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Resumen de ponencia
DECOLONIZAR A RELAÇÃO ENSINAR/APRENDER: DIÁLOGOS INTEREPISTÊMICOS ENTRE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE. AS EXPERIÊNCIAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE E UNIVERSIDADE FEDERAL DO SUL DA BAHIA

*Elisa De Campos Borges
*Fabiana De Souza Costa
*Francisca Marli Rodrigues De Andrade



Na última década, o cenário educacional brasileiro passou a integrar grupos sociais que, historicamente, estiveram às margens do sistema educativo universitário. Esta integração reconfigurou o espaçotempo universitário e, portanto, desafiou a universidade a questionar as heranças do processo de invasão, apropriação e violência, mais conhecido na historiografia como colonização. Entre tais heranças, destacamos as influências eurocêntricas nas formas de pensar, planejar e executar projetos de ensino-aprendizagem. Este processo revela as violências epistêmicas que são orquestradas por meio da seleção e esquematização dos saberes que são considerados válidos, na medida em que outros são marginalizados e aniquilados em todas as suas formas e expressões culturais.
Em resposta a esta violência, docentes, vinculados a diferentes departamentos e faculdades da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), tem promovido diversas atividades de ensino e extensão voltadas à promoção de diálogos interepistêmicos. Tais diálogos se inscrevem no âmbito do projeto “Encontro de Saberes” da UFF e na realização do “1º Fórum Social: universidade e sociedade em diálogo” da UFSB, cujas propostas de caráter interdisciplinar tem o objetivo promover a inclusão de mestres das artes e ofícios dos saberes tradicionais, como professores colaboradores, em atividades de ensino.
O Encontro de Saberes, criado em 2010 por iniciativa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa (INCTI), tem como meta propiciar um espaço de experimentação pedagógica e epistêmica no ensino capaz de inspirar resgates de saberes e inovações que beneficiem a todos os envolvidos – estudantes, mestres e professores. A partir do reconhecimento de que existem distâncias abissais entre os saberes tradicionais e o mundo acadêmico. O primeiro, saberes tradicionais, têm na oralidade sua forma máxima de expressão, uma vez que se constituem enquanto resultado das experiências construídas pelas civilizações ágrafas. O segundo, mundo acadêmico, inspirado nas universidades ocidentais modernas, ressalta o letramento como forma de expressão. Nessa dialética, a proposta do Encontro de Saberes é possibilitar o encontro entre esses dois saberes. Nesse sentido, na Universidade Federal Fluminense, no primeiro semestre de 2017, foram ofertadas duas disciplinas optativas, a citar:
- Narrativas subjetivas e Encontro de Saberes - composta pelos seguintes módulos: Corpo e Espiritualidade no Terreiro ministrada por mães e pai de santo; Corpo e Espiritualidade no Jongo, a cargo de jongueiros e quilombolas; Corpo e Espiritualidade Mbyá ministrada pelos guarani de Araponga; Saberes e Fazeres Caiçaras ministrada por caiçaras da Praia Grande da CajaíbaExpressões e Performances - ministrada por mestres do cordel, dos toques de atabaque e do Reisado.
A oralidade, as narrativas sobre as histórias de vida longa que se remetem aos ancestrais, o canto, a dança, a presença do corpo, o instrumento musical, o aprender dos ofícios foram as metodologias desenvolvidas pelos mestres que transformaram a sala de aula, sempre disposta em roda, em lugar de escuta sensível de suas tradições. Tal espaço engendra novas epistemologias do ensinar/aprender e tensiona, em busca de diálogo, a epistemologia única, pautada somente na razão, em voga nas Universidades que perpetua a colonialidade do saber ao invisibilizar, silenciar e menosprezar outras matrizes do conhecimento.
A UFSB, por sua vez, buscou a partir da realização do 1º Fórum Social da UFSB, em 2015, um espaço de diálogo para reflexões, debates, formulações de propostas, troca de experiências e articulações entre a comunidade universitária, movimentos sociais, entre outros. A base conceitual da UFSB incorpora a ecologia de saberes no seu projeto político-pedagógico através da promoção de diálogos entre saberes científicos ou humanísticos produzidos no âmbito da universidade e saberes populares, tradicionais, urbanos, camponeses, das favelas, provindos de diversas culturas que circulam na sociedade e igualmente a compõem.
Como resultado do 1º Fórum Social, foi eleito um Conselho Estratégico Social, formado por diversos representantes da sociedade civil organizada. A partir desta aproximação da universidade e a sociedade, várias iniciativas dos docentes vêm sendo tomadas no sentido de manter o diálogo, a troca de experiências e a aproximação com as realidades das comunidades tradicionais da região, através de projetos de extensão, componentes curriculares que discutam integração social, luta pelo território, elaboração de políticas públicas e garantias de participação social nos espaços acadêmicos da UFSB.
Assim, esta comunicação tem como objetivo refletir e demonstrar pontos comuns das experiências de duas universidades importantes do Brasil que estão atuando, apesar de caminhos distintos, para superar o desafio incluir o diálogo dos múltiplos saberes e, deste modo, romper com a tradicional forma de construção do conhecimento nas Universidades. As práticas de ambas as universidades, seja por meio do Encontro de Saberes na UFF, seja por intermédio do Fórum Social da UFSB, buscam desarticular os processos de violências epistêmicas orquestrados a partir da seleção e esquematização dos saberes para, então, promover diálogos interepistêmicos.
A relevância de tais diálogos se materializa em respostas a necessidade de refundar, sobretudo, as práticas pedagógicas e os currículos educativos, de modo a respeitar a presença das comunidades tradicionais, campesinas e de outras minorias na universidade. Compreendo que esta presença deve ir além da representatividade física, deve, portanto, integrar os saberes e as práticas culturais. Mas desta vez, não na condição de objeto de pesquisa, ao contrário, enquanto protagonistas em um processo de transmissão dos seus saberes, da sua língua, da dignidade, da liberdade, da sabedoria e da paz dos povos/etnias/nacionalidades ancestrais.




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* De Campos Borges
Universidade Federal Fluminense - UFF. Niterói, Brasil

* De Souza Costa
Universidade Federal do Sul da Bahia. Ilheus - Bahia, Brasil

* Rodrigues De Andrade
Universidade Federal Fluminense.. Niterói, Brasil