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Resumen de ponencia
Arte e maternidade: uma reflexão sobre construção de identidade

*Marina Bortoluz Polidoro



Esta comunicação tem como ponto de partida a instalação "This is what a mother looks like” (Isso é como uma mãe se parece) da artista brasileira Cecilia Cavalieri para refletir sobre a construção e reconhecimento da própria identidade na maternidade. A instalação de 2017 consiste em um vídeo de 20’40" projetado sobre um espelho de 1,5mx1,5m partido e lixado. A imagem que se vê no vídeo é uma vista de topo da ação da artista abaixada lixando o espelho e sua filha pequena que também age sobre o espelho com luvas e lixas, perambula distraída ao redor do espelho, sobe nas costas da mãe - exige atenção, demanda contato físico e, para usar uma expressão da própria artista no seu relato, infiltra-se em todos os espaços. E a mãe, mesmo com o peso da criança, continua trabalhando, lixando, tornando o espelho cada vez mais opaco, impossibilitado de devolver a imagem.
É interessante apontar que esse trabalho foi desenvolvido durante um programa de residência artística na Holanda, que recebe e apoia artistas emergentes que também são mães, a Mothers in Arts Residency (http://www.mothersinarts.com/).
A relação com o trabalho e a divisão do seu tempo entre o cuidado de uma criança pequena e a dedicação ao trabalho em arte são, como em qualquer outra área, dignas de atenção pela sobrecarga de papéis assumidos pelas mães trabalhadoras. No sistema das artes há ainda um agravante pela ideia de que o processo de criação não pode ser perturbado ou interrompido, ainda mais por questões mundanas como os cuidados com a casa ou a família. Como exemplo disso, pode-se pensar no trabalho "As vantagens de ser uma artista mulher” do grupo de artistas feministas norte-americanas Guerrilla Girls como (1985). O pôster lista com ironia as tais vantagens, entre as quais está: “Ter a oportunidade de escolher sua carreira ou a maternidade”.
O feminismo impactou a arte nos anos 1970, aparecendo tanto no trabalho de artistas mulheres quanto nas críticas, enfatizando os dados sobre a baixa inserção das mulheres no sistema das artes. Nesse contexto um número significativo de artistas problematizam a divisão entre público e privado - e a dominação da primeira esfera pelos homens deixando as mulheres relegadas à segunda - passando a enfatizar o quanto de político há na valorização do privado, da identidade e da experiência pessoal. Das formas adotadas pelas artistas, destacam-se o lugar do corpo da artista como questão central em performances e também a temática da invisibilidade do trabalho doméstico cuja responsabilidade recai prioritariamente sobre as mulheres (dentre as atribuições domésticos está a maternidade e o cuidado com os filhos). Vê se desde então artistas embaralhando essas esferas, borrando as fronteiras e apresentando o trabalho invisível como arte.
Aqui vale mencionar o trabalho fundador de Mary Kelly, "Post-Partum Document" (1973-79) no qual a artista documenta a relação diária com o filho no período de seis anos. Este trabalho teve importante influência no desenvolvimento da arte conceitual, não usa diretamente a imagem da artista ou a da criança, mas sim um número imenso de documentos gerados pela mãe a respeito do filho e seu desenvolvimento, mais especificamente sobre o processo de sociabilização. Declaradamente informada pelo feminismo e pela psicanálise lacaniana, a artista faz o registro do funcionamento das funções fisiológicas até que fosse possível registrar palavras, desenhos e sinais de autoconsciência. O projeto foi originalmente concebido como instalação e publicado em livro em 1983. No início da introdução a artista anuncia que o processo de sociabilização que ocorre nos anos inicias da criança não se trata apenas da formação da futura personalidade dela, mas também da mãe, moldada pela divisão sexual do trabalho.
Uma distância significativa separa as duas artistas, no tempo, no espaço e nas poéticas, nem o feminismo nem a maternidade são os mesmos em 2010 ou 1970, nos Estado Unidos ou no Brasil. Ainda assim, podemos ver que dialogam, entre outras artistas, ao problematizar o lugar a ser ocupado no sistema das artes pelas artistas mulheres e sobretudo pelas artistas mães. A discussão da imagem, da representação do corpo feminino que serviu e ainda serve tanto à história da arte, seja sexualizado ou pudico, frequentemente idealizado, dá lugar para a ação. Voltando ao trabalho de Cavalieri, onde a sua ação debruçada sobre o espelho o embaça e atrapalha a visibilidade ajuda a pensar o processo de reconhecimento de si, para além dos estereótipos das diferentes visões da maternidade.




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* Bortoluz Polidoro
Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS. Porto Alegre, Brasil