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Resumen de ponencia
Releitura da cidade através das relações raciais: desigualdades e colonialidade do poder

*Renata Karolyne De Souza



O entendimento da cidade enquanto espaço de produção e reprodução social coloca em observação os diferentes tipos de ocupações urbanas e podemos perceber que há uma divisão marcada pela presença material da propriedade privada e sua exigência como modo de exercer o direito de morar. O papel da colonização como estratégia de expansão do capital, teve grande contribuição no que tange ao estabelecimento hegemônico da ideia de superioridade racial e no modo de divisão social do trabalho que se deu a partir da dominação dos territórios latino-americanos. Como consequência deste processo e de mecanismos criados para a perpetuação dessa relação de subalternidade, houve uma predeterminação acerca dos futuros papéis dentro da sociedade de classes que os grupos escravizados e depois libertados ocupariam, bem como as características de sua localização espacial na cidade. Historicamente a expansão capitalista – a mesma que paulatinamente incorporou nas cidades a luta de classes e a segregação - através da colonização trouxe para a América uma nova forma de poder hegemônico que concentrava suas qualidades no padrão europeu que a partir de então controlava todas as formas de subjetividade, cultura e conhecimento das populações colonizadas (QUIJANO, 2000).
Negros trazidos do continente africano forçadamente em navios negreiros para então serem transfigurados em escravos na América e indígenas que aqui já viviam e posteriormente seriam utilizados enquanto servos, foram alvo da subalternidade diante da nova forma de organização social e econômica. Após longos períodos de escravidão, no século XVII por inciativa da Inglaterra com intuito de dar poder de compra aos escravos para assim fortalecer e aumentar os consumidores do que havia sido produzido, a negritude escravizada teve sua liberação dos trabalhos forçados. Segundo dados da Biblioteca Nacional, cerca de 4,5 milhões de escravos africanos tiveram seus destinos desenhados para mais de 4 séculos, pois agora seu lugar que era a senzala passou a ser as ruas, já que não conseguiam cargos suficientemente bons para se manter e quando conseguiam era uma mera herança daquilo que no imaginário já havia liberdade: voltavam aos trabalhos braçais e domésticos.
O governo brasileiro preferiu a estratégia da imigração, trazendo da Europa trabalhadores que serviriam de mão-de-obra para as lavouras, sendo então detentores titulares deste tipo de trabalho livre. Os interesses eram extremamente antagônicos aos da população negra, desembocando na proibição do voto, dificuldade de ocupar cargos altos, proibição ao acesso da educação formal, impedimento de participação em eleições políticas, e mais determinante para o aspecto urbano: a aprovação da Lei de Terras de 1850 que impossibilitava a doação de terras decorrentes de utilização. Essa herança da divisão social do trabalho se eternizou para os dias atuais e de acordo com uma pesquisa do Instituto Ethos, realizada em 2016, pessoas negras ocupam apenas 6,3% de cargos na gerência e 4,7% em cargos executivos, embora representem 54% da população brasileira, de acordo com a pesquisa realizada pelo IBGE em 2015. A situação só se mostra diferente nas vagas de início de carreira ou com baixa exigência de qualidade profissional, como em nível de aprendizes (57,5%) e trainees (58,2%).
As teorias urbanísticas importadas de países fora da América Latina como Estados Unidos e países europeus evidenciam a tentativa de padronização espacial com modelos que surgiram em contexto político, ideológico e econômico diferentes do Brasil, que são reforçados e impostos pelo poder público e reafirmados e utilizados pelos interesses capitalistas
O espaço no qual a população pobre e negra se encontra na cidade é palco de violências e exclusões por parte do Estado que não garante infraestrutura adequada para se habitar essas regiões, se fundamenta em estereótipos étnicos para exercer o poder policial e assim constrói um imaginário de um retrato falado, nos colocando em reflexão acerca de quem seria o inimigo da insegurança urbana e se há regiões urbanas que são alvo de uma espécie de guerra privada. A música é uma expressão cultural muito presente no cotidiano Brasileiro, e neste artigo busca-se colocar em evidência as letras com estilo musical denominado RAP e FUNK, em particular da cantora MC Carol, mulher negra, nascida em Niterói no estado do Rio de Janeiro e moradora do Morro do Preventório, lugar este que no século XV era utilizado enquanto cemitério para enterrar os escravos mortos.
A expressão nas letras dos funks e raps é uma maneira importante de se pensar a realidade contada a partir de experiências vividas pelos próprios indivíduos pertencentes à realidade marginalizada, tendo em vista um lugar de fala, que ao mesmo tempo vinculam-se com o espaço do qual se fala (arredores da cidade) e a realidade social decorrente de fazer parte desse mesmo espaço. A reafirmação de uma suposta superioridade racial fundada no eurocentrismo, e a tentativa de adaptar o contexto brasileiro aos modelos urbanísticos europeus através da higienização e exclusão das práticas africanas do cenário da cidade, integram e constroem, ao mesmo tempo, uma subjetividade coletiva no sentido da insegurança urbana, nas simbologias advindas das regiões marginalizadas retratadas desta forma através de uma reflexão musical dos estilos periféricos como o rap e o funk, quanto uma segregação das regiões sem infraestrutura, que foram autofundadas já que não fazem parte do plano da cidade.
Isto posto, este artigo busca a reflexão de “novos elementos” que fazem parte da fundamentação das diferenciações socioespaciais que se desenham também como mecanismo legitimador de violência e genocídio contra o povo negro.
Palavras-chave: Colonialidade do poder; Superioridade racial; Diferenciação socioespacial; RAP; FUNK;




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* Souza
UNIVERSIDADE FEDERAL DA GRANDE DOURADOS UFGD. DOURADOS, Brasil