O trabalho a ser apresentado tem como principal objetivo compreender as motivações dos jovens que compõem o movimento estudantil de direita da Universidade de Brasília (UnB). Sob o contexto das ocupações de escolas e universidades públicas por jovens estudantes que ocorreram no final do ano de 2016 com o pretexto de defender a educação pública das medidas do governo Temer de desmonte dos serviços públicos brasileiros representadas pela Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55, ou PEC do Teto de Gastos, e pela Projeto de Lei da Escola Sem Partido, que ficou conhecido como “Lei da Mordaça”, surgem movimentos de jovens contrários às ocupações que reclamam pelo seu direito de assistir suas aulas. Na Universidade de Brasília (UnB), esse movimento foi representado pelo “Respeita a minha aula”, liderado, principalmente, por jovens que se consideram de direita, tanto de cunho liberal, quanto de viés conservador. Esse momento foi marcado fortemente pela atuação de três principais coletivos estudantis que se enquadram nesse espectro político e que são o foco de atenção da pesquisa: o Instituto Aliança pela Liberdade, o Distrito Liberal e o Movimento Reação Universitária. Todos os três coletivos apresentam semelhanças em sua concepção, embora difiram em alguns pontos em sua organização interna e nos valores e pautas defendidos. Os três grupos participaram da organização dos movimentos que tentaram acabar com as ocupações, tanto na UnB, quanto em algumas escolas públicas do Distrito Federal (DF). Tendo isso em vista, a pesquisa se orienta no sentido de compreender as motivações e paixões que impulsionam esses jovens de direita a participarem da política, buscando desvelar regularidades em suas trajetórias de vida relacionadas à sua militância, além de entender sua atuação no movimento “Respeita a minha aula”. Nesse sentido, a pesquisa é desenvolvida por meio da análise de entrevistas semiestruturadas realizadas com integrantes dos coletivos, além da análise dos dados obtidos das publicações tanto das páginas do Facebook dos três coletivos, quanto da página do movimento organizado por eles. A utilização da metodologia das entrevistas semiestruturadas se justifica pela sua possibilidade de poder explorar de acordo com o andamento da entrevista outros pontos não ressaltados no roteiro de perguntas. Ademais, a análise das páginas do Facebook citadas demonstra ser importante para compreender como os jovens que participam de tais movimentos visualizam o mundo e agem diante dele. A investigação apresenta como marco teórico a discussão das teorias do reconhecimento (Honneth, 2009; Fraser, 2001) com o objetivo de explicar a participação desses jovens pela sua vontade de reconhecimento após terem superado os estágios de desenvolvimento necessários para se considerarem pessoas merecedoras de direitos. Não obstante, o trabalho é direcionado para compreender essas dimensões da participação dos jovens de direita de forma crítica, reconhecendo, assim, que o crescimento do movimento conservador na UnB é reflexo do crescimento do conservadorismo em todo o mundo, marcado pela ascensão de uma “nova razão de mundo” baseada nos valores do neoliberalismo (Dardot e Laval, 2016). Além disso, a pesquisa também se volta para desvelar e explicar as relações desses coletivos juvenis com grupos de think thanks liberais que se proliferam no Brasil e na América Latina de forma geral. A pesquisa ainda se encontra em andamento, mas já traz achados importantes para a compreensão do movimento de ascensão do conservadorismo no continente latino-americano, além de apresentar dados importantes acerca das motivações percebidas pelos jovens e que influenciam seu engajamento em movimentos de direita.
Referência bibliográfica:
DARDOT, Pierre e LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
FRASER, Nancy. “Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas da Justiça na Era Pós-Socialista”, in: SOUZA, Jessé (org.) Democracia Hoje: novos desafios para a teoria democrática contemporânea. Brasília: Ed. UnB, 2001, p.245-282.
HONNETH, Axel. A luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos socias. São Paulo, Editora 34, 2009.