O presente resumo trata de alguns apontamentos sobre o fenômeno da desigualdade social em Campo Novo do Parecis. Esta é uma reflexão de caráter exploratório, que busca contribuir com a compreensão e documentação da realidade social desta localidade, visto a escassez de literatura acadêmica sobre o município.
Como fonte de dados, foram utilizados os resultados de Censos Demográficos, principalmente do ano de 2010, disponibilizados pelo IBGE no site sidra, para a construção de indicadores que possibilitem explorar aspectos importantes da desigualdade em Campo Novo do Parecis, tendo como unidade mínima de análise os dados disponibilizados por bairros.
A localidade tem seu nome vinculado aos Paresi, etnia indígena, que desde o século XVII possui registros de contatos com os bandeirantes, assim como nos ciclos de exploração econômica de Mato Grosso, como a mineração em Cuiabá e mais tardiamente em Diamantino, no período do Brasil Colonial. No início do século XX, a relação de contato deste povo com a sociedade envolvente possui relação com as linhas telegráficas, que passavam em terras onde estes habitavam, e a atuação do SPI – Serviço de Proteção ao Índio (ISA, 2009).
Segundo o Censo Demográfico de 2010 a etnia Paresi possuía 2.015 pessoas, distribuídas em 10 Terras Indígenas, na região denominada de Chapada dos Parecis, sendo que em Campo Novo do Parecis, foram contabilizadas 546 pessoas autodeclarados índios dentro de terra indígena.
Cabe destacar que nessa região, ao lado da demarcação das terras indígenas, houve um processo intenso de povoamento por parte da sociedade nacional envolvente (não indígena) gerando uma nova realidade social que demanda esforços para sua compreensão, que possui como característica marcante a migração de grupos populacionais advindos de diversas localidades do Brasil, em especial das regiões Sul e Nordeste.
Com a implementação de projetos de colonização agrícola na região da Chapada dos Parecis, a partir da década de 1970 houve uma forte migração de pessoas do sul do país. Estes projetos tiveram como foco a estruturação da economia local de produção da agricultura voltada à exportação para mercados internacionais, sendo atualmente esta região um importante polo de produção do setor rural. Um dos municípios que se originaram neste movimento de ocupação do território da Chapada dos Parecis é Campo Novo do Parecis, fruto da articulação de produtores rurais, que ocuparam grandes propriedades e em 1981 organizaram um novo centro urbano, que consegue obter a sua emancipação em 1988 (DUBREUIL, 2005). Assim, o núcleo urbano, tem origem com a ocupação da região em fazendas que concentram grande tamanho territorial, impulsionando o que convencionou-se chamar de Agronegócio, tendo como unidade produtiva a organização de propriedades com concentração de terra.
No contexto da organização do setor produtivo, para além da população indígena e dos migrantes oriundos do Sul do país, encontra-se em Campo Novo do Parecis, uma presença significativa de nordestinos, que migraram em buscas de novas oportunidades.
Desde o seu surgimento, Campo Novo do Parecis possui uma pequena dimensão populacional, mas que apresenta crescimento acelerado. Em 1991, ano do primeiro Censo Demográfico o qual a localidade teve participação, foram registrados 6.311 moradores, sendo que a maioria, cerca de 65% da população ou 4.100 pessoas foram registrados na área rural. Em 2010, o município já contava com 27.577 habitantes, sendo que apenas 7%, ou seja, 1.993 pessoas estavam na área rural.
Deste modo, estamos diante de uma realidade complexa, que apesar da economia agrícola, concentra a maioria da população na área urbana, com a presença forte da migração de sulistas e nordestinos, bem como a presença indígena, tanto no território quanto na população local.
A cidade de Campo Novo do Parecis possui três núcleos populacionais principais: o distrito Marechal Rondon, o distrito Itamarati Norte e a sede urbana da cidade. Considerando a realidade vivida na sede urbana da cidade, que foi estruturada às margens da BR 364, encontramos de um lado os bairros Centro, Nossa Senhora Aparecida e Alvorada, que na denominação das pessoas da localidade são tidos como centro, de outro os bairros Boa Esperança, Jardim das Palmeiras, Jardim Primavera e Olenka, tidos como periféricos. Uma questão interessante é que em 2010 a população residente no núcleo urbano da cidade estava praticamente dividida ao meio entre os dois lados da BR 364, com 11.273 pessoas do lado mais central e 11.700 do lado periférico.
Uma primeira questão que podemos observar dos dois lados da cidade é da distribuição da renda. Considerando os dados do IBGE de 2010, em especial, o rendimento médio mensal da população acima de 10 anos de idade, vemos que a média de rendimento em Campo Novo do Parecis era de R$ 903,22, sendo que a época o salário mínimo correspondia ao valor de R$ 510,00. Observando esse valor distribuído pelos bairros da cidade, vemos que o menor valor registrado foi no bairro Boa Esperança com R$ 554,41, seguido pelo Jardim das Palmeiras R$ 625,08, Olenka R$ 931,02 e Jardim Primavera R$ 1.040,94. Do outro lado da rodovia os rendimentos médios por Bairro se apresentam com valores superiores, com o Alvorada R$ 1.091,83, Nossa Senhora Aparecida, 1.143,75 e Centro 1.316,19. Deste modo, os dois lados da cidade possuem diferenças quanto ao rendimento mensal de sua população, sendo que os bairros ditos centrais possuem melhor rendimento.
Possivelmente essa desigualdade no rendimento deve-se a distribuição da população da cidade em áreas ricas e pobres, concentrado de um lado a população que ocupa os postos com menor valorização social, principalmente dos trabalhadores rurais que ocupam atividades manuais nas fazendas. De outro, há a população com maior poder financeiro e acesso aos melhores postos de trabalho, bem como donos de várias propriedades rurais.
Se olharmos a desigualdade de renda pela questão racial, vemos uma diferença muito marcante. Em 2010, a média do rendimento mensal da população acima de 10 anos autodeclarada branca era de R$ 1.161,90, sendo maior que de todas as outras categorias registradas pelo IBGE, sendo de R$ 734,52 a preta, R$ 818,92 a amarela, R$ 689,92 a parda e R$ 443,13 os indígenas. Essa é uma questão que merece maior atenção, pois a composição étnica do município é marcada pela migração de contingentes populacionais de diversas partes do país, que acabam influenciando na composição racial. A população vinda da região sul em sua maioria de Brancos, enquanto os grupos populacionais vindos de outras regiões do Brasil possuem maior destaque nos outros grupos raciais.
Observando a composição racial da população em 2010, podemos ver que nos bairros Boa Esperança e Jardim das Palmeiras a maioria da população se autodeclarou preta ou parda, correspondendo ao percentual de 69% e 65% respectivamente. Por outro lado, nos bairros Centro e Nossa Senhora Aparecida, há maioria de população branca, com 66% e 55% respectivamente.
Portanto, com um olhar exploratório, pode-se verificar que há várias questões ligadas a desigualdade que devem ser analisadas em Campo Novo do Parecis, levantando-se a hipótese de divisão da cidade tendo como referência a BR 364. De um lado os bairros, com menor rendimento, que concentram a mão de obra de trabalhadores manuais nas lavouras do município, nos postos de trabalho com menor rendimento e status, com maior concentração de nordestinos e população autodeclarada negra ou parda. De outro os bairros com maior concentração de migrantes sulistas e maior rendimento.
• DUBREUIL, V. BARIOU, R. PASSOS, M. FERRAND, R. NÉDÉLEC, V. Evolução da fronteira agrícola no Centro-Oeste de Mato Grosso: municípios de Tangará da Serra, Campo Novo do Parecis e Diamantino. Cadernos de Ciência & Tecnologia, Brasília, v. 22, n. 2, p. 463-478, maio/ago. 2005.
• IBGE, INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATISTICA. Censo Demográfico 2010. Rio Janeiro: IBGE, 2011.
• JANNUZZI, P. M. Indicadores para diagnóstico, monitoramento e avaliação de programas sociais no Brasil. Revista do Serviço Público, v. 56, n. 2, p. 137-160, 2005.
• ISA. Instituto Socioambiental. Enciclopédia dos Povos Indígenas no Brasil. 2009. Disponível em: < https://pib.socioambiental.org/pt/povo/paresi/print>. Acesso em 13/06/2017
• TORRES, H. G. Demografia urbana e políticas sociais. R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 1, p. 27-42, jan./jun. 2006. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/rbepop/v23n1/v23n1a03.pdf>. Acesso em 02/06/2016.