O presente trabalho tem como objetivo apresentar questões acerca dos filmes de Ousmane Sembène, Emitai e Camp de Thiaroye, lançados respectivamente nos anos de 1971 e 1987, com o roteiro do próprio diretor. Nas obras acima nomeadas o cineasta procura discutir as violências do colonialismo praticado pelo governo francês durante a Segunda Guerra Mundial, as narrativas mostram como a população resistiu perante os desmandos com a população civil e os militares que participaram do esforço de guerra contra os nazistas. O processo citado nos ajuda a pensar sobre como a partir dessas violências os próprios africanos organizaram o seu descontentamento perante as formas de hierarquias que lhes eram impostas, dessa maneira, o filme apresenta a união como uma construção histórica dessas populações que reconstrói dentro do processo e propõe a luta pela sua libertação do julgo do colonialismo.
Nesse processo, procurou-se perceber os aspectos imagéticos e narrativos que o cineasta utiliza para transmitir a sua mensagem, fugindo das narrativas clássicas do cinema e do continente africano, na busca por uma história africana, indo nos aspectos do visível e do invisível da obra que possam descortinar as relações violentas do processo no discurso cinematográfico do diretor senegalês. Mostra, portanto, a sua visão e interpretação sobre a violência no Senegal, através da aldeia de Emitai, onde as mulheres resolvem negar dar o arroz para o governo colonial francês em protesto contra o sequestro de seus filhos para lutarem no estrangeiro, o filme se desenrola no debate sobre o que fazer perante a situação e o confronto aberto, dessa forma, variadas são as formas de resistências mostradas no filme. Camp de Thiaroye, por sua vez, apresenta a história do massacre de Thiaroye, acontecido no final da Segunda Guerra Mundial, onde soldados africanos reclamaram sobre o soldo que ganhavam em comparação com os dos soldados brancos franceses, muitas são as cenas da quebra do regime de colonialidade implementado no processo, questionando as noções e hierarquias de raça.
Assim, podemos produzir questões: Como o cineasta apresenta esses sujeitos? De que forma a violência colonial atinge a população africana no contexto? Qual a relação entre o racismo e o colonialismo apresentada no filme? Como os africanos entendem a modernidade imposta por eles pelo colonialismo? O audiovisual, desse modo, nos apresenta uma problemática tanto para a história tanto do cinema africano quanto para as lutas de libertação do continente, problematizando as categorias de cinema africano e de cinema político africano e os seus limites. Seus filmes, como muitos de seus colegas diretores, produziram nesse momento obras que eram carregadas de um discurso político, e dessa maneira eles também forneceram discursos contra os projetos europeus que estavam em voga no continente, discutindo as suas escolhas estéticas na construção do discurso cinematográfico vinculado ao contexto de libertação.
Pretendemos nesse trabalho também traçar um dialogo com a intelectualidade de África em sintonia com os diálogos do sul-sul, na sua discussão no questionamento da modernidade e da sua face nos países colonizados. As trocas intelectuais também se dará no campo dos estudos pós-coloniais, de intelectuais como Paul Gilroy, Stuart Hall, de maneira mais pontual, com os Estudos Subalternos, na Spivak, MBembe e Mudimbe e, por fim, com os estudos decoloniais ligados a Walter Mignolo, Valdes e Grosfoguel. Especialmente tratamos aqui com pesquisadores africanos do cinema e da própria obra de Sembène, além de outros estudiosos do continente que analisam o contexto. No diálogo com a decolonialidade delineamos a metodologia que nos ajuda a trabalhar com os documentos, buscando na categoria de giro decolonial o alicerce para construir uma história que busque escutar o que essas vozes têm para falar.
A vida do diretor é bastante rica em deslocamentos, tendo nascido na cidade de Zinguichor, na região de Casamance, ao sul do Senegal, filho da rápida união entre Ramaroulaye Ndiaye e Moussa Sembène, ele foi criado por sua avó materna, mas com proximidade com seu pai, um pescador do grupo étnico Lebu. A mãe de Sembène não aparece muito na sua biografia, mas é dada a informação que ela se mudou para Dakar e constituiu outra família. Posteriormente, ele trabalha como pedreiro em Dakar, com um de seus tios, quando com o advento da Segunda Guerra Mundial ele alistou-se no exército colonial francês tendo lutado na campanha do Deserto, no norte de África, momento que marcaria sua vida para sempre (Gadijgo, 2007).
Sua volta para o Senegal em meio a reorganização do país enquanto colônia francesa e o massacre de Thiaroye o marcam politicamente, sendo um dos pontos centrais para a formação de sua experiência enquanto um africano crítico ao colonialismo. Nessa época, o futuro diretor decide ir para a França, ver o país glorificado por todos, a despeito de conselhos dos seus amigos que diziam que ele só iria se entediar em um país que ele não conhecia ninguém. Em Marselha, Sembène trabalha como estivador e começa a participar da CGT (Confederação Geral do Trabalho) e ao Partido Comunista Francês, onde utilizou dos programas de formação dessas organizações para enriquecer-se culturalmente. Essas duas experiências de vida serão fundantes na formação da sua linha de militância política e artística, sua primeira obra, denominada, Le Docker Noir (1956), narra as experiências dessa época em uma história fictícia.
Sua vida tem um ponto de virada quando lhe acontece um acidente quando trabalhava nas docas, ferindo gravemente sua coluna e o deixando no hospital por vários meses. A partir desse momento, sem poder voltar ao trabalho de estivador, ele começa a escrever a obra acima citada e outras posteriormente como: Ô pays, mon beau peuple (1957), Les Bouts de bois de Dieu (1960), Le Mandat (1965), entre outros. Todos sem tradução para o português. Doravante sua carreira como escritor, seu questionamento sobre a capacidade que a literatura tinha para alcançar as grandes massas foi crescendo, pois ele entendia que o Senegal, e outras partes do continente, ainda eram iletradas. Esse sentimento faz com Sembène busque no cinema o formato para atingir o povo, indo estudar na Rússia, no estúdio Gorki, em 1963, retornando para o Senegal com uma velha câmera de 35 mm, começando uma carreira de meio século de produção cinematográfica simultaneamente a de escritor (Gadijgo, 2007).
A trajetória do cineasta, se dá também na chave de que ele foi um dos responsáveis pela criação do Festival de Cinema Pan-Africano (FESPACO), em Burkina Faso. O festival serve como celebração e troca de experiências entre os cineastas de todos os cantos do continente africano, particularmente pensado para tornar-se um espaço de congregação do sentimento pan-africano nas artes audiovisuais em detrimento aos festivais europeus ainda marcados com um olhar exótico sobre a produção do cinema africano. Como aponta Diawara (2010), a memória do diretor ainda é celebrada no festival, sendo uma referência e ao mesmo tempo uma sombra para as gerações de artistas do cinema que vieram em sua sequência.