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Resumen de ponencia
Deixando os mais afetados decidirem: notas sobre o estudo antropológico da migração familiar de brasileiros para a Colômbia

*Diana Patricia Bolaños Erazo



O presente trabalho debate as questões referentes à migração, considerando seu duplo caráter, os dois universos que compõem o ato e direito de migrar: o mundo da emigração e o da imigração dos brasileiros na Colômbia, considerando tal fenômeno como um fato social total que abrange as dimensões econômicas, religiosas e sociais.
O lugar da pesquisa é Cali, uma cidade do sudeste da Colômbia de pouco mais de dois milhões de habitantes. É considerada como a terceira maior cidade do país e uma das cidades com maior quantidade de multinacionais dentro do território nacional. As informações coletadas para a etnografia surgiram a partir de um trabalho de campo realizado entre dezembro de 2014 e março de 2018. É importante falar que este campo não foi continuo, pelo contrário, ele teve vários momentos onde houve uma diminuição da interação face a face, principalmente quando iniciei o mestrado e me desloquei até o Brasil, sem significar a perda total do contato, pois continuei fazendo parte dos círculos de brasileiros através das redes sociais Facebook e Instagram e aproveitei algumas das viagens que fizeram até o Brasil para me juntar a eles e fazer algumas entrevistas, assim como minhas viagens pessoais para rever minha família para fazer trabalho de campo
Ao realizar uma pesquisa sobre os migrantes brasileiros na Colômbia ou até mesmo em Cali, são poucas as fontes que podem ser consultadas. Apesar de não ter outras pesquisas sobre brasileiros na Colômbia, dados sobre brasileiros em outros países como Estados Unidos e Reino Unido foram muito úteis e pesquisas que davam conta das práticas alimentares ou rearranjos de gênero e familiares dos migrantes brasileiros indistintamente do país de migração serviram como referencial teórico e estado da arte.
Através de entrevistas e de observação participante entre 2016-2017 (algumas destas entrevistas foram multi-situadas, isto é, realizadas em Cali, no Brasil, através da Internet) consegui evidenciar alguns parâmetros que me ajudam a compreender a migração brasileira na Colômbia, principalmente aquela que está motivada pelo trabalho.
Os brasileiros estão migrando a trabalho através das multinacionais ou como consultores de importantes empresas colombianas, podendo migrar - além de com um salário definido, moradia e saúde garantidos- com seu núcleo familiar mais próximo, o que constitui um diferencial em relação aos outros fluxos migratórios que se evidenciam no país, como o caso dos venezuelanos, por exemplo, conformando uma elite econômica e cultural dentro das cidades nas quais se inserem.
Por tanto, e de acordo com Sayad, um imigrante é essencialmente uma força de trabalho, provisória, temporária e em transito. Foi o trabalho que fez nascer ao imigrante, que o fez existir, é ele, quando termina, que faz “morrer” o imigrante, que o empurra ao não-ser. “Não se sabe mais se se trata de um estado provisório que se gosta de prolongar indefinidamente ou, ao contrário, se se trata de um estado mais duradouro, mas que se gosta de viver com um intenso sentimento de provisoriedade” (SAYAD, 1998, p 46).
O fato de estes imigrantes brasileiros constituírem uma elite econômica e social no momento de iniciar seu projeto migratório e de viajar com redes estabelecidas, não quer dizer que eles não passem pelas inclemências que outros imigrantes passam, mas que tem um aparato institucional por trás que os protege e os transforma, inclusive, nenhum deles teve a experiência pessoal de ter que solicitar por si mesmos, o visto. Suas empresas destino realizam toda a tramitação necessária, evitando esse primeiro contato do migrante com as instituições que detém o controle migratório no país.
É preciso, então, fazer gala de suas qualidades para a adaptação, para aprender tudo de novo, para compreender e traduzir para si mesmo, aquilo que está vivendo, de negociar sua identidade com o novo mundo no qual está imerso.Muitas vezes tal negociação se dá em espaços diferentes à vida pública, o ao próprio mundo laboral, uma vez que os brasileiros, geralmente os homens, viajam para exercer altos cargos gerenciais e perante o qual, preferem manejar um perfil baixo entre seus funcionários e acabam não se ‘misturando’ para evitar possíveis fofocas ou maus-entendidos. Esta condição os limita bastante, ao ponto de deixar a sua vida social para atrás, sendo sua vida privada, doméstica, a mais importante. Assim, é a casa e a família, o componente vital destes migrantes.
Nesses casos, os brasileiros, especificamente as mulheres, agem como coesoras do grupo social, ao entrar em contato com as esposas de outros brasileiros em igualdade de condições (constituem uma elite econômica, deixaram seus trabalhos e projetos pessoais no Brasil a fim de apoiar seus esposos no projeto migratório, com filhos) para reapropriarse e deixar sair sua brasilianidade em Cali. Assim, enquanto os homens se dedicam à vida pública no trabalho, as esposas trabalham a dimensão doméstica, para, posteriormente, ambos se juntarem e recompor a vida social, compartilhada com outros brasileiros.
Essa negociação, que ajudaria no processo de adaptação e aceitação pelos colombianos das suas identidades, é dividida em dois aspectos: o eu social (quando juntos a outros brasileiros, ou colombianos se for o caso) e o eu profissional (especificamente nos seus lugares de trabalho).
É importante salientar que este trabalho, é um dos ‘pés’ de uma dissertação em construção, que pretende abranger os aspectos mais importantes da migração brasileira à Colômbia: a família, o trabalho, os eventos etnográficos, o mundo da emigração e o mundo da imigração.

Bibliografia
SAYAD, Abdelmalek, O retorno, elemento constitutivo da condição do imigrante. In: Revista Travessia, número especial, 2000.






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* Bolaños Erazo
Universidade Federal de Santa Maria UFSM. Santa Maria, Brasil