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Resumen de ponencia
As Ciências Sociais e os novos contextos de acesso à universidade: o desafio de ensinar

*Eduardo Jordão Araújo



Nas duas últimas décadas, a sociedade brasileira vem vivenciando grandes transformações no campo da educação formal, nos níveis fundamental, médio e universitário. Considerando apenas o período dos governos de Lula da Silva e Dilma Roussef, verificamos a formação de uma consciência nacional sobre a melhoria da qualidade do ensino e a efetivação do direito à educação para as classes sociais historicamente desassistidas pelo Estado, que passaram a constituir as chamadas novas ou emergentes classes e camadas sociais. Essas mudanças conformaram um novo cenário no ensino universitário, possibilitado principalmente por políticas públicas de inclusão social que favoreceram o acesso às universidades privadas (PROUNI e FIES) e levaram à reconfiguração do perfil dessas instituições de ensino. Nos propomos a refletir criticamente sobre algumas questões mobilizadas em uma pesquisa realizada no período de fevereiro a dezembro de 2015 e os resultados que foram obtidos até sua interrupção decorrentes de algumas das medidas do atual governo brasileiro. A pesquisa teve como base empírica a UNESA (Universidade Estácio de Sá), especificamente a disciplina Fundamentos das Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia e Ciência Política) nos cursos de Direito no campus Oscar Niemeyer, Niterói, RJ. Algumas variáveis conformaram esse cenário: interesse da UNESA em se integrar ao processo de generalização da educação superior; reconfiguração do perfil da demanda de alunos; tentativas de aperfeiçoar o método de ensino, visando superar as dificuldades de aprendizagem no início do curso e ampliar as chances dos novos alunos prosseguirem no curso de Direito; introdução de novos métodos e técnicas de ensino, como web aula e estudo de casos concretos; ampliação das atividades extracurriculares para sanar deficiências de formação dos alunos acumuladas em níveis de ensino anteriores de estudo (iniciação científica, eventos de pesquisa, oficinas de leitura e de reforço etc.); formação pedagógica e didática do corpo docente direcionada às tecnologias, métodos e técnicas; introdução no 1º período do Curso de disciplinas de natureza reflexiva e não aplicada, entre as quais, a de Fundamentos das Ciências Sociais. O Modelo de Ensino combina aulas presenciais com a utilização do sistema web aula, e supõe que o aluno realize um conjunto extenso de procedimentos on line prévios às aulas presenciais, para as quais deverá levar as respostas a casos concretos que postou no site. Na aula, o professor fará a revisão dos casos e os alunos revisarão seu trabalho. Partindo da observação em sala de aula, tentamos compreender os novos processos de ensino sob este conjunto de variáveis, particularmente suas dificuldades de implantação em relação aos novos sujeitos do ensino universitário. Privilegiamos os procedimentos metodológicos de ensino, enfocando a Metodologia do Estudo do Caso Concreto. A disciplina é ministrada no 1° período do curso e contempla conhecimentos da era moderna, destacando os clássicos das Ciências Sociais (Émile Durkeim, Max Weber e Karl Marx). Complementam seu escopo temas sociais contemporâneos associados à globalização. Os professores compartilham princípios norteadores: a disciplina é complexa e reflexiva; pluralismo teórico e metodológico; as Ciências Sociais são o modo de reflexão da vida social contemporânea; a aprendizagem é obtida pela prática da investigação empírica. Os objetivos específicos foram identificar e delinear a motivação, as possibilidades concretas e os modos de apropriação da inovação, pelos alunos, considerando suas características e aspirações, de forma associada à cultura do ensino tradicional de disciplinas dessa natureza; estudar particularmente a metodologia do caso concreto, a partir da aula presencial, com a mediação da relação com o professor; estudar o uso do recurso da internet no processo de aprendizagem, particularmente a web aula. O trabalho de campo foi planejado em dois movimentos. O primeiro englobou um estudo documental, a análise do material coletado em sala de aula e do postado no site e a observação sistemática das aulas ministradas, com registro da em um diário de campo, conformando uma etnografia do ensino da disciplina. O segundo, que não chegou a ser realizado, compreenderia entrevistas com alunos e professores e reuniões para aprimoramento da análise. Resultados. Grande parte dos alunos rejeita o uso das tecnologias de comunicação quando aplicadas ao ensino, sendo que muitos não acessam o Sistema, continuando a fazer cópias xerox dos planos de aulas. A postagem das respostas dos casos concretos com antecedência à aula presencial é pequena, ficando restrita à véspera da primeira avaliação, quando objetivam conquistar pontos. Quanto à motivação para adoção da metodologia, parte os alunos não concorda com a imposição de realizar atividades prévias à aula presencial, sendo que alguns só participam da revisão presencial dos casos; uma parte dos alunos copia as respostas dos casos de colegas, outra as retira integralmente dos livros ou da internet; os casos que devem ser entregues impressos no dia da avaliação são muitas vezes “colados” sem qualquer pudor, ou tentam entregar qualquer outro texto; como na 2ª. avaliação os casos não valem pontos, quase a totalidade dos alunos não segue mais o procedimento após a 1ª avaliação, na internet ou presencial; na 2ª avaliação, próxima ao final do período letivo, uma pequena parte de alunos demonstra que não sabe o que são os “planos de aula” e “casos concretos”. Com relação às possibilidades e modos de apropriação da inovação: na apreciação geral, o aluno não é “sujeito” da proposta metodológica; grande parte dos alunos se apropria de modo não previsto da metodologia, descaracterizando-a e tornando-a uma ferramenta da educação tradicional; a irregularidade da freqüência às aulas presenciais nos cursos noturnos e o comportamento inadequado de muitos também colaboram nesse sentido, assim como deixar de frequentar as aulas presenciais após a 1ª avaliação, caso se receba nota acima de 8.0; aos poucos que levam os casos à sala de aula, o professor só consegue “dar a resposta”, pelas limitações contextuais; as dificuldades de acesso adequado ao sistema on line, pelo precário funcionamento deste, mas sobretudo pela falta ou de equipamento pessoal ou de habilidade com processos semelhantes são importante fator de retrição à adoção da metodologia. Uma conclusão possível para uma pesquisa que não pôde chegar ao fim. Como afirma Bauman, “...a Sociologia é crítica; permanente ‘desconstrução’: a permanente busca da ‘boa sociedade’... solapa as bases das crenças populares da ‘necessidade’ e ‘naturalidade’ de coisas, ações, tendências e processos”. (2015,p. 36). Mas, no curso de Direito da UNESA, as Ciências Sociais são compreendidas como qualquer outra disciplina, sem percepção de sua natureza reflexiva e crítica. Mesmo que nas aulas tenha sido estimulada a reflexão crítica e não a memorização dos temas, as avaliações são vistas pelos alunos do mesmo modo que as das demais disciplinas do 1° período. As dificuldades vão se adensando por outros elementos. Um deles refere-se à forte presença de alunos evangélicos, circunstância que gera muita dificuldade para o entendimento das questões referentes ao social pela via científica e não pela explicação religiosa. Por outro lado, a análise da sociedade pelos alunos é realizada pelo senso comum, marcante e resistente na mentalidade social do alunado, tanto mais que parte destes são adultos e possuem antigos preconceitos sociais cristalizados. Por sua vez, os alunos jovens raciocinam dentro de parâmetros contemporâneos, conformados no quadro do pensamento neoliberal. A experiência e a observação sistemática nos permitem afirmar que as Ciências Sociais conquistam a rejeição prévia de parte dos alunos por razões ideológicas. Temas como desigualdade social, cultura afro-brasileira e políticas públicas afirmativas de acesso à Universidade por camadas sociais historicamente excluídas são objeto da rejeição por alunos da classe média tradicional, bem como por parte dos alunos situados nas camadas emergentes. As análise e explicações de fundamento biológico sobre o cultural e o social se mostram muito mais atraentes para os alunos, surgindo como mais “aceitáveis”, face à sua formação religiosa e posição de classe, incluindo-se aí os emergentes e excetuando-se uma parte pequena das alunas, por trazerem alguma discussão prévia sobre questões feministas. As Ciências Sociais ainda não conquistaram ante os alunos, a importância e legitimidade devida no conjunto das disciplinas do curso de Direito, mesmo diante da explicitação ampliada ultimamente da sua importância para a formação humanista do profissional do Direito. Acrescentamos que os alunos de camadas mais desfavorecidas são mais sensíveis as disciplinas instrumentais que os conduzam mais rapidamente a um estado de maior empregabilidade no mercado de trabalho, tendo uma expectativa de “receber” uma educação formadora e instrumental que o favoreça no mercado. Esta educação seria a do “saber fazer” e não a do “refletir sobre”, para a qual as Ciências Sociais se propõem. Essa situação é acentuada por dois outros fatores, sendo um de ordem pragmática mas também social, que é o acesso desigual à internet, entendendo acesso como dispor de equipamentos, mas também de desenvolver habilidades de manejo. O outro, de ordem político-epistemológica, aponta para valores neoliberais imperantes na sociedade contemporânea, que dão suporte à mentalidade mercantil na educação universitária (créditos, recompensas, troca de bens intangíveis, metas, entre outros), vigorando em todo o ensino, mas de forma acentuada nas universidades particulares, que se constituem também um empreendimento econômico e se pautam mormente pela busca do lucro. Estes valores dão forma ao ensino– aprendizagem e a relação entre o professor e os alunos, mesmo se tratando do ensino das Ciências Sociais.




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* Araújo
Universidade Estácio de Sá (docente aposentado) UNESA. Niterói - RJ, Brasil