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Resumen de ponencia
Conhecer e fazer mapas de outro modo: a dimensão educativa na extensão universitária comprometida.

*Maria Damas



Conhecer e fazer mapas de outro modo:
Ao vivenciar diversos momentos de construção de mapeamentos coletivos pude constatar que o mapa é uma ferramenta que permite muitas reflexões e que precisa continuar sendo apropriado por outros sujeitos possibilitando o reconhecimento dos territórios e práticas, isto é, de outras geografias. É nesse sentido que caminha o meu trabalho, entender esses processos de mapeamento e, em que medida eles auxiliam na formação dos sujeitos envolvidos, me situando como envolvida também nesses processos.
Partindo de uma crítica à cartografia oficial e pensando em construir outras narrativas para além dos discursos globalizantes, é que se faz importante situar que existem outros modos de conhecer e fazer mapas. E é nesse contexto/momento de ruptura que afloram alternativas e possibilidades de cartografar outras geo-grafias, questionando o discurso hegemônico e eurocêntrico mostrando que outra cosmovisão é possível.
Essas alternativas consistem em dar um novo significado e subverter a maneira de como enxergamos e compreendemos as formas de mapeamento. E nesse sentido, essas alternativas (cartografia crítica; cartografia social; descartografia; cartografia radical; entre outras) se colocam como “ativismos cartográficos” (SANTOS, 2011) ou como escolhi denominar, Mapativismo .
Essas cartografias não são neutras e nem desinteressadas, pois a reflexão a partir do mapa possibilita aos sujeitos enxergarem-se no território, subvertendo a maneira de como olhamos e compreendemos os mapeamentos. E nessa perspectiva, compreendendo que os mapas não são apenas meras representações territoriais, o mapa é concebido como instrumento potencial para gerar reflexões e construir continuidades, pois a cartografia é uma linguagem de poder estratégica que ao longo de muito tempo tem sido institucionalizada e homogeneizada e por isso esses mapeamentos são considerados uma forma de ação política (ALONSO e YSUNZA, 2016).

Projeto de extensão Cartografias Participativas como Metodologia de Aproximação a Conflitos Territoriais:
O Enconttra, Coletivo de Estudos Sobre Conflitos pelo Território e Pela Terra, coordenado pelo professor doutor Jorge Ramón Montenegro Gómez, é situado em Curitiba no departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná. O Coletivo é formado por estudantes de graduação, pós-graduação e professores e busca compreender e analisar as dimensões dos conflitos relativos à apropriação da terra do território caminhando num diálogo entre pesquisadores, entendendo as comunidades como sujeitos de direitos nesses processos.
A partir de demandas das comunidades, deu-se início ao projeto de extensão Cartografias Participativas como Metodologia de Aproximação a Conflitos Territoriais, desde 2011, que busca construir cartografias sociais e oficinas de mapeamento coletivo refletindo sobre a produção do espaço a partir dos conflitos pela terra e território vivenciados pelos Povos e Comunidades Tradicionais, mulheres do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), estudantes de universidades e escolas públicas.

Colonialidade do saber:
Entendemos que o ensinar e aprender a partir da geografia e do mapa precisa partir de uma construção coletiva com esses sujeitos. E as experiências com as cartografias auxiliou a visualizar e materializar geo-grafias e, portanto, a fazer emergir outras formas de ser e estar no mundo, e assim, a caminhar na construção de uma Geografia Popular voltada para a justiça sócio territorial.
É necessário ter em mente que o conhecimento científico não é neutro ou deslocalizado, e que “a colonialidade do saber produz a invisibilidade do outro, expropriando-o de sua possibilidade de representação e auto representação” (Cruz, 2017). Temos que pensar em outros espaços educativos, aprendizagens e saberes, partir de uma honestidade epistemológica com os sujeitos, articulando diversos elementos e formas de conhecimento que foram apagados e rejeitados, isto é, “excluídos del mapa moderno de las epistemes por habérse les considerado “míticos”, “orgánicos”, “supersticiosos” y “pre-racionales”.” Porém esse diálogo de saberes só é possível com a descolonização da Universidade (como produtora de conhecimento), ou seja, “decolonizar el conocimiento significa descender del punto cero y hacer evidente el lugar desde elcual se produce esse conocimiento” (CASTRO-GOMEZ, 2007).
Descolonizar o saber implica na capacidade de dialogar com diferentes formas de ver o mundo, de complementar o conhecimento sem hierarquizar. Desde as experiências com as comunidades pude compreender que conhecemos de diferentes formas e a partir das nossas relações com o mundo. Pois “no processo de aprendizagem, só aprende verdadeiramente aquele que se apropria do aprendido, transformando-o em apreendido, aquele que é capaz de aplicar o aprendido a situações existenciais concretas.” ou seja, “o homem é um ser da “praxis”; da ação e da reflexão”. (Freire, 1969)
Nesse sentido, constato que os processos de educação não formal que vivenciei para além dos muros da Universidade são igualmente constituintes e importantes em minha caminhada de formação como educadora e geógrafa.




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* Damas
Programa de Pós-graduação em Geografía. Universidade Federal do Paraná - PPGGeo/UFPR. Curitiba, Paraná, Brasil