Na América Latina as experiências de colonização e formação dos Estados foram diversas. O caso estudado é o paraguaio, especialmente pela sua forte identidade étnica e esforços para alcançar igualdade de gênero, apesar da sociedade patriarcal. Questões históricas anteriores e posteriores ao colonialismo moldaram a maneira como o Estado atua frente a demandas sociais e pressões internacionais. Dessa forma, se constituem os objetivos estatais e, para persegui-los, cabe distinguir quais são as capacidades estatais, bem como o nível de autonomia governamental na tomada de decisões. Diversos Estados, principalmente os latino-americanos, buscaram e/ou buscam o desenvolvimento, seja enquanto sinônimo de crescimento, seja associado ao bem-estar social. O Paraguai, contudo, possui desafios se não anteriores, ao menos simultâneos ao esforço de se desenvolver. Entre eles, está a sociedade patriarcal e a pouca experiência em formulação e implementação de políticas públicas sensíveis ao gênero. Para tanto, este estudo procura identificar as capacidades estatais e a autonomia do Paraguai ao implementar políticas públicas sensíveis ao gênero, no sentido de representação feminina em esferas de poder, considerando sua formação histórica e sociedade patriarcal. O patriarcado existente antes mesmo da colonização, foi reforçado com esta. A partir de então, a construção do Estado paraguaio se deu pautada na não inclusão da mulher na vida pública, cabendo a esta apenas os espaços domésticos e privados. Os primeiros esforços para desfazer esses estereótipos de gênero ocorrem apenas a partir de 1908, quando as mulheres puderam assumir alguns cargos públicos. A luta pela igualdade de direitos originou diversas associações e ligas. No entanto, foi interrompida com a ditadura miliar paraguaia, que durou de 1954 a 1989. Esse panorama só começou a se alterar nos últimos anos do regime autoritário, já no início da década de 1990. A sociedade civil também cumpriu seu papel. Ainda inspiradas pelas participações em eventos mundiais, na Assembleia Nacional Constituinte, entre 1991 e 1992, houve intensa mobilização das mulheres para se inserirem no processo de redemocratização do país. Alguns avanços, seguidos de retrocessos marcaram a busca pela igualdade de gênero das paraguaias. O Paraguai, enquanto Estado, somente começou a considerar a igualdade de gênero e, especificamente, o protagonismo na mulher na esfera pública a partir de 1996. Sob pressão de movimentos sociais nacionais e internacionais, o governo ratificou Convenções e Documentos internacionais. Estes, portanto, passaram a ser traduzidos em políticas públicas que, por fim, foram implementadas aos poucos nas últimas décadas. O modo como se procederá depende da sua capacidade de mobilizar os elementos necessários para colocar suas decisões em prática efetiva, eficiente e sustentavelmente. No entanto, é preciso uma estrutura interna e um aparato governamental significativo. Parcerias internacionais e articulações do aparato governamental foram relevantes para que estas se tornassem políticas estatais, ou seja, aplicáveis em longo prazo. Mudanças estruturas, contudo, ainda não ocorreram. Embora tenha autonomia para formular e implementar políticas, há condicionantes, fragmentações e relativizações que impedem que seja exercida em prol da igualdade de gênero. Isso significa apenas que há muito a ser feito, especialmente porque há capacidades estatais suficientes para tanto. Todavia há aprendizados significativos a cada nova política e nova cooperação. A tendência é que no futuro essas capacidades sejam suficientes para que o Estado realize todo processo sozinho, caso queira. Entretanto, para utilizar esse mecanismo é necessária vontade política. E quem domina a política paraguaia ainda são os homens. Apesar dos progressos, na área de representação política das mulheres eles são pouco percebidos. É nesse momento que o patriarcado paraguaio reage às mudanças. Assim, enquanto as mulheres não tomarem decisões em todos os âmbitos, a estrutura permanecerá a mesma, e no patriarcado, algumas delas podem ter vez, mas nunca todas.