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Resumen de ponencia
A FORMAÇÃO CRÍTICA E METODOLÓGICA DO COLETIVO CO-GESTOR DO INSTITUTO CAMARÁ CALUNGA – PARTICIPAÇÃO E ATIVISMO POLÍTICO JUVENIL

Instituto Camará Calunga - ICC (Brasil)

*Cássio Vinícius Afonso Viana
*João Carlos Guilhermino Da Franca
*José Eduardo Gama Noronha



Si los hombres fueran ETERNOS,
(como TODOS lo quisieran... i Yo el primero)
sus costumbres serían invariables.
PERO
UNOS MUEREN I OTROS NACEN,
Empiécese, con ellos, a hacer UNAS, DIFERENTES...
de las que dominaban a sus Abuelos,
i de las que dominan a sus Padres.
- Simon Rodríguez

O Instituto Camará Calunga é uma organização da sociedade civil, com forte mobilização comunitária em articulação com as políticas públicas, por meio de metodologias de convivência e formação política com crianças e adolescentes para garantia de seus direitos humanos, na cidade de São Vicente, Baixada Santista, São Paulo, Brasil. Tem por missão institucional a promoção e a defesa dos direitos humanos, especialmente de crianças e adolescentes, nos diversos lugares e territórios em que vivem, produzindo experiências referenciais de cuidado, formação crítica, pesquisa, intervenção, que indicam na formulação de políticas públicas de infância e juventude. Tem seu trabalho aliado a Convenção dos Direitos da Criança (BRASIL, 1990) e ao Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990).
Desde sua fundação, em 1997, investe profundamente na importância de integrar as instâncias de formulação e controle social de políticas públicas, bem como contribuir com a construção de referências metodológicas e educação permanente de trabalhadores e educadores sociais.
Tem ainda a participação e composição nos Conselhos de Políticas Públicas como estratégia de integrar e conectar as experiências produzidas pelas crianças, adolescentes, jovens e suas famílias, em seus territórios, aos debates e formulações da política pública municipal e estadual, além de estar filiado a redes nacionais e internacionais e trabalhar diariamente na formação política de crianças e jovens para que ocupem e pautem esses espaços a partir de suas experiências.
Estas metodologias foram reconhecidas e premiadas pelo Prêmio Nacional do Movimento Nacional dos Direitos Humanos – MNDH (2015) e pelo Prêmio Itaú-Unicef Educação Integral (2017). Cria-se, nos anos de 2016 e 2017 neste Instituto um dispositivo de formação e gestão chamado “Coletivo Co-Gestor” no qual adolescentes e jovens passam por um processo de formação política para assumir gradualmente a gestão do Instituto Camará Calunga, juntamente com outros dispositivos de gestão da organização.
Compõe os eixos de formação deste coletivo a experiências que busquem com que os adolescentes e jovens tenham um olhar crítico no que diz respeito à análise de suas vidas, trajetórias e territórios, ao conhecimento e apropriação do sistema político brasileiro, da histórica política do país como ainda da situação contemporânea latino-americana.
Esta Escola de Formação Política para os adolescentes do coletivo “Co-Gestor” tem como norteadores os conceitos e métodos de co-gestão, o que implica a participação destes adolescentes nas questões que dizem respeito a análise da instituição e dos processos de tomada de decisão que nela acontecem (Campos, 2000) e o de grupo operativo, no qual a partir do direcionamento a uma tarefa comum (a formação crítica), o grupo analisa e problematiza sua dinâmica e os papeis grupais e sociais que ocupam seus integrantes (PYCHON-RIVIÈRE, 2009). Metodologicamente, a Escola de divide em três eixos, que acontecem três vezes na semana por um período de 3 a 4 horas. O primeiro eixo “História e formação de sociedade” se dedica a compreender historicamente como a sociedade se constituiu e se constitui atualmente, quais lutas foram travadas nessa história e que movimentos podem inspirar as lutas contemporâneas, a partir de uma perspectiva materialista e dialética, o segundo eixo “América Latina” se propõe a aproximar os adolescentes da história, cultura e arte latino-americana através da língua espanhola, isto é, encontros que acontecem em língua espanhola a fim de oferecer espaços de convívio e aprendizagem de uma outra língua e a riqueza cultural latino-americana, revelando as veias abertas produzidas pelo colonialismo e o neocolonialismo, bem como a história e potências comuns dos povos heterogêneos que aqui vivem. O terceiro eixo “Cuidado” se responsabiliza por realizar um processo de cuidado grupal, no qual os integrantes se reúnem semanalmente para compartilhar as dificuldades e as potencias que encontram na formação e em suas vidas diárias nos territórios, tendo, portanto, um espaço de compartilha de seus desejos, sofrimentos e experiências, no acolhimento dos efeitos dessa formação e na produção de conhecimento a respeito desta experiência metodológica, conforme “(...) não deixar a ciência psicológica alheia às lutas sociais; rejeitar e revisar criticamente os conceitos que são instrumentais para a reprodução do status quo; e construir uma nova Psicologia, adequada à luta histórica pela edificação de um mundo novo.” (LACERDA JR, F. 2017, (org.) p. 15).
O processo de formação crítica e política de adolescentes no Instituto pela luta de garantia de direitos humanos da infância e juventude tem sido marcado por trajetórias de meninas e meninos que vivem as violações de direitos diariamente em seus territórios e encontram neste coletivo lugares de existência e de fortalecimento comunitário e subjetivo, que são, necessariamente, disparadas pelas suas experiências e convivência.
Estes sujeitos convidam à leitura de que suas experiências têm de pautar a centralidade da luta política contemporânea, e a partir daí, des-centrar as instituições e o entendimento de democracia representativa. Historicamente, promover um marco para movimentos de lutas pautadas em trajetórias, amparadas pelas experiências já vividas e com o objetivo de garantir outras, através de acesso e de políticas públicas afirmativas destes lugares.
Não somente no campo do sujeito, esta experiência convida a pensar que as trajetórias coletivas são um instrumento para fortalecer a formação de movimentos sociais cada vez mais heterogêneos E, também, estes espaços coletivos podem apresentar campos de atuação e de pesquisa que coloquem as ciências sociais para a dialética da formação subjetiva de sujeito e novas propostas de organização de sociedade, sendo provocadas pela complexa tarefa de decolonizar estas dimensões (SANTOS; MENESES, 2010).
Acompanhar as trajetórias desses adolescentes nos espaços comunitários e coletivos que os formam para o ativismo político pode gerar potentes contribuições mútuas entre os movimentos sociais e os espaços acadêmicos, fortalecendo alianças para a transformação de sociedade.

Referências:
BRASIL. Promulga a convenção dos direitos da criança. Decreto nº 99.710. 21 de novembro de 1990.
BRASIL. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Lei nº 8069 de 13 de julho de 1990.
CAMPOS, G. W. Um método para análise e co-gestão de coletivos: a construção do sujeito, a produção de valor de uso e a democracia em instituições: o Método da Roda. São Paulo: Hucitec, 2000.
MARTIN-BARÓ, I. Crítica e Libertação na Psicologia: estudos psicossociais. LACERDA JR, F. (Org). Vozes: Petrópolis, RJ. 2017.
PICHON-RIVIÈRE, E. O processo grupal. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
SANTOS, B. S; MENESES, M. P (orgs.). Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010.








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* Vinícius Afonso Viana
Instituto Camará Calunga - ICC. São Vicente, Brasil

* Guilhermino Da Franca
Instituto Camará Calunga - ICC. São Vicente, Brasil

* Gama Noronha
Instituto Camará Calunga - ICC. São Vicente, Brasil