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Resumen de ponencia
Literatura e Resistência: a força de jovens narradores em contextos de repressão

*Flávio Borges Faria Flávio



A história da literatura brasileira, bem como a história de todas as literaturas, compreende movimentos cuja particularidade, nunca completamente livre de vícios estéticos passados, é inerente a cada um de seus estágios. A figuração específica das fases literárias constitui, ademais, modos diferentes de representar o mundo sensível.
E se essa proposição é consistente o bastante, a literatura estará, não raro, em interação com o seu respectivo contexto histórico. A obra Lavoura Arcaica (1975), de Raduan Nassar, certamente se relaciona com o período da ditadura militar. E isto não somente porque o romance foi escrito durante o lapso temporal em que se instalou o regime repressivo, mas devido ao fato de o enredo expor processos de resistência à ordem conservadora. Ademais, o conservadorismo, durante a narrativa, assume formas específicas, cujos detalhes merecem especial atenção.
A ordem conservadora é representada, no romance, pela figura paterna. Ela garante a estabilidade organizacional da família e da lavoura de subsistência. O discurso utilizado para tanto é, em grande medida, religioso. Desse modo, as associações apresentadas no texto delineiam o culto doméstico às entidades sagradas, cujo administrador máximo reside na presença do chefe de família (WEBER, S/D).
Por outro lado, André, o narrador personagem do romance analisado, assume o desafio de contestar sistematicamente o próprio pai. E ele o faz na medida em que mobiliza suas vigorosas forças, advindas de sua juventude em plena ebulição – inclusive, as propriedades disruptivas desse personagem são muito relevantes para sua compreensão (GUINZBURG, 2011). A maneira como o jovem André estabelece contato com as doutrinações paternas constitui, em grande medida, um atributo específico do que a obra de Raduan Nassar pode representar. A resistência apresentada pelo personagem principal incita releituras das construções do pensamento social acerca do Brasil moderno (SCHWARCZ, 2011)
Intérpretes do Brasil final do século XIX e início do século XX, como Von Martius e Sílvio Romero, ambos pertencentes ao Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB), esforçaram-se no sentido de inventar uma identidade para o Brasil em formação. Desse modo, esses autores manipularam traços da sociedade brasileira no sentido de construir a história do novo país. Como afirma Schwarcz, tudo isso foi feito por membros das elites intelectuais e financeiras locais, baseadas em noções tomadas de empréstimo das teorias geográficas e racialistas advindas da Europa (SCHWARCZ, 2011).
Por outro lado, dois teóricos brasileiros mais contemporâneos, cujos escritos atravessaram principalmente os anos 1930, a saber, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, afirmaram a presença da unidade patriarcal na organização familiar tradicional brasileira. De modo geral, a força dos grandes proprietários de terra, historicamente construídos, deixaram marcas profundas na formação do Brasil – são eles os patriarcas autoritários, os principais dirigentes da economia brasileira antes e depois da independência. Portanto, contrariamente ao momento teórico do final do século XIX, o foco desses autores são as formações históricas e culturais do Brasil. Como consequência, a identidade nacional ganha outros aspectos
Apesar das visíveis diferenças entre ambas as correntes interpretativas, existem um ponto comum entre elas. As chaves teóricas propostas procuram abarcar os movimentos gerais de uma nação, no sentido de construir algo que seja uníssono. Portanto, a estruturação da identidade nacional é uma preocupação presente nesses dois momentos de interpretações acerca do Brasil. A obra de Raduan Nassar entrará em desacordo com tudo isso.
A literatura desenvolvida dos anos 60 até os dias atuais é, ao menos de maneira relativamente sistemática, fragmentária. Os narradores que a compõem não permitem traços estilísticos repetitivos, pelos quais se poderia caracterizar todos eles a um só tempo (GINZBURG, 2012). Os movimentos gerais vistos antes no pensamento social desaparecem em meio a narrativa de Nassar.
Em síntese, os novos narradores são lacunares, disjuntivos, perturbadores e descontínuos – eis a maior marca da literatura brasileira contemporânea. Ademais, os temas trabalhados por ela, tão diversos e ricos em seus contextos, são igualmente condicionados aos processos disjuntivos. Os principais deles, inclusive muito presentes na obra Lavoura Arcaica, são: política conservadora; cultura patriarcal; autoritarismo no Brasil; além de questionamentos às ideologias voltadas para o machismo heteronormatividade e desigualdade socioeconômica.
Assim, as raízes patriarcais brasileiras aparecem nesta obra. Entretanto, não mais em termos gerais e pouco específicos. A nova literatura aborda-as mais profundamente e a partir de preceitos inéditos. Com efeito, tal profundidade e originalidade subsiste na medida em que a literatura contemporânea é empática às minorias. Ora, a representação desses grupos não-hegemônicos é inovadora pois busca integrá-los socialmente e, analogamente, isto só é possível, pois, os novos autores constroem afinidades reais com estes grupos (GINZBURG, 2012). Com efeito, os impulsos patriarcais aparecem num contexto de resistência mais apurado.
Raduan Nassar foi capaz de absorver os espectros de sua época e, a um só tempo, decantar a experiência antes produzida pelo pensamento social brasileiro. Resta compreender como a estrutura de Lavoura Arcaica consegue responder ao pensamento social da virada do século, de modo a inaugurar novas maneiras de interpretar o Brasil. Ademais, será interessante observar o contexto em que foi feita essa transição.

Referências Bibliográficas

Weber, Max. Ensaios de Sociologia. 5. Ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2007. Rejeições Religiosas do Mundo e Suas Direções
NASSAR, Raduan. Obra completa. São Paulo: Editora Cia. das Letras, 2016.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças – cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
GINZBURG, Jaime. O narrador na literatura brasileira contemporânea. Quaderni di litterature iberiche e iberoamericane, São Paulo, 2º ed., 2012.
HOLANDA, Sergio Buarque. Raízes do Brasil. Companhia das Letras, Edição comemorativa 70 anos. 2006.
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala, 50ª edição. Global Editora. 2005.




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* Flávio
Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de Sociologia da UnB. Universidade de Brasilia - PGSOL/UnB. Brasilia/ DF, Brasil