Após a implementação da política de reserva de vagas (Lei de cotas n° 12.711/ 2012) expressa em políticas de reserva de vagas para pretos e pardos em instituições públicas e privadas, houve um aumento significativo de organizações de estudantes(as) negros(as) dentro das universidade brasileira. É notório observar que mesmo através da aprovação da Lei são poucos aqueles estudantes negros(as) que conseguem ultrapassar barreiras para acessar o ensino superior e permanecer nele, possibilitando assim, sua ascensão social. Esses estudantes ao ingressarem na universidade se deparam com um espaço que ainda privilegia concepções elitistas e eurocêntricas, com isso, relatam um sentimento de não pertencimento a este local. O racismo institucional, simbólico, estrutural e epistemológico, por exemplo, tem se manifestado de maneira recorrente dentro das universidades. E ao tomar consciência dessas situações existentes, que ultrapassam também a instituição universitária, os estudantes vêm tornando-se negros, posicionando-se, organizando-se coletivamente, de maneira multiforme e com demandas multifacetárias, e desafiando a estrutura das universidades, espaço esse, que produzem e perpetuam relações sociais racializadas.
Para Silvério (2009, p.35) “[...] as políticas de ação afirmativa respondem à demanda por reconhecimento articulada pelos movimentos sociais não tradicionais, isto é, que têm por fundamento uma identidade cultural”. Neste sentido, as universidades brasileiras ainda presas a uma concepção eurocêntrica de mundo, privilegiando um tipo de conhecimento em relação à outro, estão sendo desafiadas a contemplar uma educação mais ampla. A presença de estudantes negros nas universidades brasileiras expõe a complexidade das relações raciais no Brasil, questionando a cultura acadêmica. A emergência dos coletivos de estudantes negros dentro das universidades é um indicativo de que esses grupos, consequentemente dos indivíduos a ele pertencente, sofrem com o que o Silvério (2009) chama de “déficit de cidadania”, que estimula assim, a ampliação de suas organizações por demandas específicas. Ainda, como esclarece Santos (2010), temos o pensamento da população negra saindo da condição de invisibilidade, passando a uma “copresença radical” em termos de igualdade, conforme preconiza a ecologia de saberes.
Entende-se então, que são nessas relações de diferenças, conflitos e exclusões que a identidade é construída. Trata-se de um processo em constante movimento, construído gradativamente em diversos momentos no tempo e no espaço e que se transforma a partir das relações, dos interesses, ou mesmo do contexto em que se encontra. Ou seja, a identidade não é construída de forma isolada, pois para que essa construção ocorra, pressupõe a socialização entre os indivíduos. E, é esse movimento que faz com que eles tenham uma ideia de si mesmo. Convém ressaltar que Souza (1983, p. 17) analisa que “a descoberta de ser negro é mais que a constatação do óbvio”, a autora ainda afirma que “ser negro não é uma condição dada a priori. É um vir a ser. Ser negro é tornar-se negro” (Souza, 1983, 77). Nesse sentido, torna-se negro não diz respeito apenas à questão da cor, pois é também uma questão de posicionamento político.
Sendo assim, mediante esse crescimento dos coletivos de universitários(as) negros(as) no contexto das chamadas políticas de ações afirmativas, provoca-se o questionamento de como e de que maneira as experiências, memórias, crenças e tradições que são compartilhadas por estudantes membros de coletivos de universitários(as) negros(as) são produzidas e reproduzidas. Ainda, parafraseando Hall (2009), no título dado a um dos seus trabalhos, Que negro é esse na cultura negra?. O autor chama atenção para as diferenças existentes dentro da cultura negra. Portanto, a identidade não pode ser vista como algo fixo e imutável, ela está em constante processo de transformação e é construída mediante a socialização entre os sujeitos. Nosso propósito é buscar compreender o que ocorre neste processo de socialização (caracterizar as práticas e experiências socializadoras), tendo em vista que estão cada vez mais heterogêneas as novas formas de socializar. Além disso, os coletivos de universitários negros estão situados nos fluxos de mobilização política dentro do que podemos chamar de atlântico negro (GILROY, 2012), que, embora a literatura seja local ou regional, ela está informada de movimentos transnacionais.
Para tanto, trata-se de uma pesquisa em andamento, que busca analisar os processos de socialização e de (re)construção da identidade, a partir da organização e da inserção de estudantes em coletivos de universitários(as) negros(as) em universidades localizadas na região Sudeste do Brasil. Em especial, os coletivos criados na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tendo em vista, que estes participaram da organização do I Encontro Nacional de Estudantes e Coletivos Universitários Negros (EECUN), que aconteceu entre 13 e 15 de maio de 2016 n UFRJ e que teve por objetivo discutir o acesso e a permanência da juventude negra nas universidades brasileiras e contou com a participação de mais de 2 mil graduandos e pós-graduandos, majoritariamente de universidades públicas, e que foi organizado por 15 coletivos de universitários(as) negros(as) de diferentes regiões do Brasil.
De forma a atender os objetivos propostos, o estudo será desenvolvido com base em abordagem qualitativa, privilegiando, assim, a perspectiva etnossociológica (BERTAUX, 2010), por combinar os estudos etnográficos (estudo de campo e observação) com os estudos de caso. Realizarei entrevistas do tipo narrativas de vida com as lideranças dos coletivos. Também recorrerei aos novos meios de comunicação, tais como Facebook e Whatsapp, que servirão como uma ferramenta de apoio, principalmente para a comunicação e para as análises dos dados.
REFERÊNCIAS
BERTAUX, Daniel. Narrativas de vidas: a pesquisa e seus métodos. Natal, RN: EDUFRN. São Paulo: Paulus, 2010.
BRASIL. Constituição Federal de 1988. Lei n° 12.711, de 29 de agosto de 2012. Dispõe sobre o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio e dá outras providências. Brasília, DF. Disponível em: . Acesso em: 07 abril 2016.
GILROY, Paul. Atlântico negro: modernidade dupla consciência. São Paulo: Ed. 34; Universidade Candido Mendes, centro de Estudos Afro-Asiaticos, 2013.
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. 1° edição atualizada, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009.