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Resumen de ponencia
O prognóstico de Marx que as revoluções proletárias renascem em proporções cada vez mais gigantescas é um fato historicamente comprovado

*German Ezequiel Motta
*Paulo Érico Pontes Cardoso



A história da humanidade não se desenvolve de forma linear, nem em ciclos que se repetem, mas em ondas espiraladas. Em sua obra "O 18 brumário de Luis Bonaparte", Marx compara as revoluções burguesas e proletárias até o século XIX. As revoluções burguesas teriam vida curta enquanto as proletárias corresponderiam a um longo processo de ascenso e refluxo, revolução e contrarrevolução, um processo cumulativo de crítica das experiências passadas. Com Hegel, Marx aprendera o conceito alemão de Aufheben, que expressaria determinações opostas e contraditórias, eliminação (ou negação), conservação (no sentido de manter) e superação (ou elevação) 1. O caráter de processo e não ato, toma uma dimensão de desdobramentos mais amplos que nos processos revolucionários burgueses. Marx importará a dialética para o estudo das relações sociais de forma materialista pela primeira vez, fundando uma sociologia dialética. Método que modestamente os autores consideram fundamental para o estudo de qualquer campo das ciências sociais e as humanidades. Os ritmos das revoluções obedeceriam seu caráter de classe. Nas burguesas o processo tem curta duração, nas proletárias, não.
“Las revoluciones burguesas […] son de corta vida, llegan en seguida a su apogeo y una larga depresión se apodera de la sociedad, antes de haber aprendido a asimilarse serenamente los resultados de su período impetuoso y agresivo. En cambio, las revoluciones proletarias como las del siglo XIX, se critican constantemente a sí mismas, se interrumpen continuamente en su propia marcha, vuelven sobre lo que parecía terminado, para comenzarlo de nuevo, se burlan concienzuda y cruelmente de las indecisiones, de los lados flojos y de la mezquindad de sus primeros intentos, parece que sólo derriban a su adversario para que éste saque de la tierra nuevas fuerzas y vuelva a levantarse más gigantesco frente a ellas, retroceden constantemente aterradas ante la vaga enormidad de sus propios fines, hasta que se crea una situación que no permite volverse atrás y las circunstancias mismas gritan: Hic Rhodus, hic salta! ¡Aquí está la rosa, baila aquí! (MARX, 1997)
As revoluções proletárias, a partir do século XIX, criticaram a experiência que lhe antecedeu e inspirou, zombam cruelmente das primeiras tentativas, de sua indecisão, mesquinhez, dos seus flancos débeis. A partir daqui há uma observação ambígua em Marx, onde o “adversário” da citação pode ser o adversário de classe, “a contrarrevolução burguesa”, ou o espectro do comunismo. Em ambos os casos, a história criou e criará circunstâncias que gritam para que a nova onda revolucionária realize um feito até então inacreditável de expansão do que parecia ter terminado, mas que só o fez para começar de novo com um novo e mais poderoso ímpeto, se negando, se conservando e se superando.
O que Marx via nas revoluções proletárias no século 19 ainda eram os germes das revoluções proletárias gigantescas que marcaram o século seguinte. As revoluções burguesas clássicas, como na França em 1789-1832, e a de 1848 não foram capazes de eliminar a monarquia, foi só a partir da Comuna de Paris ou da revolução bolchevique que a monarquia foi eliminada da França e da Rússia. A fase revolucionária da burguesia logo se esgota e as tarefas democráticas que ela tinha que realizar, as deixou de herança para a revolução proletária realizar, por isso, com mais razão o proletariado está convocado a tarefas históricas mais profundas.
É o que vem acontecendo desde então com o espiral revolucionário, que podemos perceber claramente desde que olhemos com a devida paciência histórica.
A revolução de 1848 na França foi abortada com a ascensão ao poder de Luís Bonaparte, sobrinho de Napoleão, que em breve realizará um autogolpe. 19 anos após esse Golpe de Estado de Luís Bonaparte, pele primeira vez, o proletariado tomou o poder em uma cidade do mundo e a governou por 72 dias – a Comuna de Paris.
A comuna foi derrotada, dezenas de milhares de communards foram assassinados pela contrarrevolução. 46 anos depois triunfou a revolução de outubro de 1917, já não mais em uma cidade, mas na maior nação da Terra. Essa revolução grandiosa impactou o mundo e dividiu a história humana em antes e depois da URSS, já não durou 72 dias, mas 74 anos (fim dos estados operários – 1991). A revolução de outubro de 1917 provou definitivamente que é possível a existência de um Estado soberano sem propriedade privada dos meios de produção.
Entre a revolução Russa e a revolução chinesa foram 32 anos, com a Segunda guerra mundial no meio. Entre 1948 (Iugoslávia) e 1945 (Vietnã) ocorreu um dos maiores ciclos expansivos do capital, os chamados 30 anos dourados, simultaneamente foi o momento de maior expansão do ciclo de novos Estados que passaram por processos de expropriação da propriedade privada dos meios de produção. Vemos então que no plano espacial a revolução proletária teve sua primeira vitória na tomada do poder em uma cidade (Paris), seu segundo ciclo no maior país do planeta (URSS) e seu terceiro ciclo onde viviam 1/3 da população planetária. Sem dúvida a revolução proletária renasce mais forte, mas a maioria de nós com uma visão encurtada por sua própria curta existência não consegue perceber suas ondas de contração e expansão e vivendo agora em uma época de contração perde as esperanças, deixando-se adaptar a expectativas alheias às que conduzem a revolução.
Entre a vitória da última revolução social, a do Vietnã e nós, se passaram apenas 43 anos. No Vietnã, homens franzinos de uma das mais pobres nações asiáticas derrotaram o maior império do planeta em toda a história, os EUA que depois Hiroshima e Nagazaki eram considerados invencíveis e mesmo matando cinco vezes mais gente no Vietnã do que com as bombas atômicas que soltou no Japão, foram vergonhosamente derrotados.
Assim como a revolução de outubro foi o evento mais importante da história da luta dos trabalhadores, a reconquista daquele país e de sua massa de trabalhadores para novamente ser explorada pelo capital foi uma derrota histórica para nossa luta que animou o imperialismo a ofensiva que sentimos hoje. Com o fim da experiência soviética e da quase totalidade dos estados operários, o imperialismo aproveitou-se para saquear em maior escala aos proletariado através do que chamou de neoliberalismo e globalização. Mas logo o capital esbarrou em uma nova crise econômica em 2008. Sob a retração da participação dos EUA e Europa no mercado mundial se abriu espaço para novas potências como Rússia e a China. Graças as revoluções que passaram, esses dois países resolveram tarefas burguesas como a reforma agrária, a independência energética e nuclear, tarefas que a restauração capitalista não eliminou e, por conservarem esses avanços fundamentais em seu desenvolvimento estrutural, aproveitaram a brecha para se inserir no mercado mundial capitalista como sucessores do “declínio do império americano”, aí se abriu uma nova guerra fria.
Não percamos a paciência histórica, enquanto houver propriedade privada dos meios de produção e exploração do homem pelo homem a revolução socialista renascerá em proporções mais gigantescas!

Notas
1. Em “A Ciência da Lógica’, G. W. F. Hegel destaca que Aufheben “representa uno de los conceptos más importantes de la filosofía, una determinación fundamental” (1982, pp. 50).
2. Nota da edição brasileira da Editora Expressão Popular, de O” 18 de Brumário de Louis Bonaparte, Karl Marx, Dezembro de 1851 a Março de 1852, página 211. “Hic Rhodus, hic salta! (Aqui está Rodes, salta aqui!): expressão de uma fábula de Esopo sobre um fanfarrão que, invocando testemunhas, afirmava que uma vez, em Rodes, conseguira dar um salto enorme. Os que o escutavam responderam-lhe: "Para que é preciso testemunhas? Aqui está Rodes, salta aqui!" No sentido figurado significa: aqui é que está o essencial, aqui é que é preciso demonstrar.




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* Ezequiel Motta
Ciudade Autónoma de Buenos Aires. Buenos Aires, Argentina

* Pontes Cardoso
Ciudade Autónoma de Buenos Aires. Buenos Aires, Argentina