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Resumen de ponencia
Flaskô na contramão: a experiência de controle operário em uma fábrica ocupada no Brasil

*Ricardo Takayuki Tadokoro



O trabalho consiste nos resultados de pesquisa dissertativa de Mestrado que teve por objetivo analisar em que medida as experiências de ocupações de fábricas por trabalhadores são alternativas históricas ao modo de produção capitalista ou apenas parte de uma estratégia de sobrevivência frente a um quadro de crise estrutural do capital. Empreendemos, além de pesquisa bibliográfica, uma investigação de campo sob as condições e formas de organização, mobilização e resistência dos trabalhadores da Flaskô, uma Fábrica ocupada única fábrica sob controle operário que resiste desde 2003 na cidade de Sumaré, em São Paulo, Brasil. A nova ofensiva do capital das últimas décadas, sustentada pelo neoliberalismo e a reestruturação produtiva, impõe à sociedade riscos reais para o caminho da barbárie e destruição, tanto no plano social como no ecológico. Seu caminho implica a intensificação da exploração da força de trabalho e dos recursos naturais. Esta ofensiva levou o mundo para uma conjuntura atual de crise estrutural econômica que está abalando as bases civilizatórias que o próprio capital construiu historicamente. Desde a crise de 2008 os mercados financeiros centrais (formado pelos mercados hipotecários, bancário, acionário e de papéis em geral do sistema financeiro globalizado) não conseguem se recuperar de um problema gerado por eles mesmos. Países centrais como os Estados Unidos, Japão e do continente Europeu vivenciam uma recessão econômica mesmo após injeção de trilhões de dólares dos Estados nacionais na tentativa de salvar a quebradeira de bancos falidos. As soluções para economistas, intelectuais e políticos da ordem capitalista são dramáticas: receituários econômicos de austeridade fiscal, corte de direitos sociais, flexibilização das leis trabalhistas, etc. Sabemos que de nada irá adiantar soluções imanadas pelo próprio sistema, pois, o sistema metabólico do capital não tem limites para sua expansão que se converte cada vez mais em um processo incontrolável e destrutivo (MESZAROS, 2002). Esse cenário de aprofundamento da crise do sistema capitalista que vem se intensificando desde a década de 1980, atualmente deixa claro que se trata também de uma crise do modo ou regime de acumulação neoliberal, afetando países periféricos e centrais. Na América Latina observa-se outro fenômeno diante o contexto: o fechamento e abandono de empresas dentro de um novo arranjo internacional pressionada pela concorrência monopolística dos grandes capitais inseridos a partir do processo financeirização mundial. Em resposta a esses acontecimentos (e a própria crise capitalista), trabalhadores, prestes a ficarem desempregados, resistiram e assumiram as empresas em uma perspectiva de coletividade e autogestão que ficaram conhecidas como “Empresas Autogestionárias”, “Fábricas Recuperadas” ou “Fábricas Ocupadas”. Observa-se que esse fenômeno é, em grande medida, resposta ao desemprego, como pior flagelo da classe operária. O desenvolvimento contínuo do capitalismo no qual observamos o movimento de surgimento de novas empresas, bem como o declínio e falência de outras, acompanha as crises e depressões que desestabilizam a sociedade colocando os trabalhadores em movimento. Remetemos à questões relacionadas à problematização das possibilidades para os trabalhadores de efetivarem uma prática de trabalho emancipado, isto é, fora da perspectiva de alienação da organização capitalista de produção. Compreende-se o papel central que a classe trabalhadora ainda possui enquanto sujeito dos processos de transformação social e o trabalho como condição de existência social do homem. Nessa perspectiva, a teoria marxista será um elemento central que norteará as reflexões analíticas neste trabalho, demonstrando a atualidade da luta de classes e do trabalho em sua forma de exploração capitalista na dinâmica central da sociedade contemporânea, contrariando as teses sobre o fim da sociedade do trabalho, fim das classes sociais e fim da história. Ressaltamos a dimensão não estática das “classes sociais”, portanto, essa é uma categoria histórica que está associada a um conjunto de transformações da sociedade, sendo mutáveis ao longo do tempo. O movimento societal é dialético e constante permitindo também entender que a classe possui uma dimensão relacional, ou seja, esta classe só existe em função da existência de outra(s). Nesse sentido, faz-se necessário compreender em Marx a distinção dos mais variados modos de produção e sua dinâmica mutável, não traduzindo, portanto, uma dimensão teleológica da história humana. Entendendo as classes como fenômeno histórico, partimos da análise bibliográfica da dinâmica das classes dentro da própria experiência histórica do capitalismo. A problemática da pesquisa vai ao encontro do conjunto dessas reflexões ao pensar as potencialidades das fábricas ocupadas na luta anti-capital contemporânea, analisando seu movimento, que se apresenta ora como forma de ofensiva, ora como formas de estratégias defensivas, dentro de um processo em que muitas das vezes o comportamento operário e sindical foi à adequação com as políticas do Estado e não avançou no enfrentamento ao capital. As fábricas ocupadas, apesar de também estarem inseridas na ordem econômica do capital e serem influenciadas por ela, apresentam uma dimensão política qualitativamente diferenciada entre as outras formas de respostas dos trabalhadores em função do fechamento de empresas. A hipótese a ser trabalhada é de que essas experiências possuem um germe e potencial revolucionário na medida em que a luta política travada por esse caminho desenvolve a consciência de classe e a experiência política dos trabalhadores envolvidos em uma perspectiva de “expropriação dos expropriadores”. Para aqueles que buscam uma teoria da transição na perspectiva da superação da sociedade dividida em classes pelo capital, as experiências das fábricas ocupadas podem ser “janelas e portas” que nos oferecem alternativas viáveis. Busca-se colocar no horizonte da compreensão como as classes trabalhadoras organizadas nessas fábricas produzem sua intervenção nas diversas esferas, quais sejam política, econômica, cultural, a partir de suas interações e sociabilidades com os diversos sujeitos sociais e entre si mesmas. O objeto empírico de pesquisa permitiu captar esse fenômeno em uma situação concreta de fábrica ocupada e gerida pelos trabalhadores: a fábrica brasileira Flaskô (Sumaré/SP). Trata-se de uma empresa que vem sendo controlada por trabalhadores, registrando um histórico de muitos embates políticos com empresários e poder público. Trata-se de uma empresa que se destacou e consolidou no cenário nacional devido a sua longevidade de resistência que se desenvolve há quinze anos. Sua história de resistência e luta é exemplo de uma situação concreta, que expressa e converge com o conjunto de lutas atuais dos trabalhadores do Brasil, com vistas à manutenção de seus empregos e sobrevivência, ao mesmo tempo em que buscam uma perspectiva política de superação da ordem capitalista. Portanto, a pesquisa tem como escopo a análise do caso específico da fábrica ocupada Flaskô, refletindo sobre em que medida as experiências de ocupações de fábricas por trabalhadores são alternativas/enfrentamentos históricas ao modo de produção capitalista ou apenas parte de uma estratégia de sobrevivência frente a um quadro de crise do capital. Problematiza-se, por fim, qual o significado que a experiência das ocupações de fábricas e sua autogestão têm para os trabalhadores e quais as possibilidades para efetivação de novas relações de trabalho emancipado. A opção metodológica empregada nesta pesquisa privilegia a abordagem de caráter investigativo em um contexto social e dialético, relacionando dados de outras pesquisas, situações concretas da realidade social do universo empírico selecionado com o movimento da totalidade social constituída pelo capital.




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* Tadokoro
Instituto Federal Goiano IFGoiano. Ceres - GO, Brasil