SOBRE A IDENTIDADE DOS GUARDIÕES DE SEMENTES E SUAS ORGANIZAÇÕES E A CONSERVAÇÃO DOS RECURSOS GENÉTICOS
Patrícia Martins da Silva; Irajá Ferreira Antunes; Gilberto Antônio Peripolli Bevilaqua
Fruto do crescente reconhecimento da importância da agrobiodiversidade nos processos de manutenção e qualificação dos hábitos alimentares, observado nos mais diversos conglomerados humanos, evidencia-se a figura do ser humano e suas diversas formações de agriculturas correlacionadas, os quais as vem mantendo ao longo dos séculos (ANTUNES, et. al 2016). No Brasil, inúmeros trabalhos têm destacado o importante papel das comunidades de agricultores tradicionais na conservação e uso dos recursos naturais desenvolvendo modos próprios de vida e de agricultura em interação com os (agro)ecossistemas em que vivem, tornando-se assim decisivos para a sua sobrevivência e do ambiente em que ocupam. Entre estes, cita-se os casos dos faxinalenses no Paraná, as quebradeiras de coco na Mata dos Cocais, os geraizeiros e populações extrativistas no Norte do estado de Minas Gerais, as comunidades pesqueiras e vazanteiras que ocorrem nas margens do rio São Francisco, os caiçaras no estado do Rio de Janeiro, os quilombolas e as populações indígenas, e tantos outros espalhados ao longo do território brasileiro (MOTOKI, et. al, 2018). Em comum, a defesa do território, as memórias e experiências, maneiras de viver, que contrariam o mito da conservação pela natureza cercada, intocada, ao mesmo tempo em que apontam, cotidianamente, a necessidade e possibilidade de fundação de uma nova racionalidade nas relações de produção da vida, considerando o ser humano e o ambiente. Neste marco, considera-se a questão das sementes crioulas, variedades conservadas em uso por populações camponesas através de práticas contínuas de multiplicação e seleção realizadas conforme seus sistemas de valores, em interação com o ambiente que ocupam. Antunes et al (2016) abordam o papel do guardião de sementes a partir da sua permanente presença junto às plantas que cultiva contribuindo decisiva e simultaneamente para a sua sobrevivência e das mesmas, inferindo como elemento primordial na questão da sobrevivência. As reflexões apresentadas no presente trabalho resultam da experiência compartilhada pelos autores junto aos guardiões de sementes, movimentos sociais, e suas organizações no estado do Rio Grande do Sul/BR, constituindo uma trajetória de pesquisa e desenvolvimento, iniciada a partir dos anos 2000, a qual, para além das ações direcionadas à conservação do germoplasma, têm colocado em evidência e buscado refletir sobre os atores sociais e sua relação com as sementes (BEVILAQUA, et. al, 2014; SILVA, et. al, 2014). Logo, identificou-se que as práticas de conservação situam-se no marco da resistência, na medida que interpelam as relações sociais predominantes, expondo as fronteiras estabelecidas e distinguindo-se em processos identitários que se produzem, ao mesmo tempo em que apresentam diversos elementos compartilhados. Dentre estes, destacam-se: a intensa relação com o território, a defesa do acesso à terra, a agrobiodiversidade percebida como um bem comum, a conservação atrelada ao uso e à segurança alimentar, a preocupação com a qualidade de vida e longevidade do sistema de produção, a cooperação e solidariedade entremeadas à questão da sobrevivência. Logo, a aproximação entre os atores sociais mencionados, tornou-se naturalmente uma resultante, ao mesmo tempo em que o inter-reconhecimento e identificação, tem se demonstrado potencialmente catalizador da conservação da agrobiodiversidade e do fortalecimento dos respectivos processos de luta e resistência mencionados. Neste quadro, considera-se as feiras de troca de sementes locais e regionais, os encontros promovidos pelos movimentos sociais e organizações, e os seminários da Agrobiodiversidade e Segurança Alimentar realizados regularmente no âmbito deste trabalho. Ao final, tal complexidade, ao abordar a conservação da agrobiodiversidade, em especial das sementes crioulas, remete à necessidade de reconhecimento e elaboração de políticas públicas que abriguem a figura dos guardiões, movimentos sociais e organizações, considerando sua indissociável importância na conservação dos recursos genéticos.
Referências:
ANTUNES, I.F; SILVA, P.M; FEIJÓ, C.T; BEVILAQUA, G.P. Sobre a natureza do guardião de sementes e a conservação dos recursos genéticos vegetais. Anais IV Congresso Brasileiro de Recursos Genéticos. Curitiba/PR, 2016.
ANTUNES, et. al. Evolução histórica da identidade do guardião de sementes no RS. In: Agrobiodiversidade. Brasília: Embrapa/DF, p. 253-279, 2015.
MOTOKI, C; MOTA, J; BARTABURU, X; Comunidades tradicionais. Repórter Brasil, 2018. Disponível em: http://reporterbrasil.org.br/comunidadestradicionais/ . Acesso em: fev. 2018.
BEVILAQUA, et. al; Agricultores guardiões de sementes e ampliação da agrobiodiversidade. In: Cadernos de Ciência e Tecnologia, Brasília, v. 31, n.1, p. 99-118, 2014.
SILVA, et. al; Rede de Sementes Agroecológicas Bionatur: uma trajetória de luta e superação. In: Agriculturas, v. 11, n. 1, p. 33-37, 2014.