Este trabalho integra uma pesquisa de doutorado sob a linha Identidade, Sociabilidades e Práticas de lazer, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar de Estudos do Lazer (Escola de Educação Física e Fisioterapia Ocupacional/Universidade Federal de Minas Gerais), dedicada ao estudo de uma articulação entre cultura, território e lazer a partir de uma abordagem afetiva do espaço urbano. O objetivo é compreender como se articulam os conceitos de Cultura, Território e Lazer no espaço geográfico da cidade de Belo Horizonte (Minas Gerais-Brasil), a partir de dois pontos de cultura, e, por sua vez, como se manifestam os vínculos simbólico-afetivos através das apropriações de lazer por parte das pessoas que atuam nessas associações. Através desse objetivo, buscamos entender a relação entre individuo e território, e o papel que desempenha a cultura e o lazer nesse vínculo. Nesse sentido, o marco teórico buscou integrar a geografia humana, entendida como o estudo da interação entre a sociedade e o espaço, e a geografia do lazer, sendo este abordado como uma manifestação cultural humana que se concretiza num determinado território. Nessa direção, o referencial teórico articula fundamentos sistematizados pela Geografia Humana (Milton Santos, 1980, 2017; Yi-Fu Tuan, 1983, 2012; e Rogério Haesbaert, 1997, 1999, 2007) e pela Teoria do Lazer (Christianne Gomes, 2004, 2011, 2014; e Manuel Cuenca, 2009, 2014), com a contribuição da geografia para o estudo de lazer (Gilmar Mascarenhas, 2010). Esta pesquisa, de abordagem qualitativa, envolveu análise documental, observação e entrevistas, e contemplou alguns elementos da metodologia desenvolvida por Marcelo Matos (2010), sobretudo no que diz respeito aos aportes que fundamentam a dimensão simbólica, traduzida na afetividade dos habitantes pelo território em que habitam a partir de três indicadores: atividades de lazer, memória coletiva e sentido de lugar. Com o intuito de aprofundar no entendimento do objeto de estudo apresentado, procurou-se como complemento empírico duas associações integrantes da política Pontos de Cultura do programa Cultura Viva. Assim, se pretendeu observar como através dos indicadores propostos por Matos se articulavam os três conceitos-chave (cultura, território e lazer) nos bairros onde os dois pontos de cultura estavam inseridos. Dessa maneira, a análise empírica se debruçou sobre a política cultural pública Pontos de Cultura/Cultura Viva, política essa que começou em 2004 e embora tenha atravessado mudanças e vicissitudes políticas, continua vigente. Essa análise teve como propósito o de exemplificar e aprofundar a interface teórica com um caso prático de significativa trajetória e importância atual. Assim, as análises empreendidas a partir das entrevistas e as anotações de campo evidenciaram que as experiências de lazer desenvolvidas pelos Pontos de Cultura pesquisados optam por atender demandas da comunidade relacionadas com a história e a memória coletiva de cada bairro. Tais experiências incitam a configuração de vínculos afetivos com o território em termos de identificação, representatividade e pertencimento a partir da construção do sentido de lugar. Lugar esse que comporta muito mais que o mero sentido geográfico de localização, pois se refere, em palavras de Marcelo Matos (2010, p. 90): “às noções de seus significados; intimidade; familiaridade; identidade e singularidade”. Dessa forma, compreende que o espaço vivido é o emaranhado de paisagens composto por inúmeros lugares que permeiam e atravessam o cotidiano dos indivíduos. Entretanto, cada pessoa se identifica mais com uns lugares que com outros, e a partir daí estabelece uma relação de reconhecimento que faz com que assimile e incorpore seu conteúdo simbólico. Foi constatado, ainda, que a escolha do território representa uma decisão afetiva e simbólica que vai além do trabalho e do aspecto meramente econômico, priorizando questões como a transformação social através da cultura, o contato humano, e a proteção e cuidado inter-humano.