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Resumen de ponencia
Memórias de dor em Buenos Aires de ex centros clandestinos de detención, tortura y extermínio a lugares de memoria e consciência: o caso do Ex CCDTyE Automotores Orletti

*Rebca Cabral



A presente proposta de artigo insere-se como um desdobramento da pesquisa de mestrado “Memórias de dor em Buenos Aires: de ex Centros Clandestinos de Detención tortura y Extermínio a lugares de memória e consciência” desenvolvida principalmente na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, no Brasil, sob orientação do Prof. Dr. Renato Cymbalista, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP); mas que também inclui um período de estágio no Instituto de Ciência Antropológicas da Universidade de Buenos Aires sob a orientação da Prof. Dra. Ana Guglielmucci e com financiamento da mesma agencia de fomento.
Em linhas gerais, o mestrado centra-se nas formas de representação da memória da última ditadura militar argentina, entre 1976 e 1983. Toma-se como recorte a Red Federal de Sítios de Memoria na Argentina, com o foco em cinco dos ex Centros Clandestinos de Detención Tortura y Exterminio (Ex-CCDTyE) de Buenos Aires que a compõem e hoje são lugares de memória: a Ex-Esma, o Ex-Olimpo, o Ex-Virrey Cevallos, o Ex-Club Atlético e o Ex-Centro de Automotores Orletti. A partir do objeto de pesquisa analiso como cada um destes sítios de memória, cenários da barbárie no passado, e hoje componentes da rede, trabalha suas especificidades e se completam (ou não) com os demais, configurando uma narrativa complexa e não redundante na cidade. Nesse sentido algumas perguntas tornam-se centrais: afinal, como eles se relacionam entre si? Existem redundâncias nessa narrativa ou há um apoio recíproco entre eles? Como a criação de uma política pública de rede de sítios influenciou neles? A política pública é o único meio pelo qual eles estabelecem conexões? Tendo em perspectiva as relações transnacionais estabelecidas em um mundo globalizado (Huyssen, 2014), a problemática da investigação desenrola-se, então, numa análise das possibilidades éticas, estéticas e políticas de representação da violência (Diéguez, 2013) na cidade contemporânea. O objetivo maior é pensar possibilidades de atuação sobre o mesmo tema no Brasil, onde as iniciativas e debates sobre o tema engatinham em relação à Argentina.
O artigo, por sua vez, toma como recorte específico um desses lugares: o Ex Centro de Automotores Orletti. Busca-se compreender como o objeto específico constrói sua especificidade e se completa (ou não) com os demais. Mais especificamente analisa-se o que mudou (ou não) no sítio com a criação de uma rede de sítios de memória; como ele influência nesse tipo de política; quais as formas de articulação que o sítio cria com os outros sítios de CABA, mas também para fora desse circuito; e quais seus movimentos, representações, símbolos, unívocos específicos que o distingue dos demais. Nesse sentido, é preciso compreende-lo como relação e não efeito, pelas tensões dialéticas que os construíram: entre os signos (como aquilo que comunica), ferramentas e técnicas (arquitetônicas, arqueológicas, gráficas, propagandísticas, entre outras) escolhidos para representar a memória da ditadura; e as relações dinâmicas de disputas, dos grupos envolvidos nos trabalhos de memória.
O artigo compreende-se em três seções centrais. A primeira explora a ideia de lugares de memória e consciência. Partindo dos anos 90 – ¬ um momento marcado por um novo modo de olhar ao passado em diversos âmbitos da vida; pela intensificação dos diálogos entre diferentes trabalhos de memória, sobre distintos temas e em diferentes localidades; e pelo fortalecimento dos discursos de memórias difíceis e de direitos humanos mobilizados nos lugares de memória e consciência – explora-se as relações de coexistência, tensão e disputa na cidade contemporânea, estabelecidas pelas memórias encarnadas nos lugares. Apresenta-se três noções, complementares, que auxiliam a compreender como o ex CCDTyE é agente e responde à essas relações, tão presentes na cidade contemporânea. São elas as relações entre cosmopolitismo e direitos humanos, trabalhada por Daniel Levy, Hans-Herbert Klögler, Pheng Chea, para citar alguns, que em comum entendem os direitos humanos enquanto um equivalente a ideia de cosmopolitismo, enquanto um discurso que pode agir como uma gramática comum, pela qual diferentes histórias de vitimização de diferentes localidades se comunicam; a noção de memórias multidirecionais, cunhada por Michael Rothberg, que aponta para uma relação produtiva, de aprendizagem, por meio da convivência de distintas memórias de vitimização; e a ideia de repertório, trabalhada por Angela Alonso e Diana Taylor que apontam à possibilidade de criação de uma caixa de ferramentas por meio do conhecimento de outros trabalhos de memória, a partir da qual os atores sociais escolhem as ferramentas que lhe são úteis em determinado contexto especifico.
A segunda parte reconstrói a história do Automottores Orletti, seja enquanto lugar da barbárie, seja enquanto sítio de memória, buscando compreender como e até qual ponto suas funções e localização na cidade, enquanto lugar da barbárie, delimitam (ou não) seus processos de memorialização e escolhas representativas. E a terceira parte, por fim, analisa, a partir das informações da primeira e da segunda seção, os aspectos espaciais e simbólicos do sítio específico mobilizando as três noções apresentadas na primeira seção. Na segunda e na terceira parte são utilizados, principalmente, autores argentinos que se debruçam sobre o tema, como Elizabeth Jelin, Ana Guglielmucci e Hugo Vezzetti; bem como os documentos administrativos e entrevistas recolhidos no trabalho de campo.









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* Cabral
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo FAU-USP. São Paulo, Brasil