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Resumen de ponencia
Movimentos sociais, ativismos e a sociabilidade política brasileira recente

Grupo de Trabajo CLACSO: La formación de la cultura democrática por las izquierdas

*Fabio Jose Bechara Sanchez
*Joana Barros



Este texto trás ao centro do debate a configuração do que, grosso modo, vem sendo nomeando como “novas formas de fazer política”. Esta produção acadêmica e os debates em torno de suas polêmicas estão informados pelo aparecimento de movimentos de forte cunho autonomista, de ação de direta, de rejeição aos formatos partidários e de afirmação de pautas de grupos e ou coletivos identitários. Flagramos nas transformações que acompanhamos em nossas pesquisas em curso um debate que se configura sobre os próprios sujeitos políticos destes processos.
Importa dizer que parte substantiva do que vem sendo produzido sobre o tema nas universidades brasileiras está, por um lado, fortemente tensionado e ou influenciado pelo aparecimento de novas formas de concepção e ação distanciadas do que se consolidou como prática dos movimentos sociais, referidos aos anos 1980 de redemocratização do país. E, por outro lado, um conjunto não pouco expressivo de pesquisas (e núcleos de pesquisadores) estão a lidar com um novo formato de produção acadêmica que é fruto do ingresso de uma população de jovens que não tinha acesso a universidade, de origem mais pobre, que ao ingressarem na universidade reivindicam para si um “lugar de fala” que se desloca do lugar de “objetos de pesquisa” ou de informantes de pesquisas para tornarem-se eles mesmo produtores de conhecimento. Não por acaso, parte desta produção mais recente conecta-se com processos de transformação que flagramos
Patrícia Birmam chama atenção sobre o compromisso político e ético da etnografia de ouvir o outro de maneira a provocar este outro a uma reflexão sobre sua própria trajetória, e neste processo de rememoração, neste trabalho da memória, estabelecer sentidos ocultos ou apagados àquilo que vive, restituindo sentido, estabelecendo plausibilidade, conferindo legibilidade aos processos muitas vezes vivenciados como pura heteronomia.
Assim, a nomeação emerge como categoria e processo fundamentais e nos permite, desde a Universidade, questionar e debater as próprias categorias com as quais nomeamos o que está em pauta em nossas pesquisas.
Retomando um debate proposto por Jacques Rancière, a nomeação de um processo como incompletude é ela mesma sua produção em negativo, como fantasmagoria:
Mas também esta angustia – da palavra que nãopassa, da história que não chega a ser escrita, de homens que nem a palavra nem o tempo ligam num sujeito da história – é uma velha angústia, uma angústia inaugural que o marxismo localizou e exorcizou no conceito lumpem-proletariado. Apesar dos esforços louváveis feitos para lhe dar uma genealogia econômico-social materialista, o lumpem-proletariado é em primeiro lugar um nome fantasmagórico, um nome de teatro, a encenação teatral de todos os fracassos da palavra erudita, o nome genérico do não-sentido, do desligamento, da não-relação. Esse nome de teatro fixa a não-relação e a nega ao lhe dar corpo no sistema das relações sociais. (Rancière, 1995: 183; grifos no original)
A nomeação destes sujeitos como os pobres, como aqueles que não têm trabalho, aqueles que vagam pelas cidades, ou como o lumpem-proletariado em tradição marxista ortodoxa - todas estas nomeações têm força de construção. Entretanto, são uma nomeação em negativo, a construção de uma imagem vazia, um lugar sem lugar. Ao usar termos como barbárie, incompletude, desmanche, desmonte para caracterizar os processos de transformação em curso, estamos nomeando parte da experiência social, política e mesmo urbana como uma falta, uma incompletude.
Quem melhor nos aproxima deste campo de questões que busca analisar o asfalto, mas sem deixar de ver as flores que eventualmente surjam em seus interstícios, utilizando uma imagem mais poética roubada de Drummond, são menos os autores Christian Laval e Pierre Dardot, em seu celebrado texto A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal, lançado em 2016, e mais Jacques Rancière, no texto O ódio à democracia. Neste texto, cuja primeira edição é de 2005, o autor debruça-se sobre o mesmo tempo histórico que o Laval e Dardot fazem, mas analisando a produção da impossibilidade da política como dissenso, como conflito, e a desconstrução daquilo que próprio Rancière aponta como o fundamento da política: a igualdade contingente. Ele avança na compreensão deste “ódio” como a reação ao excesso que é próprio da política, mostrando como a política não é uma substância ou uma essência a se realizar, reafirmando a possibilidade de encenação pública, da subjetivação política, a possibilidade de encenar outro mundo e disputar estes conteúdos e estes sentidos do mundo como a política, como capacidade de deslocar e disputar os sentidos do mundo e neste deslocamento dissensual e conflitivo produzir formas de reverter o dano, as desigualdades constitutivas do mundo policial.
A leitura com as lentes de Dardot e Laval da nova racionalidade neoliberal nos permite consideração do movimento hegemônico do capital, mas de alguma maneira impede que leiamos o mundo nesta fricção, que nos aproximemos em nossas pesquisas destes interstícios em disputa. Embora estejamos ativamente produzindo este mundo neoliberal, seguindo as pistas dos próprios autores, o mundo não é apenas dominação. E por isto importa o processo de nomeação e de narração destas experiências. Nomear é neste sentido resistir e reinventar novos sentidos neste e deste mundo em disputa.
De alguma maneira, o que apontam as trajetórias de nossos interlocutores em campo tem outro sentido: buscam em suas narrativas inverter esta lógica, numa tentativa de positivar suas experiências. O esforço analítico caminha, pois, não no sentido de encontrar a essência destes movimentos e sujeitos, mas, sim, de compreender aquilo que literatura vem nomeando como formas de aparecimento e de recrudescimento da barbárie, para além do esvaziamento como sua característica marcante e definidora. O processo de autonomeação de uma ocupação de fábrica falida por trabalhadores como autogestão; a ocupação do conjunto Pinheirinho cujos membros reivindicam-se ‘movimento de moradia’; os trabalhadores informais em Salvador reivindicando-se ‘movimento sem teto’; ou ainda os trabalhadores sem carteira assinada reivindicando-se trabalhadores – todas estas situações nos mostram que a construção destes sujeitos se faz na contraposição justamente a este lugar ou a esta figura em negativo, a este lugar vazio, que é a construção dos pobres, dos trabalhadores, dos “de baixo”, pra usar os termos do Florestan Fernandes, no país. Ou seja, estes ‘sem parcela’ e suas formas de resistência e de produção dos sentidos do urbano contrapõem-se a leitura hegemônica feita em negativo sobre formação social brasileira.




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* Sanchez
Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP. Sao Paulo, Brasil

* Barros
Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP. Sao Paulo, Brasil