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Resumen de ponencia
Viajar, pensar, escrever: As experiências de Nísia Floresta e Mary Wollstonecraft

*Flora Schroeder Garcia



O ideal que pretendeu restringir a ação das mulheres no mundo à procriação e à manutenção da harmonia familiar, negando-lhes a liberdade espacial, intelectual e artística, alcançou a sua forma mais acabada no século XIX, cristalizando-se na figura do Anjo do Lar, elaborada e exaltada pelo poeta inglês Coventry Patmore em seu poema homônimo “The Angel in The House”, cuja publicação original data de 1862. Posteriormente, o assassinato metafórico dessa figura, entendido como necessário à plena liberdade intelectual e artística, seria proposto por Virginia Woolf, em seu ensaio “Profissões para mulheres” (“Professions for Women”), publicado originalmente em 1942. Todavia, a gênese desse ideal deu-se ainda no século XVIII, a partir de discursos como o presente no tratado pedagógico Emílio ou Da educação (Émile ou De l’éducation), de Jean-Jacques Rousseau, que teve sua primeira publicação em 1762. Após ter explorado longamente a educação do pupilo Emílio, no capítulo final dessa obra o autor introduz a figura de Sofia, que seria a companheira ideal para o jovem, e aborda a educação da moça, que se configura de modo diverso, oposto e complementar à de Emílio - se a educação de Sofia deveria servir de modelo à educação das mulheres, a de seu futuro esposo serviria de modelo à educação dos homens. Integra o plano pedagógico proposto por Rousseau a prática da viagem, pensada enquanto atividade formativa que deveria ser reservada exclusivamente aos homens. De fato, no século XVIII, essa prática era entendida como parte importante da educação do sujeito cosmopolita e da formação do cidadão, devido ao conhecimento de mundo que possibilitaria alcançar e à época buscou-se limitar a participação das mulheres também nessa prática, com base em argumentos de ordem filosófica e biológica. Além disso, buscou-se combater, dado o crescimento acelerado do turismo, a ameaça do rompimento do elo entre a viagem e o conhecimento em inúmeros tratados que, voltados aos viajantes, estabeleciam os modos adequados de viajar. Manuais desse tipo foram escritos por autores como Bacon e o próprio Rousseau (SCHLICK, 2014, p. 12). É significativa, além disso, a associação entre o modo de viajar das mulheres e essa ameaça. Não obstante, sempre houve mulheres que pensaram, que viajaram, e que criaram obras de arte. Com efeito, a viagem, que desempenha importante papel na literatura ocidental - seja como metáfora, seja como eixo narrativo -, está presente em inúmeras obras literárias escritas por mulheres ocidentais. Com o objetivo de contribuir para a árdua e vasta tarefa de retirar da invisibilidade as experiências e a produção de mulheres, abordaremos relatos de viagem escritos, no século XVIII, pela inglesa Mary Wollstonecraft (1759-1797) e, no século XIX, pela brasileira Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), buscando considerar em que medida, ao ser elaborada por elas, a viagem é imbuída de sentidos específicos, configurados a partir de suas respectivas condições sociais enquanto mulheres no seio da sociedade ocidental. A primeira autora citada, muito conhecida atualmente por sua obra Uma Reivindicação dos Direitos da Mulher (A Vindication of the Rights of Women), foi uma importante filósofa, escritora e feminista, que publicou diversas outras obras. É de sua autoria Cartas Escritas na Suécia, Noruega e Dinamarca (Letters Written in Sweden, Norway, and Denmark), obra datada de 1796 e composta por vinte e cinco cartas escritas durante sua estadia de três meses na Escandinávia. Já a segunda, foi uma proeminente educadora, escritora, poetisa brasileira e defensora dos direitos das mulheres, dos escravizados e dos indígenas. Se Wollstonecraft foi, paradoxalmente, uma admiradora da pedagogia rousseauniana, Floresta foi uma grande admiradora de Wollstonecraft e traduziu sua obra mais famosa para o Português Brasileiro. São de sua autoria as obras Itinerário de uma viagem à Alemanha (Itinéraire d’um Voyage em Allemagne) e Três anos na Itália seguidos de uma viagem à Grécia (Trois ans en Italie suivis d’um voyage en Grèce), publicadas originalmente em francês, em 1857 e em 1864, respectivamente.




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* Schroeder Garcia
Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia: Psicologia Social PEPG-PUC/SP. São Paulo, Brasil