O objeto de trabalho é a renovação urbana da Região da Luz, centro de São Paulo, formada em torno das infraestruturas ferroviárias, espaços públicos e especificidade metropolitana de seu patrimônio construído. Não é uma definição de um perímetro urbano determinado. Busca-se reconhecer o conjunto de interações socioambientais, atividades econômicas, formas de uso e ocupação, representações, que instituem fronteiras maleáveis, transitórias, de acordo com cada momento da análise; identificadas pelos distritos da Luz, de Santa Ifigênia e imediações do Bom Retiro e Campos Elísios. Esta região é alvo de diversos planos de renovação urbana desde os anos 1970, que visam reverter o processo de degradação socioespacial.
Contudo, a partir do século XXI, esses planos convergem por suas formas de atuação: reestruturação espacial a partir do imbricamento entre incorporação e infraestrutura a ser realizado por meio de parcerias público privadas, que centralizam capitais produtivos (real), improdutivos (fictício) e Estado (leis, financiamentos, monopólio do uso da violência). Orientam para a constituição de um complexo imobiliário financeiro. Porém, apesar de estratégias arquitetônicas e urbanísticas conceberem diferenciações formais para diferenciações sociais, sua «verdade» é a viabilidade econômica: o «direito à moradia» como direito à propriedade. A Região da Luz é uma situação exemplar na medida em que nos permite avaliar diferentes níveis e dimensões, além de materializar um movimento histórico em sua constituição. Na atualidade, ilumina-se a ênfase posta na propriedade imobiliária e financeira, que se torna a base desses planos urbanos, realizados através de contratos de parcerias público privada, que permite a acumulação capitalista por meio de rendas capitalizadas: uma ênfase na propriedade em relação a produção do espaço e do valor.
Deste ponto emergem problemas a serem refletidos. Do ponto de vista teórico, a coalizão e a disputa entre as propriedades de capital e terra, pelo domínio sobre o trabalho e pelo predomínio sobre as formas de acumulação capitalista, formam a contradição que estrutura o movimento. Nesta relação dialética, de coalizão e de disputa, emergem fissuras que devem ser abertas pela luta social, formando um problema do ponto de vista político. Contudo, esta ação política deve se libertar de concepções que emergiram em outro contexto, que foram tomadas pela atual reprodução do capital, tornando-as inócuas ou instrumentos que dinamizam a reprodução. Neste ponto se indaga se a experiência cotidiana decorrente da resistência aos processos espoliativos (imobiliário e financeiro) poderia assegurar uma tomada de consciência e a formação de uma classe social na ordem do espacial, que se coloca virtualmente em oposição à reprodução capitalista.
Assim, deve-se problematizar esta experiência, acentuando aspectos relativos às formas de avaliação da urbanização e da metropolização. A partir da crítica a dualidades na forma de pensamento. Como decorrência, os conflitos que emergem a partir das formas diferenciais de relação à atuação do Estado, representados ora como «espaço da ausência», ora como «espaço da presença». A onipresença do Estado se realiza de modo desigual, em função das desigualdades sociais, das formas de instrumentalização do próprio Estado e das diferenciações espaciais. Portanto, necessário compreender as diferenças em movimento e em complementariedade. Como seria a constituição de um «espaço da esperança», orientado pela resistência, pelo projeto, pelo devir? O direito à cidade, como construção que se avizinha. Problematizações que se colocam à efetividade da experiência, que orienta a ação crítica, prática e teórica.
A experiência histórica da urbanização, visto a partir do contemporâneo, conforme método «regressivo-progressivo» exposto em A Revolução Urbana (Henri Lefebvre), nos permite reavaliar certas concepções acerca da transformação do espaço urbano e da metrópole. As formas de produção, suas estruturas, bem como as formas de uso (o consumo), são momentos que se alteram ao longo do tempo e em função das dinâmicas de acumulação capitalista. Por sua vez, estas mudanças se relacionam às práticas políticas na e da produção do espaço, como movimentos da reestruturação, nem sempre lineares, mas quase sempre contraditórios. Neste movimento, estas práticas aproximam ou distanciam classes sociais e suas frações, como coalizões, efêmeras ou mais longevas, que são definidas em função das diferentes oportunidades constituídas no processo da metropolização.
No interior da reavaliação dessa experiência de mudanças situam-se lutas sociais e os chamados «movimentos sociais urbanos» com seus alcances distintos. Problema que se ilumina desde que a reflexão sobre a produção do espaço se oriente para o campo da emancipação social, ou seja, para além da totalização da técnica, da cultura ou da historiografia que hipostasiam a totalização de suas relações como formas das relações sociais mais amplas. Sob o ponto de vista social, as «lutas» e os conflitos sociais decorrentes, mais do que realizados no urbano, concebido como palco de diversos conflitos legítimos e que afetam a vida de milhares de cidadãos, devem ser pensados como processos específicos próprios da realização do urbano, iluminando a especificidade que se estabelece entre formas de produção do espaço, a dimensão política destes conflitos em movimento e a acumulação de capital. Nesse sentido, as concepções usuais devem ser desviadas, seja em função de sua inadequação crítica à prática e teoria frente à reestruturação contemporânea (política, econômica, espacial), seja em função dessas mesmas concepções produzirem o reverso de suas reinvindicações, isto é, ao serem apropriadas para «azeitar a máquina» do crescimento econômico, baseado na desigualdade social (e que tem expressão e se apropria da diferenciação espacial).
A «máquina do crescimento» orienta a concentração de renda e acentua a precariedade (socioespacial) que as motivou de princípio. Nesse caso, desviar não significa negar em absoluto essas teorias e práticas, significa que, embora elas sejam necessárias, não se mostram suficientes para implicar, refletir e agir criticamente. Por outro lado, o desvio permite o reconhecimento de outras práticas e teorias, bem como a reavaliação das mesmas experiências históricas – por vezes consideradas como inócuas ou residuais pelo pensamento corrente – para que se possa vislumbrar estratégias de efetiva resistência aos processos contemporâneos de exploração da força de trabalho e de espoliação do cidadão, bem como, eventualmente, iluminar a superação das contradições próprias do capitalismo. Neste sentido, na discussão aqui proposta parte-se da concepção de que a diferenciação da metrópole – nos termos da relação entre sua morfologia e as práticas sociais, constituintes de uma nova dimensão socioespacial, portanto – se coloca como a totalidade dos conflitos e contradições na perspectiva da produção do espaço, onde a reflexão e a ação buscam superar um conjunto de «razões dualistas» que, em certo sentido, autonomizam arbitrariamente suas partes separadas (mas que dialeticamente se relacionam). Essa autonomização obscurece um nível mais amplo de produção e reprodução social, que nos impediria a crítica e a prática em seu conjunto reflexivo. No que se refere à perspectiva crítica da produção do espaço e, em particular, da arquitetura e do urbanismo (concepção, percepção e vivência do espaço), esta autonomização enfeitiça ao fetichizar «recortes espaciais», dramatizando esta autonomia. O «perímetro de estudo», seja arquitetônico ou urbanístico, figura-se aos nossos olhos «enfeitiçados» como se fosse agente independente das relações sociais de produção mais amplas. Problema que é acentuado na contemporaneidade na medida em que estas mesmas relações, em função dos modos de produção e reprodução social – das relações econômicas, culturais e etc. – se realizam em escala urbana planetária.