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Resumen de ponencia
Deslocamentos e expulsões: a produção de uma favela no centro de SP

*Marina Mattar Soukef Nasser



O jovem Clayton, de apenas 11 anos, anda pelas ruas da favela sempre acompanhado de uma criança menor. Quando pergunto se é seu irmão, ele responde que não; é Rafaelzinho, seu vizinho, sempre calado e de olhar baixo. Seu sotaque é carregado e não nega suas origens: Clayton chegou a São Paulo há poucos meses do sertão baiano e o barraco na favela do moinho é sua primeira moradia aqui. Veio com sua mãe e irmão, deixando família lá. Rafael, seu vizinho, tem 8 anos e também não nasceu em São Paulo, é maranhense. “Aqui é uma maravilha”, disse sua mãe se referindo à favela, que nem pavimento possui. As duas crianças participam de uma oficina de boxe que acontece semanalmente na Favela do Moinho, conhecida por ser a última favela remanescente do centro paulistano.
Entre seus colegas de treino estão Vanessa, uma jovem de 12 anos, e seu padrasto, Mohamed, de nacionalidade tanzaniana. Antes de chegar ao Brasil, onde está há mais de 5 anos, ele morou em países da Ásia e Oriente Médio e tentou entrar na Inglaterra, mas foi barrado pela imigração onde ficou detido por algumas semanas. Hoje, mora com sua esposa e enteadas em uma casa na Favela e trabalha vendendo espetos de carne na Avenida Rio Branco. Em uma tarde de treino, Mohamed me apresentou David, um amigo jamaicano que estava em São Paulo há apenas poucos dias. Carolina, outra adolescente que frequenta os treinos, tem 13 anos e se mudou para a Favela do Moinho quando ainda era muito pequena junto de sua mãe e irmãos. Despejados da Favela do Gato, localizada na região do Bom Retiro, a família construiu uma nova habitação na favela do Moinho que ainda se consolidava.
Os primeiros ocupantes do terreno chegaram em 1995 e montaram seus barracos embaixo do viaduto Orlando Murgel. Em 2000, moradores antigos relatam que a favela começou a se expandir para dentro do terreno onde, até os anos 1980, funcionou o Moinho Central. Segundo eles, chegavam pessoas vítimas de despejos de outros assentamentos irregulares da cidade, como Ana e sua família. Não se sabe ao certo quantas pessoas moram atualmente na favela, mas estima-se que cerca de 2 mil; mas a comunidade chegou a reunir de 5 a 6 mil moradores antes dos incêndios de 2011 e 2012. Hoje, o aluguel de uma casa simples está em torno dos 400 reais, enquanto de uma maior, 600 reais; mas alguns moradores têm casa própria.
Existe, portanto, um processo contínuo de urbanização da favela do Moinho relacionado a dinâmicas sociais, econômicas e políticas que ocorrem em outros espaços da cidade, mas também do Brasil e do mundo. Historicamente, a favela se constituiu depois de uma série de desocupações e deslocamentos de outros assentamentos irregulares na cidade; hoje, depois de muitos moradores terem deixado suas casas por conta do fogo, a chegada de novos ocupantes é contínua. Novos barracos são erguidos, ruas então incendiadas foram reocupadas, em um trânsito constante e dinâmico de pessoas mesmo em um território constantemente ameaçado de remoção.
Trata-se de um processo de urbanização que articula, portanto, dinâmicas de expulsão de pessoas de suas casas e/ou locais de origem com a concentração dessas em um assentamento irregular de moradia no centro da cidade de São Paulo. A Favela do Moinho pode ser considerada, assim, um espaço conector de pessoas que experienciaram diferentes tipos de deslocamentos, construída e produzida por essas redes multiescalares e trajetórias entre localidades.
A presente apresentação parte de uma pesquisa de doutorado em andamento que tem como problema compreender os nexos entre novas formas de deslocamento e produção dos espaços urbanos. A partir de uma etnografia realizada na Favela do Moinho, são reconstruídas as trajetórias de seus moradores e dessa territorialidade, construídas frente a processos de expulsão (Sassen) e despossessão (Harvey). Neste sentido, segue a ideia desenvolvida por Feldman-Bianco de “deslocados”; categoria que parece abarcar os moradores da Favela do Moinho em todas as suas diversidades e desigualdades.




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* Mattar Soukef Nasser
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas . Pós-Graduação de Filosofia e Ciências Humanas . Universidade Estadual de Campinas - IFCH/UNICAMP. Campinas-SP, Brasil