificar a associação ou independência entre as mesmas.
A amostra de respondentes possuía as seguintes características: 69% mulheres e 31% homens; 79% tinham entre 18 e 59 anos; 81% tinham filhos; 64% passaram a maior parte de sua vida na cidade e 33% no campo; 47% detinham renda familiar até dois salários mínimos e 35% mais de dois até cinco salários mínimos; 53% exerciam atividade remunerada, 18% eram donas de casa e 12% aposentados; dos trabalhadores, 40% possuíam carteira assinada, 21% trabalhavam por própria temporário, 14% eram funcionários públicos e 13% assalariados sem carteira assinada.
5.1 Âmbito privado
No tocante ao espaço privado, as categorias mais frequentes (até 22% de respondentes) diziam respeito à concordância total em termos das seguintes assertivas: a) com filhos pequenos, é melhor que o homem trabalhe fora e a mulher fique em casa (51%, sem diferença entre os sexos); b) a mulher é quem deve decidir como será o trabalho doméstico, não importa quem faça (42%, predomínio das mulheres em 45%); c) É principalmente o homem que deve sustentar a família (33%, predomínio dos homens em 37%); d) os homens, mesmo que queiram, não sabem fazer o trabalho de casa (22%, predomínio das mulheres em 24%). E, ainda, a discordância total em relação à assertiva de que a mulher deveria ter o direito de decidir por interromper a gravidez (45%, predomínio dos homens, em 49%).
Quanto às categorias menos frequentes referiram-se aos seguintes quesitos em que houve concordância total: a) Nas decisões importantes é justo que o homem tenha a última palavra (15%, predomínio dos homens em 20,6%); b) Em um casal, é importante que o homem tenha mais experiência sexual (14%); c) A mulher casada deve satisfazer o marido sexualmente mesmo quando não tem vontade (8%); d) Se a mulher trair o homem é justo que ele bata nela (2%). Outra categoria a destacar é quanto à discordância total em relação à divisão igualitária do trabalho doméstico entre homens e mulheres (5%, mais homens discordaram, em 7,5%).
Ainda com relação ao espaço privado, embora as categorias de resposta não estejam dispostas em tabela específica, percebeu-se que, com maior frequência relativamente às mulheres, os homens tenderam a não se posicionar (nem concordaram e nem discordaram) quanto às seguintes questões: a) em um casal é importante que o homem tenha mais experiência sexual que a mulher; b) a mulher casada deve satisfazer o marido sexualmente mesmo quando não tem vontade; c) nas decisões importantes é justo que na casa o homem tenha a última palavra; d) homens e mulheres devem dividir por igual o trabalho doméstico; e) a mulher deveria ter o direito de decidir se continua uma gravidez ou se faz um aborto, em todas as situações; f) a mulher é quem deve decidir como será o trabalho doméstico, não importa quem faça; g) os homens, mesmo que eles queiram, não sabem fazer o trabalho de casa.
5.1 Âmbito público
Com relação às questões relacionadas com o espaço público, percebeu-se uma maior homogeneidade das percepções entre homens e mulheres, com exceção de duas categorias em que houve, comparativamente às das mulheres, maior concentração de respostas masculinas: a) discordância total em que a política seria melhor se houvesse mais mulheres em postos importantes (12% no geral e 14% entre os homens); b) As mulheres não estão preparadas para governar estados (11% no geral e 15% entre os homens).
Por outro lado, as maiores frequências das categorias, sem diferença significativa entre sexos, referiram-se às percepções de que dificilmente ou nunca votariam em candidatos que são: a) a favor da legalização do aborto (74%); b) a favor da união homoafetiva (46%); c) homossexual (34%). Esta última, assim como o item “b”, denota um preconceito altamente expressivo e difuso com relação a grupos LGBT e à conquista de direitos civis por seus protagonistas.
Outras questões, assim como as duas primeiras apontadas nesta seção, alcançaram menores frequências, elas se referem às representações sobre: a) a política não é importante (17%), b) as mulheres não estão preparadas para governarem país e cidades (respectivamente 11% e 10%) e, c) dificilmente votaria em mulher (6%). Embora sejam categorias com menor concentração de respostas, elas demonstram, assim como a percepção de que as mulheres não estão preparadas para governar estados (acima referida, em que há predominância das respostas masculinas), uma desconfiança expressiva sobre a capacidade político-administrativa daquelas.
De acordo com Bourdieu (1999), a feminilidade é construída social e relacionalmente como antípoda da virilidade. Neste processo, as mulheres são sistematicamente excluídas de todos os lugares públicos onde acontecem os jogos mais valorizados da existência humana. Em contrapartida, embora tenham conquistado direitos e liberdades formais, e tenham sido abolidas as proibições à sua participação política, as mulheres continuam a rejeitar e a se auto-excluir dos lugares públicos.
Atualmente, constata-se que esta situação permanece mesmo com o estabelecimento de incentivos à maior participação feminina na esfera pública, a exemplo das cotas partidárias estabelecidas em lei (BRASIL, 1997), que no artigo 10, parágrafo 3º, prevê que, no mínimo, 30% das vagas de cada partido ou coligação devam ser preenchidas por candidaturas de cada sexo. Todavia, o percentual mínimo (30%) de candidatas mulheres é raramente alcançado, por exemplo, quanto às candidaturas de mulheres a cargos do Poder executivo nas três esferas governamentais, nas duas eleições próximas à data de realização da pesquisa em análise (2010). Percebe-se que há maior representatividade feminina nas candidaturas para presidente da república, já para governador e prefeito o percentual de candidatas mulheres em relação ao total aproximou-se de 10%, embora se perceba um aumento da representação feminina nas eleições para prefeito em 2008 relativamente a 2004(de 7% para 11%), enquanto decresceu em 2010 o número de candidatas para governos estaduais, comparativamente à 2006 (de 13% para 10%).
Por último, apresentamos outras percepções e práticas que dividem homens e mulheres. A primeira questão, com maior frequência de respostas, diz respeito à aceitação da utilização de agressões físicas (tapas ou surras) como necessárias à educação dos filhos, cuja concordância atingiu 74% enquanto percepção e 77% enquanto práticas deste tipo, mesmo entre os entrevistados com filhos. Além do elevado percentual de concordâncias, verifica-se uma diferença a mais para mulheres (79% na primeira resposta e 84% na segunda).
Estas representações remetem as seguintes situações vivenciadas por mulheres: a) elas passam mais tempo com os filhos, como já vimos, sendo as principais responsáveis pela educação cotidiana das crianças; b) elas são autoras frequentes de maus-tratos contra crianças. Neste sentido, não apenas o homem, mas também a mulher está sujeita à “síndrome do pequeno poder”, sendo as crianças os sujeitos mais dominados e explorados dentro da hierarquia familiar. (SAFFIOTI, 1989).
Por fim, um pequeno percentual de respostas, 3%, refere-se a não existência de machismo no Brasil, mais admitida pelos homens, em 5%.
Finalizando-se este trabalho, concluiu-se a partir dos dados empíricos que, apesar dos avanços sociais e econômicos das mulheres, muitas representações e percepções defendidas tanto por elas quanto pelos homens, continuam a reproduzir a desigualdade de gênero e a dominação masculina. Tratam-se, em suma, de manifestações de violência simbólica não percebidas enquanto tal.




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* Schabbach
Programa de Pos-Graduaçao em Sociologia. Instituto de Filosofia e Ciencias Humanas. Universidade Federal de Rio Grande do Sul - PPS/UFRGS. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil