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Resumen de ponencia
ASSÉDIO SEXUAL NO TRANSPORTE PÚBLICO: A CONSTRUÇÃO SOCIAL DO PROBLEMA

*Raquel Isidoro



Resumo introdutório: Era 2015, um final de tarde do verão e a estação de trem central do Brasil estava lotada. Passavam das 16h30 e vinha muita gente dos mais diversos locais para embarcar em um dos trens que dão acesso a municípios vizinhos e a bairros mais distantes da área central do Rio de janeiro.
Ao atravessar uma das centenas roletas avistei, entre os quiosques e o jornaleiro, a televisão que marcava as linhas (destinos) com suas respectivas cores, os horários e a plataforma. Embarcaria no trem com sentido a Santa Cruz, zona oeste, que já estava parado na plataforma com as portas abertas e vagões cheios. Foi quando ao percorrer até a outra extremidade do trem para buscar áreas menos cheias, que um grupo de mulheres atrás de mim começou a correr segurando a bolsa e rindo. Estavam indo em direção ao vagão popularmente conhecido como vagão rosa, neste momento corri junto. O trem, diferentemente do metro, não possui a indicação da onde as portas irão abrir, nem sinalizações de quais vagões são os vagões rosas na plataforma.
Meu contato se deu com a frase “é né!” pronunciado por uma delas junto a um sorriso incomodo, que não marcava apenas uma expressão, mas como algo que vinha sintetizar uma situação comum, naturalizada e que estava sendo compartilhada explicitamente com aquelas que estivessem naquele vagão, e era uma justificativa para entender sua necessidade de correr especificamente para aquele vagão. No processo, gestos, olhares, sorrisos, brincadeiras, transformaram-se unos umas com as outras e integravam a grande parte das mulheres que já estavam no vagão.
Estava parada perto da porta e algumas mulheres começaram a me integra em suas narrativas e histórias de assédio sexual e agressões físicas dentro do transporte coletivo. Eram casos de amigas, conhecidas ou de quem nunca tinham visto. Nesta época, ninguém me contou de imediato suas histórias individuais, foi apenas quando me expus com a frase “já passei por situações bizarras” que obtive suas próprias narrativas. Narravam também, disputa de lugar e uma sensação de maior autoridade dentro do vagão rosa. Contudo, faziam enormes críticas a falta de fiscalização nas estações de trens, a falta de punições nos casos de descumprimento da lei, aos poucos vagões exclusivos e um descontentamento até mesmo com o vagão.
Esse universo do trem, no entanto, era redescoberto por mim naquela época. Tinha voltado a morar no Rio de Janeiro a alguns meses e ter acesso a esse transporte era um dos processos de readaptação. As aflições e olhares eram expressos de forma semelhantes aos vividos em outros transportes - preferência em sentar próximo a outras mulheres, encostar na parede é melhor que ficar no corredor, evitar entrar em transportes vazios ou sem mulheres dentro, desconforto em estar nos pontos e plataformas vazias ou com homens apenas.
Meu questionamento sociológico, em torno do chamado assédio sexual no transporte público surge no conjunto de elementos relacionados a minha vida pessoal e militante, que me levaram a observar constantemente o cotidiano rico em histórias e, principalmente, estratégia de sobrevivência. E no qual, não se estabeleceu o interesse de imediato para uma pesquisa acadêmica. Foi com o passar do tempo, sucessivas experiências de conversas em trens, ônibus, vans, metrô, plataformas e pontos de espera que comecei a formular a problemática relacionado a este universo empírico.
Dessa forma, no que concerne a este trabalho, busquei realizar uma demonstração exploratório, sem a ambição de realizar uma síntese de textos teóricos sobre violência de gênero, nem tampouco, apresentar um trabalho de observação presencial, já que, estou escrevendo este artigo antes do meu processo de qualificação e do primeiro ano de mestrado. De modo intermediário, realizo um trabalho empírico norteadas pelas questões: Quem está envolvido (a) na construção social do problema social de assédio sexual no transporte público? quais suas demandas de ação? Quais as práticas que estão envolvidas nessa categoria? me valendo das reportagens, vídeos e campanhas disponíveis na internet.




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* Isidoro
Programa de Pos-graduação em Sociologia na Universidade Federal Fluminense PPGS/UFF. Niteroi, Brasil