Este texto tem como objetivo principal apresentar o trabalho de pesquisa que vem sendo realizado juntamente com o MENE – Grupo de Mulheres negras, recentemente criado no pequeno município de São Lourenço do Sul no Sul do Rio Grande do Sul.
A pesquisa, “Artesanato como resistência”, tem como objetivo estudar os processos artesanais de criação, a arte de ensinar e aprender desse trabalho, bem como potencializar a geração de emprego e renda.
De acordo com Juliana Soares: “Mene em Yorubá significa nunca estar só”. (Entrevista realizada em agosto de 2017). Assim, o Grupo nasce da necessidade de emprego e renda, além da necessidade de um grupo político a favor da igualdade racial.
Após a entrada na universidade pelas ações afirmativas, as “cotas” do governo federal, as estudantes do curso de licenciatura em Educação do Campo da Universidade Federal do Rio Grande/FURG, duas estudantes negras quilombolas , se viram desempregadas e sem renda.
Escrever sobre o Mene é escrever e reescrever parte da dura história da população negra no Brasil, principalmente no que tange ao acesso a direitos básicos como educação, saúde, moradia, trabalho, lazer e segurança.
O Brasil é formado por maioria negra, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população negra corresponde a 53,6% dos/as brasileiros/as, sobre essa maioria a integrante do Mene Maria Escarlate dispara: “Somos a maioria e a nossa cara não está, não está nas universidades, não está nos comércios, não está em muitos lugares”. (Maria Escarlate, integrante do Mene, entrevista em setembro de 2017)
Apesar da afirmação da integrante do Mene, é bastante comum em vários lugares do mundo a ideia de que no Brasil vivemos em uma democracia racial. Estudiosas sobre o racismo no Brasil apontam uma sociedade racista: “É falso afirmar que o Brasil não é um país racista. Viver nesta afirmação não se trata somente de “tapar o Sol com a peneira”, mas continuar permitindo um quadro social que favorece uma população de elite e branca, ou, pelo menos, de pessoas que se identificam com isso” (SILVA, 2014, p 01). Sobre o mesmo assunto, a feminista Heleieth Saffioti aponta que:
Diz- se, a boca miúda, que no Brasil há democracia racial. Nada seria mais inverídico do que esta afirmação. Basta examinar as estatísticas para se verificar que os negros estão nas ocupações menos prestigiadas e mais mal remuneradas, que apresentam graus baixos de escolaridade, que não participam do poder político. (SAFFIOTI, 1987, p 51)
Para Djamila Ribeiro (2016), o Brasil é um país racista sim, isso porque tivemos mais de 300 anos de escravidão e, além disso, medidas institucionais para impedir o avanço e a mobilidade da população negra. Na sociedade brasileira, o racismo é um elemento estruturante, e essa estrutura também é vista dentro da universidade.
A universidade no Brasil tem sido historicamente branca, principalmente porque para o seu acesso - mesmo sendo este afirmado como “igualitário” - é necessário preparo intelectual, e talvez esteja aí um dos principais fatores de desigualdade de raça dentro da universidade brasileira.
Em geral, a escola privada básica é destinada à população branca, que sai dessas escolas de excelência com uma excelente formação educacional. E as populações negras, em sua maioria, apenas têm acesso a uma educação básica deficitária. Como assinala Saffioti:
É importante frisar a heterogeneidade das categorias sociais que recebem tratamento de minoria, como negros, mulheres. As próprias classes dominantes incentivam a manutenção desta heterogeneidade. Mas ainda, estimulam o surgimento de maior grau de diferenciação interna nas categorias sociais. Graças a esta heterogeneidade, as classes dominantes podem, facilmente, dividir movimentos reivindicatórios destas categorias sociais, de modo a enfraquece-los (SAFFIOTI, 1987, p. 87)
O fato concreto é que os números apontam uma desigualdade absurda: Em 1997, apenas 2,2% de pardos e 1,8% de negros, entre 18 e 24 anos, cursavam ou tinham concluído um curso de graduação no Brasil, além de trazer à tona os números, a pesquisadora Teresa Olinda Caminha Bezerra pontua que as “Pessoas estavam impedidas de estudar no Brasil por sua cor de pele ou condição social. Se fazia necessário, na época, uma medida que pudesse abrir caminho para a inclusão de negros e pobres nas universidades” (Bezerra, 2014, p 1). Como ponto de partida das lutas dos movimentos sociais, o país caminhou rumo à elaboração e aplicação da proposta das cotas raciais nas universidades públicas.
A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) foi a primeira universidade brasileira a adotar cotas de ingresso, em 2001. Após ela, as cotas foram adotadas também pela Universidade de Brasília (UnB), em 2004 , e em 2012 foi assinada, pela presidenta Dilma Rousseff, a Lei nº 12.711/12 para a garantia de acesso a universidades federais pelas cotas. De acordo com a lei:
As vagas reservadas às cotas (50% do total de vagas da instituição) serão subdivididas — metade para estudantes de escolas públicas com renda familiar bruta igual ou inferior a um salário mínimo e meio per capita e metade para estudantes de escolas públicas com renda familiar superior a um salário mínimo e meio. Em ambos os casos, também será levado em conta percentual mínimo correspondente ao da soma de pretos, pardos e indígenas no estado, de acordo com o último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). (Lei nº 12.711/12)
Em todo território nacional brasileiro, a implementação das cotas resultou em algumas formas de reação: De um lado, serviu para exaltar os ânimos das pessoas racistas que estavam camuflados (ou não), de forma a manifestarem seu ódio e serem contrários/as à entrada das minorias na universidade. Desta forma, tivemos a reação das pessoas que estão a favor da ideologia dominante:
Falar de cotas é sempre bastante polêmico porque é engraçado porque só se falou em cotas quando surgiram as cotas de reparação social para negros, quando tinha a cota do boi ninguém falava nada porque se tu saísse na rua e perguntasse pra alguém o que era a cota do boi ninguém sabia porque não interessava a mídia anunciar a cota do boi, em relação as cotas, elas são necessárias porque elas são só uma fatia do bolo que esse país deve para nós negros, desde a libertação dos escravos que na verdade foi a condenação, foi só a continuação da condenação do povo negro. (Juliana Soares, integrante do Mene, entrevista em setembro de 2017)
A outra reação é a contra hegemônica, de quem está remando contra a maré da elite dominante. Contudo, uma das coisas mais importantes das cotas foi, sem dúvida, a abertura do diálogo sobre as minorias na universidade e a entrada das populações historicamente excluídas, ocupando um espaço seu de direito: a educação formal.
Entretanto, apesar de toda a dificuldade encontrada com a implementação das cotas, elas abriram as portas da universidade a aproximadamente 150 mil pessoas negras:
Segundo dados do ministério da educação do Brasil: entre 2013 e 2015, a política afirmativa de reserva de cotas garantiu o acesso a aproximadamente 150 mil estudantes negros em instituições de ensino superior em todo o país. Segundo dados do Ministério da Educação, em 1997 o percentual de jovens negros, entre 18 e 24 anos, que cursavam ou haviam concluído o ensino superior era de 1,8% e o de pardos, 2,2%. Em 2013 esses percentuais já haviam subido para 8,8% e 11%, respectivamente.(MEC, 2016)
Dentro dessas estatísticas encontram-se as mulheres que, em 2016, sentaram-se para pensar como conseguir dinheiro para manter suas famílias e estudar.