O Grupo de Pesquisa em Educação e Diferenças Sócio-Culturais – Linha Culturas Infantis (GEPEDISC – Linha Culturas Infantis), do Departamento de Ciências Sociais e Educação, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), reúne pesquisas em âmbito de graduação e pós-graduação voltadas para a infância em suas múltiplas facetas: a educação infantil, a infância vivida em comunidades tradicionais, à docência na infância, infância, raça e gênero, as culturas infantis, a luta por creches. As análises do grupo destacam que, após o golpe de Estado em 2016, diante da admissibilidade do impeachment da presidenta democraticamente eleita em 2014, e a recentemente prisão do ex-presidente da república Luíz Inácio Lula da Silva, temos vivido no Brasil um momento de retrocessos políticos e sociais que aumentam as desigualdades sociais, afetando diretamente as crianças das camadas populares, cujo maior percentual, são negras. Diante dessa realidade, evidencia-se que a cor da pele no Brasil se mante como um critério objeto de estratificação, que a sociedade de classe herdou dos padrões de relações raciais elaborados sob a escravidão, e manteve as principais iniquidades que pesavam sobre os “libertos” na ordem social escravocrata e senhorial (FERNANDES, 2007). Neste sentido, o presente estudo apresenta o debate produzido pelas pesquisas do GEPEDISC culturas infantis a respeito das relações étnico-raciais que perpassam as infâncias vividas em creches e pré-escolas, comunidades quilombolas e indígenas brasileiras. Trata-se de pesquisas que realizam a interlocução teórico-metodológica com os estudos acerca das culturas infantis existentes em territórios urbanos e rurais, articuladas às questões de classe, raça, gênero e idade, de modo interseccionado, procurando compreender a gênese da transformação de diferenças em elementos para justificar as desigualdades criadas pelo sistema capitalista, que privilegia um padrão de homem, de mulher, de sociedade e de sujeito social, dentro desse quando é importante ressaltar que o processo de diferenciação de grupos humanos com base em atributos classificatórios é a marca da narrativa da história ocidental. A escolha por esse modelo teórico-metodológico não representa um tema novo, mas um desafio político em interpretar como são estabelecidas as diferenciações entre os sujeitos, por meio de contexto cultural e social. Dentre as pesquisas do GEPEDISC culturas infantis, destacamos as que revelam a realidade sociocultural de meninas negras e meninos negros oriundos/as de um quilombo paulista (SOUZA, 2015) e de creches urbanas do interior paulista (ROSA, 2009; MORETTI, 2009; SANTIAGO, 2014), e também a infância vivida por crianças Guarani/Kaiowá do Mato Grosso do Sul (NOAL, 2009) e as crianças pomeranos do Espirito Santo (RAUTA, 2011). Estas crianças de origens socioculturais e étnico-raciais distintas evidenciaram como ressignificam, cotidianamente, suas realidades em termos materiais e simbólicos, e como se identificam e são representadas pelo olhar do outro: adulto, branco, representante do Estado e de interesses latifundiários. A partir da etnografia dos cotidianos infantis, caracterizados pela interação entre pares e crianças não pares, de idades diferentes e entre crianças e adultos, analisamos o modo como as crianças transgridem as imposições colonizadoras da sociedade capitalista, desigual, heteronormativa, adultocêntrica e racista. A abordagem do protagonismo infantil aqui explicitada resulta também da interlocução do GEPEDISC culturas infantias com os Estudos da Infância das últimas três décadas nas distintas abordagens, através dos campos teóricos da Pedagogia da Infância, Sociologia da Infância e Antropologia da Criança, os quais consideram “o meio infantil”, lembrando Marcel Mauss (2010) como território a partir do qual as crianças educam-se entre si, e nos dão a possibilidade de analisar as relações sociais mais amplas a partir de outra perspectiva. As pesquisas de Moretti (2009), Rosa (2009), Santiago (2014) e Souza (2015) apontam como as crianças, em meio às culturas infantis, revelam aspectos da realidade social em consonância com a sociedade mais ampla, e neste sentido, apontam o quanto a sociedade brasileira (re)produz diferentes formas de exclusão e desigualdade social, racial, etária, de classe e de gênero. Os movimentos, relatos, silêncios, choros, gargalhadas e outras linguagens infantis pesquisadas revelam uma sociedade do direito, da cidadania e da ânsia pela democracia e, ao mesmo tempo, o longo caminho a ser seguido para que as políticas públicas voltadas para a garantia de direitos de crianças, homens e mulheres negros e indígenas no Brasil sejam de fato uma realidade concreta.