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Resumen de ponencia
DIZER A SUA PALAVRA: REFLEXÕES POR UMA PRÁXIS DECOLONIAL

*Camila Loureiro
*Thiago Pereira



Nas últimas décadas, vimos uma série de esforços que buscam as origens de uma teoria crítica latinoamericana, que não negue o conhecimento produzido no norte global, mas parte de parâmetros e epistemologias próprias para pensar os sujeitos no e com o mundo. Destes estudos, compreendemos que a “colonialidade”, enquanto categoria política, social e epistêmica, está presente na construção da mente e do imaginário latino-americano.
O presente trabalho - que compõe parte de pesquisa de mestrado, ainda em andamento - se propõe a pensar o desenvolvimento de uma práxis decolonial, utilizando como objeto de análise o pensador Paulo Freire. Para tanto, nos valeremos de análise bibliográfica dos estudos decoloniais do Grupo Modernidade/ Colonialidade (M/ C), que busca pensar uma ruptura com paradigmas coloniais, além de pensar a epistemologia construída na obra do filósofo brasileiro Paulo Freire como uma aposta de desobediência contra-hegemônica. Para tanto, iremos investigar brevemente as diferentes dimensões de introjeção da colonialidade na sociedade latino- americana, bem como observar o conceito freiriano de “Dizer a Sua palavra” como proposta de insurgência política e epistêmica.
Ao problematizar as formas de dominação colonial e a construção da colonialidade, Mignolo (2003) aponta três dimensões principais de reprodução da colonialidade, são elas: (a) colonialidade do poder; (b) colonialidade do ser; (c) colonialidade do saber. Ainda que brevemente, investigaremos cada uma das categorias trazidas pelo Grupo Modernidade/ Colonialidade. A colonialidade do poder, segundo Aníbal Quijano (2000), carrega consigo uma rede complexa e entrelaçada, de continuidade de formas diversas de dominação colonial, mesmo após o fim das administrações coloniais. Essa categoria prevê algumas estruturas de controle, seja na economia, na autoridade, na natureza e nos recursos naturais, no gênero e na sexualidade, na subjetividade e no conhecimento. Já a colonialidade do ser, conceito apresentado por Maldonado-Torres (2008) , aponta as diversas interfaces de construção político-social carregadas de parâmetros eurocentrado ou. Na perspectiva decolonial, não se trata da substituição de tais perspectivas para paradigmas latino-americanocentrado, mas sim a construção de “paradigmas outros”, de novas formas de o indivíduo se perceber no e com o mundo, que respeite as experiências de agentes locais.
A terceira categoria, a colonialidade do saber se dá na própria concepção da compreensão de saber, a partir de categorias científicas eurocêntricas. A autora indiana Shiva (2003) problematiza que a construção do saber dominante é, essencialmente, ocidental e ocidentalizante, quando afirma que “[...] os sistemas modernos de saber são, eles próprios, colonizadores” (SHIVA, 2003, p. 21). A autora constrói a analogia entre as monoculturas do agronegócio, e a falta de aceitação da diversidade de formas de construção do conhecimento em diferentes locais do mundo, desenvolvendo o conceito de monoculturas da mente. Diferentemente da modernidade, a colonialidade não é um ponto de chegada, mas sim o ponto de partida da análise decolonial (MIGNOLO, 2003, p.17).
Sendo assim, para realizar uma aproximação entre a base conceitual do Grupo M/ C e a epistemologia do educador brasileiro Paulo Freire, a partir do conceito de “Dizer a Sua Palavra” evidenciando a emergência da construção de uma práxis decolonial. Em “Pedagogia do oprimido” (1970) Freire situa sua obra em perspectiva marxista, buscando a denúncia da opressão e a busca de possíveis enfrentamentos a este quadro. Ainda que não fale no conceito de colonialidade, o autor reconhece que a dominação tem raízes que são produzidas pela dimensão infraestrutural, mas vão além, em direção à esfera superestrutural. Nesta mesma obra o autor propõe o conceito de “Dizer a Sua Palavra”, como anúncio das possibilidades de ação frente ao cenário posto. Freire, ao posicionar-se politicamente, assume pressupostos epistemológicos e metodológicos que valorizam a palavra, entendida como parte essencial do processo de humanização. Sua aposta no diálogo marca a coerência de seus pressupostos antropológicos, pois é através da palavra que nos reconhecemos como seres políticos.
Segundo Freire, “Dizer a Sua palavra” não é apenas o ato da fala, mas de ser agente do processo histórico e por ele ser feito e refeito constantemente. Nessa perspectiva, “Dizer a Sua palavra” não é repetir palavra qualquer, principalmente, não é dizer a palavra hegemônica, mas um ato consciente e político de desobediência e objeção ao silenciamento provocado pela colonialidade. Em “Educação como prática da liberdade” (1976) o autor problematiza o pronunciamento do que entende por palavra “verdadeira”, que é constituída das dimensões da ação e a reflexão (práxis), assim, a própria palavra “verdadeira” implica na transformação do mundo. Entendemos que aos grupos subalternizados (as)/ colonizados (as)/ oprimidos (as) são negados do direito de “Dizer a Sua palavra”, nesse sentido a crítica decolonial é relevante, quando questiona a invisibilização das produções e formas de conhecimento produzidos em espaços coloniais.
Perceber Freire como um autor decolonial é relevante ao buscarmos as origens da própria teoria crítica latino-americana. Uma vez que “Dizer a Sua palavra”, significa pensar epistemologias divergentes do pensamento hegemônico, uma práxis que demarca resistência e transgressão, onde expressar-se, “Dizer a Sua palavra” (e não a palavra dos outros), é uma ação de autoafirmação e ruptura intelectual. Assim, consideramos que a intervenção deste conceito passa a ser um ato de desobediência epistêmica e de humanização dos corpos e mentes dos (das) subalternizados (as)/ colonizados (as)/ oprimidos (as).

Referências
ANDREOLA, Balduíno Antonio. A universidade e o colonialismo denunciado por Fanon, Freire e Sartre. Cadernos de Educação, FaE/PPGE/UFPel, Pelotas [29], p. 45 - 72, julho/dezembro 2007.
BALLESTRIM, Luciana. América Latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciências Política, n. 11. vol. 1, p. 89-117, 2013.
CASTRO-GÓMEZ, Santiago. Ciências sociais, violência epistêmica e o problema da ‘invenção do outro’. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais, perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: Clacso, p. 85-95, 2005.
FIORI, Ernani Maria. Aprender a dizer sua palavra (prefácio). In: FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 05-11, 1970.
FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade: e outros escritos. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1976.
______. Educação como prática para a liberdade: e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
______. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.
MIGNOLO, Walter. Historias locales/ disenos globales: colonialidad, conocimientos subalternos y pensamiento fronterizo. Madrid: Akal, 2003.
______. El pensamiento decolonial: desprendimiento e apertura. In. El giro decolonial: reflexiones para una diversidad epistémica más allá del capitalismo global. Santiago Castro-Gómez; Ramón Grosfoguel (Org.). Bogotá: Siglo del Hombre Editores, p. 25- 46, 2007.
NETO, João Colares de Mota. Paulo Freire e Orlando Fals Borda na genealogia da pedagogia decolonial na América Latina. Anais da 38ª Reunião Nacional da ANPED, GT 06 Educação Popular, São Luís, MA, 2017. Disponível em: . Acesso em 30 novembro de 2017.
SHIVA, Vandana. Monoculturas da Mente: perspectiva da biodiversidade e da biotecnologia. São Paulo: Gaia, 2003.




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* Loureiro
Universidade Federal da Fronteira Sul - UFFS. Erechim, Brasil

* Pereira
Universidade Federal da Fronteira Sul - UFFS. Erechim, Brasil